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EDIÇÃO 3

E3-53 O adolescente e a crise do pai

Soraia Rocha de Sousa[i]
Margaret Pires do Couto[ii]

RESUMO 

Este artigo apresentará o tema da adolescência e os possíveis conflitos existentes na relação com o pai, articulado com o atendimento clinico de um paciente na Clinica de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva. Nesta perspectiva, serão apresentadas algumas visões de Freud e Freda em relação a este embaraço vivido pelo adolescente, e as saídas que ele poderá encontrar para superar esta crise.

Palavras-chave: Crise, Adolescência, Pai, Desligamento.

 

Este artigo pretende discutir, segundo a perspectiva psicanalítica e a partir de alguns recortes dos atendimentos realizados com o paciente Carlos, na Clinica de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva, a crise que se instaura na relação entre adolescente e o pai.

Buscará discutir a adolescência e a crise de identidade, também chamada por Hugo Freda de crise do pai, como um fator importante para que ocorra um desligamento com o mesmo.  

Os pais de Carlos se separaram quando a criança tinha 3 anos de idade. Após o nascimento do irmão, fruto de um segundo relacionamento da mãe, Carlos, com 7 anos,  não quis mais morar com a mãe e foi morar com os avós maternos. Segundo a avó, posteriormente, a mãe separou-se novamente e, ao contrário do pai de Carlos, o segundo marido manteve contato e amistoso suporte ao irmão de Carlos. Isso provocou comparações por parte de Carlos, que não recebia a mesma atenção de seu pai.

De acordo com FREDA (1992), na adolescência, ocorre uma modificação na função do pai, pois, ao mesmo tempo em que sua posição é valorizada, é também rejeitada. O adolescente busca sua autonomia e seu lugar no mundo, e neste contexto, a função paterna deverá ter também uma nova forma. Mas essa situação causa prazer e desprazer e faz com que o adolescente busque administrá-la através dos sintomas que estabilizarão os comportamentos e manifestações que surgem.

No caso de Carlos, ele dizia ser revoltado com o pai, pois o mesmo passava meses sem o procurar, o que lhe causava muita insatisfação. Às vezes, o pai ligava, o chamava para ir ao seu encontro, mas Carlos se recusava, pois dizia não ser correto ele não estar sempre por perto ou procurá-lo com freqüência, fazendo o papel de pai. Mas, em outros momentos, Carlos aceitava-o e o colocava em grau de importância significativa em sua vida.

Carlos tentava dizer para si mesmo o quanto o pai era ausente em sua vida cotidiana, buscando em outras atividades, suprir esta falta. Encontros com amigos, jogos on-line, futebol, eram algumas formas encontradas por ele como substitutos do pai.

Carlos se diz também muito revoltado com a escola onde estuda. Dizia não gostar dos professores e não ver sentido em estudar.

Assim sendo, segundo Freud (1980),  nas relações com os professores, cria-se uma relação de ambiguidade, pois amamos, odiamos, criticamos, respeitamos, admiramos, antipatizamos, simpatizamos, enfim, atitudes contraditórias baseadas em nossas relações infantis. É como se eles provocassem oposição, porque se revive uma submissão ocorrida na infância, mas, também, vivencia-se grande afeição por eles como vivenciada na infância.

Segundo FREDA (1992), o enlaçamento social pode adquirir uma função especial para substituir a função do pai. As formas do Outro são constituídas por cada sujeito de um determinado jeito, e este Outro tem um nome que é preciso para cada sujeito. Para os adolescentes, muitas vezes não é possível nomear este Outro e, portanto, ele buscará nos laços sociais uma saída para esta instabilidade.

Tudo gira em torno do lugar substituto do pai, como nos diz FREDA (1992), e é esta substituição e desligamento do pai que definem a nova geração. Isto implica em “fazer sem o pai”, mas sem deixar de colocar em evidência a sua importância, pois, sem ele, o desligamento não ocorre. A crise da adolescência, portanto, pode ser entendida como a crise do pai. O adolescente faz desta crise uma condição para o sujeito. Crise é decisão, então, precisa verificar se esta crise pode ser assimilável pela recusa. A recusa do adolescente pode ser entendida como uma produção da crise, ou uma forma de ocultar uma tentativa de fazer-se um pai, por este não ter funcionado inteiramente.

Segundo Freud (1980), de todas as imagens da infância, sem dúvida nenhuma a do pai tem grande importância para o jovem adolescente. Tomando por base o mito grego de Édipo, um rapaz deverá amar seu pai, que é imagem do homem mais poderoso, o melhor, o mais sábio do mundo  e o rapaz deverá ter nele o modelo a ser seguido. Mas, também existe outro lado desta imagem, que é a de que o pai perturba, não deve ser somente imitado, mas também eliminado para que se tome seu lugar. Daí, surge a ambivalência emocional, oscilando entre impulsos afetivos e hostis em relação a este pai, sem que se possa anular um ou outro.

Segundo Freud (1980),  na segunda infância, a criança vislumbra um mundo exterior cheio de descobertas, mudando sua opinião em relação a este pai, fazendo assim, seu desligamento, o desligamento de seu ideal. Percebe que o pai não é o que ele esperava, e começa a ficar desapontado com ele. Esse desligamento, também necessário no desenvolvimento do jovem adolescente, ocorre surgindo ou transferindo para outros “pais” substitutos as expectativas não completadas pelo pai, como no caso dos professores. E após esta conquista e admiração por estes substitutos, também surge a hostilidade vivida com os pais na infância. Assim, estas experiências e comportamentos ambíguos por parte dos adolescentes em relação aos professores tornam-se compreensíveis e até desculpáveis.

Carlos também se revoltava quando algo que queria fazer era impedido por sua mãe ou avós. Ameaçava sair da escola se não realizassem seus desejos e vontades, pois se sentia responsável suficientemente para decidir sobre sua vida e atividades.

Em um determinado momento, Carlos demonstrou não querer mais continuar o tratamento na clínica. Isso aconteceu justamente após ele ter conseguido ir a um show que desejava muito e que precisou da ajuda do pai para conseguir ir. É possível que ele tenha conseguido se desvencilhar desse embaraço com o pai, quando o pai se fez presente, no momento certo para ele, tendo assim resolvido esta questão, fazendo o desligamento necessário do pai sem que este deixasse de ser importante em sua vida.

 

 REFERÊNCIAS

 FREDA, Hugo. Adolescência: o despertar. Rio de Janeiro: Kalimeros / Escola Brasileira de Psicanálise. Contra Capa, 1996. p. 182.

FREUD, Sigmund. Algumas reflexões sobre a psicologia do escolar (1914). In:

Obras completas. vol. XIII. Rio de Janeiro: Imago, 1980.


[i] Acadêmica do 10º período do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

[ii] Professora supervisora do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

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