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EDIÇÃO 3

E3-57 “Eu não quero saber”

Welber de Barros Pinheiro[i]
Margaret Pires do Couto[ii]

RESUMO

A elaboração deste artigo teve como objetivo fazer uma leitura psicanalítica a partir de fragmentos de um caso clínico de queixa escolar, sob o viés da inibição intelectual em relação ao âmbito institucional. Este artigo foi apresentado como pré-requisito da conclusão do estagio supervisionado VII, sob a supervisão da Professora Margaret Pires do Couto.

Palavras-chave: Inibição, Inibição Intelectual, Pulsão de saber, Queixa Escolar.

 

INTRODUÇÃO 

Alguns estudos sobre a queixa escolar revelam que 50% a 70% das crianças e adolescentes encaminhados aos serviços públicos de saúde têm como queixa dificuldades de aprendizagem ou problemas de comportamento na sala de aula ou fora dela (Machado, 1991; Souza, 1993).

Pode-se entender como queixa escolar o conjunto de representações surgidas no ambiente escolar, que estão em torno dos problemas de aprendizagem (SOUZA, 2004). A queixa escolar vai apontar para as diferenças individuais com as quais a escola, dentro do seu plano pedagógico, muitas vezes não consegue lidar.

O fracasso escolar funciona como um dispositivo de exclusão escolar, é, portanto, social, já que coloca o aluno fracassado ou alvo de queixa escolar num lugar diferenciado em relação aos demais no seu contato social. Fernandes aponta que:

O ato diagnóstico pela via das classificações aparece na escola como forma de imputar responsabilidade aos indivíduos e como estratégia que facilita a discriminação entre normais e anormais a partir de critérios que, pretensamente, fugiria a compreensão do educador (FERNANDES, 2009, p. 122).

Para exemplificar de que forma a escuta analítica pode proporcionar uma nova resposta diante das questões sobre as dificuldades escolares, a seguir serão mencionados fragmentos de um caso clínico sob o viés da inibição intelectual.

Ana[iii] tem nove anos de idade, está matriculada regularmente na terceira série, porém assiste às aulas na turma de segunda série. Segundo a diretora, tal medida foi efetuada visando à aprendizagem da aluna, pois a escola não poderia retê-la novamente na mesma série conforme o sistema vigente.

Ana, diante de tal impasse, foi encaminhada para a Clínica de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva, através de um pedido da escola. De acordo com o relato da escola, Ana não aprende o que é ensinado em sala de aula e quando o faz esquece rapidamente o que foi ensinado. Apresenta-se de forma violenta com os colegas e tem um histórico de dificuldades em se relacionar socialmente.

Levando em consideração o histórico escolar de Ana, o que pode estar acontecendo para que ela não esteja se desenvolvendo intelectualmente como as outras crianças de sua classe?

Freud (1905) dirá que no mesmo momento em que a vida sexual das crianças atinge seu primeiro ápice, (idade compreendida entre três e cinco anos de vida), observa-se também sinais que podem ser denominados como Pulsão de saber ou Pulsão de pesquisa. Freud prossegue dizendo que:

Não é por interesses teóricos e sim por interesses práticos que as atividades de pesquisa começam a desenvolver-se nas crianças. A ameaça ás bases da existência de uma criança oferecida pela descoberta ou suspeita da chegada de um novo bebê e o medo de que ela possa, como conseqüência disto, deixar de ser cuidada ou amada, tornam-na pensativa e perspicaz […] o primeiro problema com que se defronta não é a questão da distinção entre os sexos, mas o enigma sobre a origem dos bebês. (FREUD, 1905, p. 200)

A partir da incidência do recalcamento que ocorrerá por volta do sexto ano de vida, a atividade intelectual, em função de uma precoce ligação com a pulsão sexual, poderá encontrar três destinos.  O primeiro deles é a inibição do pensamento, o segundo a compulsão neurótica a pensar e a terceira a sublimação. (SANTIAGO, 2005)

A sublimação é o destino mais desejado à atividade intelectual, uma vez que, na sublimação, o recalque atua impedindo o sexual e deixando o caminho livre ao intelectual. “Assim, o pensamento pode agir em um espaço praticamente dessexualizado, livre, portanto, do domínio da investigação sexual infantil e a serviço dos interesses intelectuais”. (SANTIAGO, 2005, p. 130)

Surge então uma indagação sobre o que pode estar acontecendo com Ana, já que até o momento ela não dá sinais de sublimação? Embora as respostas ainda sejam nebulosas, cabe verificar a história de Ana conforme a seguir.

O nascimento de Ana foi prematuro, de sete meses, e Carmen, sua mãe, só ficou sabendo de sua gravidez após uma internação. Carmen era alcoólatra e por volta dos cinco meses de gestação, ingeriu boa quantidade de acetona, sendo internada logo após. Devido a essa internação, descobriu-se que Carmen estava grávida de cinco meses. Segundo consta em seu relatório médico, Ana nasceu impregnada de álcool e com uma suspeita de síndrome alcoólica fetal, além de recomendações médicas para acompanhamentos das especialidades de oftalmologia, cardiologia e neurologia.

Ana faz acompanhamento oftalmológico, porém nunca fez acompanhamento neurológico e nem acompanhamento pediátrico. Portanto, seus exames são bem antigos, sendo que um deles aponta um sopro no coração. Todos esses dados médicos só vieram à tona após o falecimento do pai, quando sua tia paterna, Márcia passa a assumir a responsabilidade por esses acompanhamentos.

Márcia é quem leva Ana aos atendimentos e mostra-se muito preocupada e empenhada com a sobrinha. A tia zelosa relata seu incômodo com a escola de Ana, ao dizer que apesar de todos a tratarem muito bem, ela não gostou do que escutou de uma professora certo dia. De acordo com essa professora, Márcia deveria se informar melhor sobre o caso da sobrinha, pois Ana, com certeza, necessitaria de uma pensão vitalícia, uma vez que ela, pela sua condição atual, já teria feito até muita coisa.

Em uma reunião com a presença do terapeuta, da professora e da diretora da escola de Ana, percebeu-se que, a pedido de Márcia, a escola havia mudado sua postura com Ana. Não estavam mais a chamando de Aninha e segundo a professora, eles têm tentado cobrar mais dela, porém a professora relatou estar muito desanimada, que já tentaram de tudo para que Ana aprenda, mas não conseguiram bons resultados. Apesar disso, segundo a diretora, Ana mudou seu relacionamento pessoal com os outros alunos, diminuindo muito os episódios de agressão física.

Santiago (2005) nos apresenta a clínica da inibição, a partir da leitura lacaniana de objeto causa de desejo. Ao invés de ressaltar o bloqueio da função no funcionamento psíquico, como Freud (1925) o fez, Lacan irá privilegiar a função do desejo, que ao ter sua causa bloqueada, desencadeará uma série de efeitos sintomáticos no sujeito, dentre eles a inibição intelectual.

O elemento conceitual que servirá de base para pensar o agir do sujeito nesta concepção, diz respeito à noção de objeto causa de desejo, que se refere ao complexo de castração. O objeto causa de desejo é fundamentalmente entendido como o responsável pela organização e pela regulação do sujeito perante o mundo. (SANTIAGO, 2005)

Numa tentativa de evitar a verdade da castração, o sujeito vê-se identificado ao objeto que falta ao outro, lugar este que irá privar o sujeito de sua função causa de desejo. Parece ser diante deste impasse que Ana se encontra, no lugar de objeto do outro.

Márcia relatou em sessões posteriores que Ana foi um milagre de Deus. Ninguém achou que ela nasceria com vida ou acreditava que ela poderia também andar. Isso fez com que a tia retificasse o fato de que ninguém nunca apostou em Ana. Porém Márcia descreve o pai de Ana como alguém que sempre a protegeu e a mimou demais e que na escola não foi diferente.

Pode-se dizer que a função primordial do pai, enquanto um suporte simbólico de separação entre a mãe e o filho, é a de não permitir que a mãe faça de sua criança seu objeto de gozo, que o coloque na posição de objeto. O que se percebe no caso de Ana foi que este pai não promoveu de forma contundente esta separação simbólica, que separa e castra o sujeito. Ana parece estar identificada ao lugar de objeto do Outro, o que, por sua vez, justifica sua postura inerte e inibida, não só na escola, mas em sua vida como um todo, como ela mesma diz “eu não quero saber”.

A investigação médica de Ana, agora, está sendo acompanhada pela tia e pela escola. A aposta nesta investigação consiste em não desconsiderar as reais condições de saúde em que Ana nasceu, mas por outro lado não deixar que Aninha fique presa a um diagnóstico médico.

A escuta analítica tem aos poucos proporcionado a Ana uma nova possibilidade de resposta diante do Outro. Ana tem se mostrado mais concentrada e mostra-se envergonhada por “não saber” ler. E é nesta direção que o caso segue apostando que a escuta analítica, enquanto uma escuta do que há de mais particular do sujeito, possibilite a Ana uma nova forma de resposta diante do enigma do desejo do Outro.

Portanto a intenção deste artigo não é terminá-lo com uma mera conclusão, mas buscar entender diante de uma questão: como pode a psicanálise intervir de forma ética e contundente nas frequentes violências deferidas contra os sintomas das crianças ditas “problemas”? Qual é o lugar do analista empenhado na problemática da queixa escolar “na” ou “da” instituição?

 

REFERÊNCIAS

FREUD, Sigmund. Inibições, sintoma e ansiedade (1925). In: _______.  Um estudo autobiográfico inibições, sintomas e ansiedade a questão da análise leiga e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1976. p. 95-201. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 20).

_____. (1905). Três ensaios sobre a sexualidade. In: _______. Fragmentos da análise de um caso de histeria, três ensaios sobre a sexualidade e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1980. p. 123-252. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 7).

FERNADES, Júlio Flávio de Figueiredo. O educador e as nomeações psicopatológicas do mal estar contemporâneo.In: BRITO, Vera Lucia Ferreira Alves. (Org.). Professores: identidade, formação e profissionalização. 1 ed. Belo Horizonte: Argumentum, 2009. p. 119-137.

MACHADO, M. A. Inventando uma intervenção na escola pública. Dissertação de mestrado não-publicada. São Paulo: Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, 1991.

SANTIAGO, Ana Lydia. A inibição intelectual na psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. p. 229.

SOUZA, M. P. R. Psicólogos na Saúde e na Educação: a busca de novos caminhos na compreensão da queixa escolar. In: Insight: 1993. Psicoterapia, 13, p. 25-27,

SOUZA, Marilene Proença. A Queixa Escolar e o Predomínio de uma visão de Mundo. In: ALMEIDA, Sandra Francesca Conte de (org). Psicologia Escolar: em busca de novos rumos. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004. p.19-38.

 


[i] Acadêmico do 10º período do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

[ii] Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

[iii] Todos os nomes aqui utilizados foram alterados para preservar a identidade dos clientes

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