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EDIÇÃO 3

E3-52 A transferência na clínica

Nenhuma Psicanálise escapa à transferência.
Michel Silvestre

 

Sibele Fideles Fernandes[i] 
Geraldo Majela Martins[ii]

RESUMO

Este artigo discorre sobre a importância da transferência em um tratamento analítico, e as possíveis consequências que este tratamento pode sofrer quando o paciente resiste à transferência. O artigo também apresentará relatos de caso observados durante o estágio na Clínica de Psicologia Newton Paiva, articulados com a teoria psicanalítica. Aborda, portanto, a transferência na clínica, pontuando a relevância da mesma para um tratamento, e o fracasso do tratamento quando esta é resistida.

Palavras-chave: Transferência, Psicanálise, Resistência.

 

1. INTRODUÇÃO

A produção desse artigo é requisito do estágio supervisionado VII – Abordagem Psicanálise II, com orientação do professor supervisor Geraldo Majela Martins, do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva.

Atualmente na clínica, podemos perceber a dificuldade dos analistas em dar sequência a seus trabalhos, devido aos pacientes estarem com uma transferência hostil, sempre destrutiva ao outro. Cabe ao analista manejar essa transferência, lutando contra as resistências, pois essas acompanharão o tratamento passo a passo. Em cada atuação do paciente em tratamento, deve-se ser levado em conta, trabalhando-se através de seu sintoma para superá-lo, e assim, continuar com a análise. Dessa forma, o paciente não transferido passará a transferir e a desejar a cura. Em suma, é importante salientar que não há tratamento analítico sem que alguma transferência tenha se estabelecido, pois o analista é efeito da transferência.

Abordaremos o caso de uma paciente cujo nome é Maria de Lourdes[iii], de 50 anos, que aparece na clínica de Psicologia[iv] com a queixa de sofrer de inconstância de humor e, ainda, de priorizar os outros, esquecendo-se de si mesma. Nos poucos atendimentos realizados, fica claro que a paciente resistiu à transferência, interrompendo o tratamento. A paciente, em dois semestres de atendimento, compareceu pouquíssimas vezes, sempre desmarcando as sessões, e quando esta comparecia, era sempre de uma forma hostil, exigia respostas da estagiária para suas queixas, sempre direcionadas ao outro, esta nunca se implicando.

 

2. A TRANSFERÊNCIA COMO RESISTÊNCIA

De acordo com Michel Silvestre, nenhuma psicanálise foge da transferência, e é neste sentido que direcionamos ao texto “A Dinâmica da Transferência”, escrito em 1912, em que Freud explica a transferência como uma repetição-resistência, e como esta desempenha seu papel.

Freud, (1912) salienta que, em análise, a transferência surge como a resistência mais poderosa ao tratamento. E por que a transferência aparece na psicanálise como resistência? É Freud (1912) quem nos diz:

[…] a parte da libido que é capaz de se tornar consciente e se acha dirigida para a realidade é diminuída, e a parte que se dirige para longe da realidade e é inconsciente, e que embora possa ainda alimentar as fantasias do indivíduo, pertence toda via ao inconsciente, é proporcionalmente aumentada. A libido entrou num curso regressivo e reviveu as imagos infantis do indivíduo. O tratamento analítico então passa a segui-la; ele procura rastrear a libido, torná-la acessível à consciência e, enfim, útil a realidade. No ponto em que as investigações da análise deparam com a libido retirada em seu esconderijo, está fadado a irromper um combate; todas as forças que fizeram a libido regredir ergue-se-ão como ‘resistências’ ao trabalho de análise, a fim de conservar o novo estado de coisas (FREUD, 1912, p.137). 

Segundo Freud (1912), o médico, ao investigar a libido que fugira do consciente do paciente, entra no inconsciente, provocando reações que viemos a conhecer a partir dos estudos dos sonhos. Ou seja, como acontece nos sonhos, os impulsos inconscientes não desejam ser recordados, mas reproduzem de acordo com a atemporalidade do inconsciente sua capacidade de alucinação em ação, sem levar em conta a situação real. Resumindo, o paciente repete, ele reproduz em atos.

Durante o estágio realizado na Clínica, aconteceram alguns episódios que podem exemplificar a resistência a transferência, e a hostilidade da paciente Maria de Lourdes com a estagiária, mostradas a seguir:

 “Então, meu namorado vive enchendo o meu saco reclamando que sou muito nervosa, que preciso de me tratar, que sou doida, então quis vim para ver se preciso mesmo de tratamento. Todo dia ele fala na minha cabeça para eu procurar um psicólogo, então vim ver como é isso”. (SIC)

“Vim porque ele pediu, mas acaba que de tanto que eles falam na nossa cabeça, a gente acaba achando mesmo que temos algum problema. Mas e ai, o que você acha, vim aqui porque quero te escutar e não pra falar, me diz ai qual é o meu problema?” (SIC).

 “Estou bem, está tudo bem. Mas hoje eu vim para você falar, quero te escutar hoje. Na outra sessão só eu quem falei. Eu falei demais e você quase não falou. Agora quero que você fale o que eu devo fazer” (SIC).

 “Não me lembro da minha mãe, esqueci mesmo. Não me lembro de seu rosto, só por uma foto que tenho dela, sempre que falo da minha mãe, vem essa imagem dessa foto na minha cabeça. Tinha cinco anos. Eu me lembro do dia em que ela morreu. Ela estava ardendo em febre, estava delirando também, xingava todo mundo, só ouvia os berros e gritos dela lá fora. Achei que nunca mais ia me lembrar disso, mas estou vendo a cena como se fosse ontem”(SIC).

 Não me recordo da presença do meu pai neste dia, ele não aceitou a morte dela. Ele depois nos abandonou logo depois que ela morreu. Ele foi embora, sumiu do mapa” (SIC). 

Após a estagiária negociar o valor das sessões, a paciente diz: “Sim, o valor está ótimo, mas na semana que eu não tiver eu não virei. Mas eu vou ter sim, pode deixar que eu virei sim”. (SIC). Após esse episódio, paciente desmarca quatro sessões consecutivas.

Diante dessa realidade, percebemos uma insistente resistência por parte da paciente. Freud (1913) nos informa que uma forte resistência adiantou-se, a fim de defender a neurose e que temos de aceitar o desafio e enfrentá-la.

No artigo Lembrar, repetir e trabalhar através (1914) Freud alerta para o fato de que, quanto maior for a resistência, menor será a memorização e maior será a atuação. Freud neste texto acena que, quando a transferência se torna excessiva ou hostil, a resistência é que determina o material que será repetido. O paciente repete seus sintomas, como forma de afastar seu material do passado e mantê-lo firme ao presente, ou seja, repete para não recordar.

Cabe ao analista dar tempo ao analisando, de aprofundar-se na resistência desconhecida, trabalhando através dela para superá-la e assim continuar com a análise. Este trabalho conjunto com o analisando não é fácil, e é uma prova de paciência para o médico, pois consiste em descobrir as moções pulsionais recalcadas, que alimentam a resistência, fazendo com que o analisando possa trabalhar através dessa resistência. Todavia, o instrumento principal que pode transformar a compulsão a repetição em lembranças reside no manejo da transferência.

 

3. CONCLUSÃO

Podemos considerar que o analista tem que tomar o cuidado de perceber em que  lugar o paciente o colocou para não repetir uma transferência negativa ocorrida na vida do sujeito, que possa culminar na interrupção da análise.

Portanto, cada ato do analista tem que ter um efeito de corte, ou seja, tem que fazer o sujeito ir de contato ao seu desejo, pois o analista, não atendendo a demanda do analisante, deixando aparecer a falta e não dando resposta para as perguntas, fará com que o analisante se angustie, mas, consequentemente, produza algum saber sobre o seu desejo. Assim, o analista tem que ficar atento ao seu ato exercido sob transferência, para promover um efeito terapêutico para o paciente, fazendo com que o mesmo saiba como operar com sua pulsão no real, ou seja, em seus atos.

Entendemos então que o manejo da transferência é o que faz a análise ser ou não bem sucedida. Ser psicanalista é ter o manejo da transferência e, acima de tudo, poder suportá-la. Dessa forma, a transferência é, em última instância, um feixe de repetições voltados maciçamente para uma mesma e única figura: a figura do analista.

 

REFERÊNCIAS

 FREUD, Sigmund. (1912).  A dinâmica da transferência. In: ______. O caso de Schreber artigos sobre técnica e outros trabalhos. Tradução de JoséOctáviode Aguiar Abreu. Rio de Janeiro: Imago, 1969, p. 133-143. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 12)

______. (1913). Sobre o início do tratamento. (novas recomendações sobre a técnica da psicanálise I). In: ______. O caso de Schreber artigos sobre técnica e outros trabalhos. Tradução de JoséOctáviode Aguiar Abreu. Rio de Janeiro: Imago, 1969a, p.164-185. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 12)

______. (1914). Lembrar, repetir e trabalhar através (Erinner, Wiederholen und duchaarbeiten). Trad. Ana Maria Portugal M. Saliba. Belo Horizonte, ALEPH, 2000, p. 01- 06.

SILVESTRE, Michel. A Transferência. In: ______. Amanhã, a psicanálise. Tradução Ari Roitman. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1991, p. 48- 81.


[i] Acadêmica do 10º período do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

[ii] Professor supervisor de estágio do Centro Universitário Newton Paiva

[iii] O nome utilizado à paciente é fictício

[iv] Clínica-escola do Centro Universitário Newton Paiva

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