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EDIÇÃO 3

E3-56 Ofensa sexual e violência intrafamiliar contra a mulher

Violência é toda ação que desconsidera a legitimidade da diferença
e que tenta impor ao outro uma realidade – BAKMAN.

Viviane Cristina Felizardo Martins[i]
Genilce Rodrigues Cunha[ii]

RESUMO

Este artigo tem como objetivo propor uma reflexão acerca do forte impacto causado pela violência e pela ofensa sexual praticada contra a mulher, bem como mostrar a importância da realização de um acompanhamento psicológico tanto para a pessoa que sofre a violência ou a ofensa sexual quanto para a pessoa que pratica o ato.

Palavras-chave: Mulher. Ofensa sexual, Violência, Terapia familiar sistêmica.

Atualmente no Brasil e em todo o mundo, os temas ofensa sexual e violência contra a mulher têm sido evidenciados. Pesquisar as condições familiares que possibilitam a permanência de uma pessoa que pratica a ofensa sexual contra um ente querido dentro de casa não é uma tarefa fácil. A ofensa sexual pode ser cometida por pessoas próximas da família (pai, mãe, tios, primos, vizinhos etc.) ou estranhas.

O pensamento sistêmico é um novo paradigma para a ciência, uma visão de mundo, que amplia os conceitos de família e a definição de sistema. Sendo assim, abordar a violência e a ofensa sexual dentro da família – segundo uma perspectiva sistêmica – proporciona a criação de condições para auxiliar as pessoas que são vitimas da ofensa, mas permite também criar condições para um trabalho na busca da reabilitação do ofensor, pois cabe ressaltar que o ofensor pode ser um membro da família e uma figura importante no desenvolvimento emocional da pessoa ofendida.

A partir da visão sistêmica, pensar sobre a violência sexual é se propor a uma reflexão de forma relacional. Bowlby (1987, citado por Aun, 2001) pondera que o caminho é compreender o comportamento das pessoas que praticam o ato, tendo como base uma investigação da infância que eles tiveram e tentar ajudá-los. Um episódio de violência poderá, simultaneamente, gerar uma repetição transgeracional, já que os filhos desses pais podem também maltratar e rejeitar, perpetuando o ciclo de violência da família.

A relação familiar necessita do apoio psicológico para buscar o equilíbrio das dificuldades existentes. Todos precisam aprender seu papel dentro do sistema familiar. A busca para esse equilíbrio é intensa, e a participação de todos para a reorganização do sistema familiar tem que ser fortalecida com a ajuda de todos os membros da família. O bem-estar familiar e o bem-estar individual são peças fundamentais para permitir o desenvolvimento de cada membro.

De acordo com Bakman et al.  (2008) existem muitos fatores que levam uma pessoa a cometer um ato de violência ou ofensa sexual contra um ente querido.

Existem fatores individuais, como histórico de violência na família de origem; relacionais; como instabilidade no casamento, comunitários; como uma rede social precária; isolamento; e ainda, sociais, como valores patriarcais, machistas, muito arraigados. Sabemos que nenhum desses fatores sozinhos é capaz de desencadear a violência dentro de casa, porém, quando mais de um deles está presente, constrói-se um contexto propício e vulnerável (BAKMAN et al .2008. p. 499).

Sendo assim, pode-se entender a violência como um processo de interação que permite a ocorrência de um ato agressivo entre duas ou mais pessoas. Em contrapartida, nada justifica um ato de violência, seja ele de qualquer natureza.

Ainda de acordo com os autores acima citados, os modelos educacionais contribuem de certa forma para a ocorrência de atos violentos, pois geram uma hierarquização na posição social ocupada pelas pessoas. Muitas pessoas, sendo homens ou mulheres, foram educadas numa cultura de origem patriarcal, em que o machismo imperava soberanamente, acreditando-se que os castigos físicos eram a única forma de educar um filho e como forma de coerção; sem levar em conta que essa forma de criação afastava as pessoas e criava um ambiente cheio de hostilidade e distante dos valores afetivos.

É recorrente os pais terem a percepção das atividades inadequadas dos filhos como atos estigmatizados de mau comportamento. Porém, quando compreendidas dentro do sistema, essas atitudes adquirem outra face. Pode ser uma forma de manifestar a sua falta de espaço, a pouca compreensão, o afeto que parou de receber de seus pais, a luta por um lugar entre os irmãos, um reconhecimento pelo pai, um posicionamento diante da briga do casal parental. Quando há briga entre os filhos, é possível que os pais legitimem, sem perceber, essa forma de tratamento entre os irmãos e incentivem a violência como forma de relacionamento. Por exemplo, quando desde pequena a criança recebe palmadas para ser “educada”, concomitantemente, os pais passam a mensagem de que bater é uma maneira de dar limite aos outros. Aos poucos se cria uma cultura de que a violência é uma forma possível, costumeira e aceitável de resolver os conflitos (BAKMAN; et al, 2008. p. 502).

Segundo Werner (2009), a ofensa sexual intrafamiliar é considerada uma traição, pois o ofensor rompe com toda a esperança de proteção, confiança, cuidados, trato, aconchego, deveres e fidelidade no grupo familiar. A pessoa que ofende sexualmente a quem deveria proteger trai a si mesmo e aos demais membros da relação familiar. Trai a si mesmo quando inverte o lugar de cuidador para ofensor, colocando em situação de risco todo o significado de relação familiar confiável, sendo assim, acaba rompendo com os sonhos de manter a família unida e emocionalmente estável. Ocorrendo a deflagração de um caso de ofensa sexual, deve-se encaminhar para a terapia toda a família e não somente a pessoa que sofreu o ato.

Werner (2009) acrescenta que a dor da pessoa que sofre a ofensa sexual é facilmente entendida, pois seu corpo foi violado; além das lesões do corpo, ocorre uma lesão psicológica profunda e, ao mesmo tempo, que é fácil entender a dor da pessoa ofendida, não se tem como quantificar essa dor, mas é sabido que o sofrimento causado pela quebra do vínculo, da confiança, do respeito, da segurança e do cuidado está fortemente presente. Mesmo que o ato do ofensor tenha ocorrido por uma única vez, sendo na forma de masturbação ou de coito, o trauma se estabelece em relação à perda da confiança da mesma forma.

O autor ainda fala que a dor do ofensor não é tão evidente, e por mais difícil que seja, é importante enxergar ofensor como alguém que está emocionalmente doente, sendo assim, precisa ser ajudado, pois o seu centro regulatório do comportamento não funciona como o esperado, sendo então necessário construir mecanismos regulatórios de conduta para que ocorra a reinserção do mesmo no convívio com a família e com a pessoa ofendida. No entanto, enquanto essa reconfiguração do comportamento não ocorre, é de extrema importância que as pessoas envolvidas se mantenham distantes fisicamente.

A constatação de situações transgeracionais de ofensa sexual nas famílias reforça a necessidade da mudança da nomenclatura, a fim de que comecemos um novo discurso verbal, na esperança de que ele influencie práticas sociais diversas das que hoje temos em relação ao incesto (WERNER, 2009. p. 367).

O trabalho terapêutico para, ajudar as pessoas que foram vitimas de ofensa sexual ou violência intrafamiliar, tem que contar com a ajuda de outros profissionais. É por meio de um trabalho multiprofissional que as pessoas envolvidas terão condições de ajudar a modificar as condições existentes e arraigadas na estrutura familiar.

Na atualidade, há uma crescente pré-disposição para considerar atos bárbaros como normais. Os fenômenos sociais (como a violência) estão sendo mal solucionados e tratados como “normais” ou “aceitáveis”. O papel do psicólogo é, também, criar mecanismos para a sociedade questionar e se mobilizar na solução desses problemas.

REFERÊNCIAS 

 AUN, Juliana Gontijo. Contexto de Violência e Abordagem Sistêmica. Um Panorama e um Relato de um caso de Terapia. Revista Devir. Esquizoanálise e seus Encontros. Volume I, nº 1, abr. 2001. Belo Horizonte. p. 92 – 115.

BAKMAN, Gizele; et al. Busca de recursos terapêuticos na clínica com famílias em situação de violência intrafamiliar e de gênero. In. MACHADO, Rosa Maria S. Terapia familiar na última década. São Paulo: Roca, 2008. p. 499-504.

WERNER, Maria Cristina Milanez. Famílias em situação de ofensa sexual. In. OSÓRIO, Luiz Carlos; VALLE, Maria Elizabeth Pascual do (orgs.). Manual de terapia familiar. Porto Alegre: Artmed, 2009. p. 366-375.


[i] Aluna do 10° período do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

[ii] Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

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