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EDIÇÃO 3

E3-28 A frustração e o temor do psicoterapeuta iniciante: é minha culpa quando o cliente desiste?

Grazielle Medeiros Santiago[i]
Raquel Neto Alves[ii] 

RESUMO
Este artigo é resultado de pesquisa bibliográfica e prática clínica, dos estágios VI e VII de psicoterapia, na abordagem fenomenológico-existencial. O objetivo é compreender os motivos do abandono do processo psicoterapêutico pelo cliente, levando-se em consideração que os atendimentos são realizados por estudantes do curso de Psicologia no início de sua prática em psicoterapia.  

Palavras-chave: Psicoterapeuta, Cliente, Crise, Pós-modernidade, Formação.  

 

A humanidade foi submetida a enormes transformações neste fim de milênio, principalmente a partir do século XVIII, com o advento da Modernidade. Essas mudanças influenciaram a sociedade ocidental contemporânea para aquisição de um novo estilo de vida e valores sociais. O modo de vida moderno teve sua maior crise a partir da década de 60, e a partir de então foi denominado de vida pós-moderna. A pós-modernidade, por meio da ideia de que a razão pode explicar tudo e que a evolução tecnológica e o progresso científico podem trazer a felicidade, gerou uma sociedade que valoriza o consumo, a superficialidade, nega a finitude e evita o tédio a qualquer custo, buscando o prazer desenfreado e imediato. (GIOVANETTI, 2010) 

O cliente que procura a clínica vive neste contexto social pós-moderno e dificilmente consegue perceber as contradições desse estilo de vida. A busca por resultados rápidos é consequência de uma sociedade marcada pelos excessos, em que o tempo não pode ser desperdiçado sem que se tenha um objetivo a priori, em que não há limites e projetos, e sim a ideia de que se deve viver o momento a qualquer custo, mas sem refletir sobre as consequências dessas ações. (GIOVANETTI, 2010) 

Até que se torne um psicoterapeuta, o aluno de Psicologia precisa lidar com suas expectativas em relação ao papel que deverá desempenhar após concretizar sua formação. Essas expectativas se transformam ao decorrer da graduação e influenciam o modo como o estudante aprende a contornar as diversas situações que serão vivenciadas na clínica. (ZARO, 1980) 

Na prática da psicoterapia, pode ocorrer de um cliente não comparecer mais às sessões, mas é necessário que o estudante supere seu medo de que tenha sido incompetente, de que o cliente não confie ou não tenha gostado dele, pois geralmente isso pouco ou nada tem a ver com o que realmente o cliente pensa, mas com  a inexperiência e a ansiedade gerada pela imagem construída de que o terapeuta deve ter todas as respostas, e isso faz com que o iniciante crie essas fantasias. (COREY, 1986; ZARO, 1980) 

Segundo Sartre (1970), “a existência precede a essência”, pois não há uma natureza humana, ou seja, uma essência. O homem nasce, existe ao transformar-se continuamente, e apenas se define quando morre. Sendo assim, o homem é aquilo que se faz de si mesmo e o que ele mesmo projeta. A sociedade pós-moderna valoriza o presente, sem dar importância à realização de um projeto de vida.  

A maioria das pessoas que procura ajuda na psicoterapia está vivenciando momentos de crise em seu modo de existir. Na vida pós-moderna, não há espaço para vivenciar o luto decorrente das perdas, do envelhecimento e da morte, entre outras situações em que essa ruptura no modo de existir da pessoa possa demonstrar o adoecimento proporcionado pelo estilo de vida contemporâneo.  

 Segundo Alves (2010)  

[…] Há nas crises o perigo da paralisação em um tempo e um espaço já vividos, e também a oportunidade de se lançar a uma construção nova, no que ainda não é por meio do trabalho do luto do que se foi. É uma encruzilhada onde a pessoa terá de se posicionar e fazer escolhas diante da situação nova. A possibilidade de se reorganizar de uma maneira mais ampla existe ao lado do perigo de fazer o mesmo de uma forma ainda mais limitada e estreita. (ALVES, 2010, p. 97) 

Esse é o momento em que geralmente as pessoas veem a possibilidade de passar por um processo psicoterapêutico e, na maioria das vezes, pretendem alcançar a solução rápida de todos os seus problemas. Acreditam que o psicoterapeuta é um especialista que detém todas as respostas e, que em um passe de mágica, resolverá todos os seus problemas, dependendo apenas da exposição desses. Geralmente, os sintomas que despertam sua busca por ajuda aparecem para alertá-los sobre questões mais profundas que dizem respeito ao adoecimento de sua existência. (COREY, 1986) 

De acordo com Corey (1986, p.251), os clientes

[…] À medida que a terapia progride, descobrem que precisam ser atuantes durante todo o processo, pois devem selecionar seus próprios objetivos, realizar grande parte do trabalho nas sessões de terapia e estar dispostos a estender este trabalho para além das sessões, em sua vida lá fora. Por essa razão, alguns clientes descobrem o valor dos ‘deveres de casa’, […] instrumentados no sentido de levá-los a pôr em ação sua nova aprendizagem. Outros abandonam a terapia, ou acham-na trabalhosa demais. 

Para que o processo psicoterapêutico ocorra de forma eficaz, é necessário um comprometimento tanto do psicoterapeuta quanto do cliente, que deverá responsabilizar-se e implicar-se em sua própria mudança. O psicoterapeuta iniciante, que pretende implicar-se mais que o cliente na psicoterapia, torna esses clientes dependentes e despreparados para lidar com as situações do cotidiano. Isso geralmente acontece ao psicoterapeuta inexperiente que procurou a Psicologia por necessidades pessoais, como a vontade de ser amado, protetor ou útil. (ZARO, 1980) 

De acordo com Zaro (1980), várias são as razões pelas quais alguém procura tornar-se psicoterapeuta. Algumas vezes, a pessoa acha que possui características valiosas para exercer a profissão, como sensibilidade e compreensão ou por achar que é bom ouvinte. Para outras, os motivos são a curiosidade sobre o comportamento humano. Há aqueles estudantes que procuram o curso buscando o seu próprio tratamento ou até o poder de manipular ou de ser útil para as pessoas. 

Segundo Sartre (1970), o homem é condenado a ser livre e é responsável por suas escolhas a todo instante. Até mesmo não escolher é uma escolha. O cliente pode escolher paralisar-se diante da crise e abandonar a terapia ou implicar-se e progredir no processo psicoterapêutico. Independente do tempo de experiência que o psicoterapeuta possui, ele não consegue ter sucesso com todos os clientes. (COREY, 1980) 

Devido ao medo de parecer incompetente perante o cliente, o supervisor ou colegas, o aluno que inicia seus atendimentos como psicoterapeuta pode temer que os clientes abandonem a psicoterapia, indicando com isso que fracassaram em sua missão. No entanto, a psicoterapia é uma responsabilidade compartilhada, e tanto ele quanto o cliente precisam entender que os resultados da psicoterapia dificilmente são obtidos imediatamente, sendo o cliente também responsável pelo rumo dos atendimentos. (ZARO, 1980) 

Há ainda situações em que a falta de habilidade e a inexperiência do psicoterapeuta iniciante podem ser fatores que influenciarão o cliente a abandonar a terapia. O fato de que sua insegurança e falta de conhecimento o fazem agir de forma a distanciar-se do cliente, não interagindo em seu discurso, achando que isso o prevenirá de cometer algum erro, pode ser percebido pelo o cliente como gasto inútil de seu tempo e dinheiro, além de que isso pode resultar em uma generalização pelo cliente de que a Psicologia é uma farsa e que todos os profissionais agem da mesma forma, não contribuindo em nada para a resolução de seus conflitos. (COREY, 1986; ZARO, 1980)

 Zaro (1980) afirma que o processo pelo qual o estudante passa até se tornar um psicoterapeuta é complexo e requer uma mudança no estilo de aprendizagem, que inicialmente se concentra nas teorias e depois passa à prática, que é bem diferente. Além do mais, para que o estudante alcance o domínio das habilidades de psicoterapeuta, é necessário um grande envolvimento na prática, compartilhando com o supervisor todos os pontos em que houver dúvidas e, sempre se lembrando, que no início o estudante não deve se cobrar pela excelência, pois a habilidade só poderá ser adquirida ao longo do tempo, se houver um treino constante. 

Tanto Zaro (1980) quanto Corey (1980) consideram a supervisão, aliada à própria psicoterapia e aos constantes estudos e leitura para a ampliação dos conhecimentos e para o aperfeiçoamento da prática, fundamentais para se formar um bom psicoterapeuta. Além disso, consideram que mesmo após o término do curso e com o treinamento constante das habilidades, é necessário, no decorrer de toda a vida profissional, constante investimento na carreira profissional, adquirindo novos conhecimentos e permanecendo aberto às novas possibilidades de crescimento.

 

REFERÊNCIAS

ALVES, Raquel Neto. Limites e possibilidades nas situações de crise. In: FEIJOO, Ana Maria Lopes Calvo de. (org.) Tédio e Finitude: da filosofia à psicologia. Belo Horizonte: Fundação Guimarães Rosa, 2010, p. 97-129.

COREY, Gerald F. Técnicas de aconselhamento e psicoterapia. 2. ed. Rio de Janeiro: Campus, 1986, p. 32.

GIOVANETTI, José Paulo. Desafios do terapeuta existencial hoje. In: FEIJOO, Ana Maria Lopes Calvo de. A prática da psicoterapia. São Paulo: Pioneira, 1999, cap. 4, p.163-178.

GIOVANETTI, José Paulo. O tédio existencial na sociedade contemporânea. In: FEIJOO, Ana Maria Lopes Calvo de. (org.) Tédio e Finitude: da filosofia à psicologia. Belo Horizonte: Fundação Guimarães Rosa, 2010, p. 233-261.

SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Coleção os pensadores São Paulo: Nova Cultural, 1987.

ZARO, Joan S. et al. Introdução à prática terapêutica. São Paulo: Pedagógica e Universitária. 1980, p. 192. 


[i] Acadêmica do 10º período do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton

[ii] Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

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