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EDIÇÃO 3

E3-50 Do amor transferencial freudiano à evocação de um analista

Sandro de Carvalho Moreira[i]
Geraldo Majela Martins[ii]

RESUMO 

Este artigo visa construir uma articulação possível, pela orientação teórica da clínica psicanalítica, em relação ao amor transferencial, objetivando o trabalho de enamoramento analista/analisando, frente aos significantes que o sujeito anuncia a partir da associação livre. Entendemos pelo viés psicanalítico, quando o sujeito, ‘’quer saber’’, o que está causando seu sofrimento, é que ele procura um analista. Saber o momento transferencial amoroso é um manejo clínico, identificado não por ‘’’saberes’’, mas por uma escuta lapidada pela maestria do analista. Esta é a questão que apresentamos neste artigo.

Palavras – chave: Transferência, Amor, Saber, Resistência na Clínica

 1. INTRODUÇÃO

É fato que desde os primórdios da psicanálise se questiona as bases teóricas / metodológicas de Sigmund Freud, no entanto podemos dizer que Freud nem sempre foi ‘’Freudiano’’ e sim seus discípulos nos anos posteriores.

O pensamento ou movimento de nossa cultura nesta atualidade  propõe ao sujeito um saber metodológico,  em que ele se considera detentor de um lugar imerso em uma pretensa objetividade,  alienado ou motivado por um alterego simbólico. Este saber alienado provoca sintomas que inscreve o sujeito em uma neurose de forças opostas a ‘’si’’,  que o aprisiona em sua luta entre querer e desejar,  já que esta última é regida pelo inconsciente.

Da questão levantada, nos serviremos do texto ‘’observacões-sobre-o-amor-transferêncial Freud’’ (1914), para construirmos o enunciado que nos dirige sob um prisma, que, segundo Freud, o acesso ao saber inconsciente se faz pela via do amor transferêncial, pela confiança que emerge entre o analista e analisando.

Tal aspecto posiciona o sujeito ao encontro de seu desejo objetal, norteado sempre pelos aspectos ligados pela falta, que persiste, insiste e quer se fazer consciente.

A subjetividade contemporânea impõe suas marcas no sujeito desejante, a contemporaneidade produz um sujeito marcado em seus desejos, tornando-o internetizado, globalizado, celularizado, secularizado, capitalizado pelo magma do mercantilismo ocidental.

Surge diante desses paradigmas, o sujeito da análise, faltoso, despojado de seu ‘’isso’’, dominado pela pulsão de morte se torna escravo de seus mais elevados valores. Até que o vulcão libidinal se veste de neuroses sintomáticas, então da falta, eleva-se o sofrimento psíquico, carregado por um corpo que pede descanso, alívio de algo que atravessa o sujeito, já descaracterizado do bem-estar produzido pelos seus ‘’gadgests’’, se apresenta angustiado, deslocado de sentido.

Amor é o que se aprende no limite, depois de se arquivar toda a ciência herdada, ouvida. Amor começa tarde (DRUMMOND, 1973, p.4).

A procura amorosa se manifesta de forma sintomática e sempre regida pelo inconsciente do sujeito, que investe libidinalmente no objeto, crendo que esse irá saciá-lo, manifestando um sentimento inicial de grande gozo e sensação de completude. De todas as formas, o sujeito da análise se angustia pela via do amor, ordem concreta de suas fantasias do ponto de vista nas representações das sexualidades infantis Freudianas. Depois de investido, ou melhor,  de vestir-se desta libido, torna o sujeito empobrecido, dominado pela moratória do desejo inconsciente que o devora e o marca como resto que perdeu a nau que comandava seu querer consciente.

À primeira vista, certamente não parece que o fato de a paciente se enamorar na transferência possa resultar em qualquer vantagem para o tratamento. Por mais dócil que tenha sido até então, ela repentinamente perde toda a compreensão do tratamento e todo o interesse nele, e não falará ou ouvirá a respeito de nada que não seja o seu amor, que exige que seja retribuído (FREUD, 1914, p. 211).

Dirá ainda que:

Todo principiante em psicanálise provavelmente se sente alarmado, de início, pelas dificuldades que lhe estão reservadas quando vier a “interpretar” as associações do paciente e lidar com a reprodução do reprimido. Quando chega a ocasião, contudo, logo aprende a encarar estas dificuldades como insignificantes e, ao invés, fica convencido de que as únicas dificuldades realmente sérias que tem de enfrentar residem no “manejo” da transferência (FREUD, 1914, p.208).

Procuramos, por meio do escrito de Freud (1914), apresentar o discurso analítico, tomando, por exemplo, prático o caso de Dora. Dora, 43 anos de idade, vinda de um relacionamento de 20 anos, casada, tendo dois filhos desta relação, se encaminha para clínica da Newton, com uma queixa de estar vivendo muito nervosa, não conseguindo estabelecer os valores pessoais e lidar com conflitos familiares. Na primeira sessão, traz uma narrativa de sua situação atual, na qual o cenário retrata problemas de relacionamento conjugal e situação pessoal fragmentada.

Dora diz que o motivo da procura foi um nervosismo constante que está vivendo e tenta dar conta de sua vida, casa, do lar, das coisas necessárias, mas ”tudo sobra pra ela”. Desde o começo do relacionamento, veio a gravidez, que eu não esperava e tive que assumir tudo sozinha na casa da minha irmã, já que o Roberto não tinha como assumir as responsabilidades, pois não tinha onde cair morto. Fiquei desamparada, sofri igual um cão, fiz de tudo um pouco, até conversar com Roberto sobre a situação e disse a ele, depois que minha filha completou 9 anos, que se ele não nos assumir, eu vou procurar outro para viver com ele. Já sabendo que não é meu pensamento fazer isso, pois para mim homem é um só, e já que perdi minha virgindade com ele, tem de ser ele para toda vida.

Então, conversando com ele, decidi ir morar com ele na casa de sua mãe, sendo alvo das fofocas e situações em que todos dão palpite sobre a relação, mas apóiam o jeito largado e irresponsável do Roberto viver sua vida.

Desde então, faço tudo, tomei a frente de construir uma casa em cima da casa da minha sogra a seu pedido, pois foi a única forma de sair um pouco do meio dos conflitos, houve um tempo em que eu tinha certa esperança das coisas em casa darem certas, mas o Roberto já me deu provas suficientes de que nada muda. Esta semana, sonhei que estava comprando semente de milho e que estava brigando com o vendedor, dizendo para ele me vender uma semente que me ajude e não semente que não presta, então saí de lá correndo e com raiva. A começar pelo meu relacionamento com ele, pois já faz três anos que eu durmo no quarto e ele na sala, não diz nada, não fala nada, permanece um nada na minha vida, se pelo menos ele fosse vivo, quero dizer presente, como meu pai foi.
Sobre os aspectos ligados ao termo ‘’transferência’’, penso em duas direções, como  analista.

A primeira direção, ligada ao padrão de sentimentos ou repetições de sentimentos, construído na infância; Na segunda, penso estar relacionada com a falta ocasionada em detrimento das relações objetais, que o sujeito produz diante de seus conflitos.

É claro que no texto mencionado, Freud propõe somente a forma amorosa, significativa para o que ele designa de amor transferêncial.

A cliente demonstrou uma projeção histérica no desenvolvimento de sua fala, ao ser ouvida, apontou para uma constante desvalorização do seu desejo diante do Outro, que lhe falta, (Roberto) e que a remete a confrontar-se com seu principio de realidade, se esforçando para superar os laços que lhe causam angústia. Ela no transcorrer da análise, inconscientemente é claro, constrói em cima da casa da sogra, sonha com sementes que estão podres, não servindo para uma construção ‘’alimentícia’’, sonha com o pedreiro e o analista, projetando uma evocação por parte do analista que não corresponde à sua evocação. Neste caso, o sujeito da análise se posiciona em um lugar que faz do sintoma manifesto, seu próprio mecanismo de culpa, pelo fato de não conseguir atingir seus objetivos.

Em meio a sua construção em análise, Dora faz uma apresentação que aponta gradativamente ao enamoramento que convocará o analista, dando início ao tratamento. No entanto, diante deste caso, não pude perceber o momento exato em que Dora me convoca para o trabalho analítico e a mesma não sendo ouvida, remete sua convocação há um Outro, no caso o pedreiro que trabalhava na casa de sua mãe.

É difícil definir este enamoramento do ponto de vista clínico, mas, com uma boa base de supervisão, consegui enxergar este manejo do amor transferêncial, mas o ponto de entrada havia se precipitado, penso neste momento no fato da clínica onde muitos analistas, por não compreenderem tal movimento amoroso e sua evocação, lançam o analisando à sua própria sorte.

Neste movimento, não identificado na análise, é o que estou chamando de ‘’destratamento analítico’’, pois tal ocorrência promove uma lacuna entre analista/analisando. Dificilmente ocorrerá por parte do analista o resgate do tratamento eficaz, perdendo assim a oportunidade de postular um caso clínico que poderia ser bem sucedido do ponto de vista da psicanálise.

2. CONCLUSÃO

É necessário desenvolver na clínica, a partir dos estudos de caso, o manejo de uma escuta, que possibilite ao analista o viés interventivo no momento do ápice deste amor transferêncial. Sem dúvida, nos posicionamos nos pontos destacados por Freud, que o analista não deve dar  asas à imaginação flutuante desta relação, para que não se perca a condução clínica de um tratamento eficaz para o alívio do analisando que se apresenta na clínica por meio de um ‘’sofrer’’.


REFERÊNCIAS 

FREUD, Sigmund (1914). Observações sobre o amor transferência. ln____: 0 caso Schreber, artigos sobre técnicas e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1980.  (Edição standard brasileira de obras completas de Sigmund Freud, 12 ). p. 208 – 221.

ANDRADE, Drummond (1973)As Impurezas do Branco In:________. Amor e seu Tempo. Rio de Janeiro: José Olympio/INL, 1973.

 


[i] Acadêmico do 10º período do Curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

[ii] Professor supervisor de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

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