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EDIÇÃO 3

E3-55 Um caso de homossexualidade masculina

 O que mais odeio é gente complicada e preconceituosa, hipocrisia e ser acordado.
Nenhuma outra coisa consegue ser pior do que isso”. – Cazuza


Vanessa Bruno da Silva[i]
Geraldo Martins Majela[ii]

RESUMO 

Este trabalho abordará questões e conceitos psicanalíticos sobre a homossexualidade masculina com o objetivo de relacionar esta teoria com o caso clínico atendido na Clinica de Psicologia Newton Paiva.

­­­­­­­­­­­­­­Palavras-chave: Sexualidade, Homossexualidade, Masculino, Complexo de Édipo.

 

Neste artigo, buscaremos abordar os conceitos psicanalíticos a respeito da homossexualidade masculina, baseando-nos nos atendimentos realizados na Clínica de Psicologia Newton Paiva, no segundo semestre de 2010, sob a supervisão do professor Geraldo Martins Majela.

O fragmento clínico apresentado será identificado como Pedro para manter a privacidade do paciente em questão.

Pedro, 25 anos, solteiro, reside com os pais e uma irmã mais nova. Possui também mais dois irmãos casados e dois sobrinhos que ainda são bebês. O paciente relata que todos da família, com exceção dos pais, sabem que ele é homossexual.  O mesmo não contou aos pais e disse ser um momento muito difícil; acha que nunca vai contar.

Depois de realizados dez atendimentos na Clínica de Psicologia Newton Paiva, uma de suas queixas em tratamento é o preconceito vivido por ser homossexual, e outra queixa é o medo de viver este preconceito, pois sua aparência não diz de sua sexualidade, mas, em momentos em que está em ambientes externos, na companhia de outro homem, sente-se muito exposto e sofre por medo de pessoas conhecidas o verem e julgá-lo.

Pedro conta que seu relacionamento com a mãe é muito bom. Ele zela muito por ela, e eles conversam muito um com o outro. Sua mãe diz que até ela completar sessenta anos vai resolver uma coisa em sua vida que está mal resolvida, Pedro já tentou perguntar a ela o que é, mas não consegue descobrir. Mas ele diz saber que é sobre ele. Pedro diz que ele e a mãe são muito ligados e acha que ela vai perguntar se ele é gay. Vai ser muito difícil, diz Pedro.

Com o pai, Pedro diz não se relacionar muito bem. Isso vem de sua escolha profissional. Seu pai queria que ele fizesse medicina, mas tentou vestibular algumas vezes e não passou. Depois o pai queria que ele trabalhasse na empresa dele, mas Pedro não aceitou e foi para Londres, ficou lá alguns meses, fez curso de culinária e, quando voltou, continuou na área de gastronomia. Seu irmão aceitou trabalhar com seu pai e, com isso, Pedro sente que o irmão é mais beneficiado que ele.

Pedro diz sentir-se inferior dentro de sua própria família pela questão de não trabalhar com o pai e não receber dele os mesmos benefícios materiais e afetivos.

Outra questão que Pedro traz em seus relatos é a falta de confiança nas pessoas. Ele sempre diz estar com um pé atrás. Que as pessoas são interesseiras e não amigas, e isso faz com que ele não sinta confiança nas pessoas e ache que ninguém gosta de homossexuais, ele sempre diz que, por mais que a sociedade aceite o homossexual, ele acha que não é verdade, nunca acredita.

Há quatro sessões, Pedro não comparece, pois está com um quadro de anemia profunda e devido a isso se encontra internado para tratamento médico.

 Após uma breve descrição do caso apresentado, pretende-se analisar a questão da homossexualidade sob a perspectiva da Psicanálise.

A homossexualidade masculina é uma questão extremamente complexa, com a qual a prática psicanalítica é levada a se deparar sob diversas formas e em contextos variados (ANDRE, 1995, p.113).

Em “A dissolução do complexo de Édipo” de Freud, vimos que o complexo de Édipo é o fenômeno central da primeira infância e, após esse período, a criança entra num outro determinado período chamado de Latência, em que ela fica até a adolescência. Segundo o autor, o complexo de Édipo está fadado a acabar, a ir em direção a uma destruição, a uma falta de sucesso, o que é causado por impossibilidades internas, passando logo para a fase seguinte, no caso o período de Latência. É nesse período que a sexualidade está de certa forma adormecida e voltará à tona na puberdade, quando o órgão genital já tiver assumido o seu papel principal. “Esse processo introduz o período de latência, que agora interrompe o período de desenvolvimento sexual da criança” (FREUD, 1923, p.221).

O Édipo é vivenciado de forma diferente entre os meninos e as meninas. A transformação do complexo de Édipo do menino é imposta quando ocorre a visão do órgão genital da menina.

Násio (1989), em “Os sete conceitos cruciais da psicanálise”, explica que para o menino o pênis é ameaçado, isso ocorre porque os meninos negam a falta do pênis, acreditando estar vendo o mesmo, considerando que ele ainda é pequeno e que irá crescer brevemente.

Ainda citando Násio (1989, p.23), a falta do pênis é concebida como o resultado de uma castração, e o menino vê-se então obrigado a se confrontar com a relação entre a castração e sua própria pessoa.

Freud (1975), em seu texto “O desenvolvimento da função sexual”, diz que apesar da opinião predominante a respeito da vida sexual humana consistir essencialmente na busca do contato do próprio órgão sexual com o de alguém do sexo oposto, constitui fato notório e marcante que existem pessoas que só são atraídas por pessoas do mesmo sexo e pelo genital deles. No caso de Pedro, esse fato é observado em seus relatos de relacionamentos com outros homens.

Pedro, em seus relatos, se diz muito apegado à mãe, e demonstra uma grande admiração pela mesma. De acordo com Andre (1995), encontramos nos homossexuais masculinos, na falta de atração erótica, um respeito muitas vezes exagerado pela mulher, especialmente pela mãe. Pela vertente dessa reverência pela mãe, pode-se interrogar o lugar e a função da homossexualidade na cultura.

Andre (1995) em “A impostura perversa” relata que uma das primeiras coisas que os homossexuais dizem é que não se sentem como “todo mundo”. Na verdade, não se reconhecem dentro do discurso geral e consequentemente não se sentem à vontade dentro do vínculo social instituído por esse discurso. Percebe-se esse fato na fala do paciente quando diz que não confia nas pessoas e que por mais que a sociedade diga que aceita o homossexual, ele acha que não é verdade, nunca acredita, acha que todas as pessoas são homofóbicas.

A homossexualidade masculina, cuja existência perdurou através dos séculos, agora faz suas proposições e suas exigências serem ouvidas no discurso do mal estar da nossa civilização, com a ênfase do recalcado, a ponto de chegar, em alguns lugares, a formar um verdadeiro sintoma da civilização. (ANDRE, 1995, p. 115)

Pedro vive esta experiência em suas relações familiares e sociais, se sentindo inferior aos demais.  Para ele, dizer-se homossexual ou não é fazer-se sujeito de um discurso para, em seguida, interrogar a coincidência ou a distância entre este discurso e o ser do sujeito.

Como dito anteriormente, Pedro encontra-se ausente das sessões por motivo de internação, e aguardamos seu retorno para dar continuar á sua análise.

REFERÊNCIAS 

ANDRE, Serge. A homossexualidade masculina e a cultura. In: ______. A impostura perversa. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.

FREUD. Sigmund (1937). O Desenvolvimento da Função Sexual. In:______. Moisés e o Monoteísmo. Esboço de psicanálise e Outros Trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1975. p. 177 a 181. (Edição Standart brasileira das obras psicológicas de Sigmund Freud, 23).

NASIO, Juan David. O conceito de Castração. In: ______. Os sete conceitos cruciais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1989.

Cazuza. Disponível em: <http://pensador.uol.com.br/autor/Cazuza/4/&gt;. Acesso em: 20 nov.2010.


[i] Acadêmica do 10º período do Curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

[ii] Professor Orientador do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

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