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EDIÇÃO 3

E3-30 A negativa da jovem homossexual: de qual lugar (ele) o pai me escuta?

Pai! Senta aqui que o jantar tá na mesa
Fala um pouco tua voz tá tão presa
Nos ensina esse jogo da vida
Onde a vida só paga pra ver… [i]

  

Joana D’arc Ferreira da Silva[ii]
Geraldo Majela Martins[iii] 

RESUMO
Partindo das considerações de Freud sobre a homossexualidade, verifica-se que esta é uma posição libidinal, assim como o é a heterossexualidade. Este estudo tem como objetivo analisar por meio de um fragmento de caso clínico a relação de uma jovem homossexual e seu pai. Para tanto farei menção ao desfecho do complexo de Édipo na menina e as saídas da mulher para lidar com seu complexo de castração. 

Palavras-chave: Homossexualidade, Feminilidade, Castração, Complexo de Édipo. 

 

1.  INTRODUÇÃO

Este artigo foi produzido na disciplina Estágio Supervisionado VII, sobre a orientação do professor supervisor Geraldo Majela Martins. 

O que é a homossexualidade feminina? Como o analista deve receber a mulher na clínica, independente de sua opção sexual? São questões pertinentes com a nossa contemporaneidade e com as quais FREUD (1920) já se envolvia ao considerar a homossexualidade nas mulheres e nos relatando de forma ética esta questão considerada em sua obra “A psicogênese de um caso de homossexualismo numa mulher”. 

O caso que se apresenta na clínica de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva trata de uma moça de 19 anos, que traz no primeiro atendimento a queixa de ser muito nervosa e ter picos de choro durante vários momentos do dia. Reclama da mãe que a proíbe de viajar com os amigos do cursinho e de jogar vôlei, esporte pelo qual a jovem diz ter muita inclinação. 

Durante os próximos atendimentos, fala sobre sua família, tem duas irmãs, uma é freira e a outra é moto-girl. Tem também três irmãos, um casado e o outro mais velho é mecânico e ainda convive com os pais. Quanto ao irmão mais novo, a jovem diz ser o xodó de sua mãe, que o trata de maneira diferenciada, esse tem dezesseis anos, e quando nasceu, as atenções da mãe se voltaram todas para ele. A mãe é dona de casa e cuida da avó doente que veio a falecer poucos dias depois que ela inicia a análise. A mãe entra em um quadro depressivo e falece três meses após a morte da avó. O pai é dono de um bar na própria residência e trabalha fazendo uns bicos para complementar o orçamento. Diz que o pai conversa pouco, não é de muito diálogo. 

Ao falar de sua vida amorosa, trouxe uma questão importante para ela, quando revela que o seu problema nesta não são os meninos, e sim as meninas, uma moça especificamente. Referindo-se a esta namorada, a paciente mostra-se cortês, amável, assumindo uma posição masculina diante deste objeto escolhido e amado. Assim, a jovem traz esta questão conflituosa quando diz que se sua família souber de sua preferência sexual seria uma quebradeira, e ninguém iria entendê-la. Como o pai não a escuta de sua posição de mulher, a jovem vive esta negativa, se faz homem, ressentida com este pai, renega sua feminilidade e encontra outro objetivo para a sua libido, como bem nos lembra FREUD (1920) no caso da jovem homossexual. 

O que angustia a paciente é que também desta posição não consegue falar com o pai as coisas que precisam ser ditas, e ele (o pai) permanece distante enquanto ela fica com um nó  na garganta de não poder conversar com este pai de nenhuma posição, nem da feminina e nem da masculina. 

A paciente estende também essas reclamações de não ser escutada pelo sexo masculino também aos irmãos e aos médicos que cuidaram de sua mãe em seus últimos momentos de vida. Ela traz essas questões dizendo que os irmãos não são muito humanos, não dão atenção devida para o avô, e que os médicos não sabem escutar os seus pacientes na rede pública de saúde. 

O problema que se apresenta para a jovem de que o pai não a escuta é levantado por ela em algumas das sessões. Em uma delas, ela diz estar brava com seu pai que resolveu pintar a casa no feriado, justo no dia que ela pretendia passar o dia com a namorada. Quando a sua mãe era viva, ele (o pai) não se preocupava nem um pouco com a arrumação da casa, a mãe falava e ele não a escutava. Eu falo e ele não me escuta. Termina dizendo que mulher fala e ele (o pai) não escuta. FREUD (1920, p.209) também nos relata um trecho no caso da jovem homossexual, pontuando que ela “era na realidade uma feminista; achava injusto que as meninas não gozassem da mesma liberdade que os rapazes e rebelava-se contra a sorte das mulheres em geral”.

 

2. AS SAÍDAS DA MULHER DIANTE DA CASTRAÇÃO 

Ao discorrer sobre a sexualidade humana, FREUD (1924) chega ao ponto crucial desta, ou seja, o complexo de Édipo, cuja importância da cena edípica aparece na trama da subjetividade. Assim o complexo de Édipo se caracteriza por sentimentos contraditórios de amor e hostilidade. Na menina o desfecho edipiano é uma intensificação de sua identificação com a mãe, o que fixará o seu caráter feminino. 

Quando o menino se depara com os órgãos genitais femininos, o efeito da castração fica adiado, pois a ausência de pênis mostra que ele tem, mas pode perder. A menina acredita que a castração já ocorreu, já que não possui o pênis, mas também passa pelo complexo de Édipo, acreditando que o que ela perdeu e está sob a forma de clitóris vai crescer um dia, e este é o órgão principal das meninas e ficará tão grande quanto o do menino. Para Freud:  

Estando assim excluído, na menina, o temor da castração, cai também um motivo poderoso para o estabelecimento de um superego e para a interrupção da organização genital infantil. Nela, muito mais que no menino, essas mudanças parecem ser resultado da criação e de intimidação oriunda o exterior, as quais a ameaçam com uma perda de amor (FREUD, 1924, p.223). 

E diante desta perda de amor, a menina busca uma compensação e desliza nos desejos de possuir um pênis e dar um filho ao pai. E estes desejos ficam investidos no inconsciente da menina e como cita Freud: “a vida sexual das mulheres ainda se encontra mergulhada em impenetrável obscuridade” (FREUD, 1925, p.304), pois ao falar sobre a fase fálica nos meninos, Freud afirma que os mesmos mecanismos são desconhecidos nas meninas. (FREUD, 1925). E ainda é levantado um questionamento de que o complexo de Édipo nas meninas tem o mesmo objeto, ou seja, a mãe. Mas porque então a menina se aproxima do pai? Pela inveja do pênis que ela vê no menino, porque deseja ter um também. (FREUD, 1925) 

Se a menina recusa a castração e não absorve esta inveja do pênis em uma formação reativa do complexo de masculinidade, as consequências podem ser catastróficas para seu desenvolvimento psíquico normal. (FREUD, 1925) Pela inveja do pênis, a menina também se afasta da mãe, culpando-a por não ter dado a ela o órgão masculino. E mais as mulheres não usam a masturbação com a mesma frequência que os homens e que: “a solução do problema poderia ser auxiliada pela reflexão de que a masturbação, pelo menos do clitóris, é uma atividade masculina, e que a eliminação da sexualidade clitoridiana constitui precondição necessária para o desenvolvimento da feminilidade”. (FREUD, 1925, p.317) E qual seria então o ideal de feminino? De masculino? Para Freud: 

Há muito tempo compreendemos que o desenvolvimento da sexualidade feminina é complicado pelo fato de a menina ter a tarefa de abandonar o que originalmente constituiu sua principal zona genital – o clitóris – em favor de outra, nova, a vagina. Agora, no entanto, parece que existe uma segunda alteração da mesma espécie, que não é menos característica e importante para o desenvolvimento da mulher: a troca de seu objeto original – a mãe – pelo pai. A maneira pela qual essas duas tarefas estão mutuamente vinculadas ainda não nos é clara (FREUD, 1931, p.233). 

O certo é que todos os seres pela sua disposição bissexual, tanto de características femininas e masculinas, não encerram em si cem por cento de feminilidade e cem por cento de masculinidade. (FREUD, 1925). Mas algumas mulheres ainda continuam a investir no objeto mãe e nunca alcançam uma diferenciação em relação aos homens e “a mulher só atinge a normal situação edipiana positiva depois de ter superado um período anterior, que é governado pelo complexo negativo”. (FREUD, 1931, p. 234) O fato é que a mulher passa por duas fases até atingir a sua feminilidade, primeiro ela tem uma peculiaridade masculina, pois as principais ocorrências genitais da infância se relacionam ao seu clitóris, segundo, mais tarde, a mulher assume seu outro órgão sexual, que é a vagina. 

Nesta busca constante de satisfação, de suprir algo que falta, o falo, o pênis, a mulher tem este encontro com a feminilidade.  “A Psicanálise não tenta descrever o que é uma mulher – seria tarefa difícil de cumprir – mas se empenha em indagar como é que a mulher se forma como a mulher se desenvolve desde a criança dotada de disposição bissexual”. (FREUD, 1932, p. 117). Acontecem na vida da menina-mulher certas regressões ao período pré-edipiano, em que se alterna masculinidade e feminilidade, o que é chamado por Freud de “o enigma da mulher”. Este enigma talvez narcísico leva a mulher ao encontro do sexual, o homem –  o masculino. A agressividade e a inveja sempre presente do pênis afeta a escolha objetal da mulher, ela sente mais necessidade de ser amada do que amar. 

 A vaidade é algo relevante no caráter sexual que envolve o feminino, pois valorizando seus encantos, a mulher lida melhor com sua inferioridade sexual original, colocando a vergonha como pano de fundo, como ocultação de sua deficiência genital.   

A menina, com o desejo de possuir um pênis, volta-se para o pai na esperança de conseguir um. Ao se dar conta de que o pai também é fálico, há um desapontamento, totalmente necessário para a menina se tornar feminina, o que força a menina a regressar a seu complexo de masculinidade anterior, o que leva a crer que este caminho que leva à feminilidade está exposto a perturbações presentes nos fenômenos que compõem a sexualidade infantil e o trajeto da menina está num período masculino dos primórdios da infância. (FREUD, 1932) O feminino descrito por Freud desenvolve então uma técnica interessante, inventa o trançar e o tecer. Tecituras no corpo que entrou na puberdade com pelos emaranhados, tecituras de tecidos cobrindo o sexual, a feminilidade, que aponta e mostra que a travessia da menina no Édipo foi satisfatória. Freud afirma que: 

A fase da ligação afetuosa pré-edipiana, contudo, é decisiva para o futuro de uma mulher: durante essa fase são feitos os preparativos para a aquisição das características com que mais tarde exercerá seu papel na função sexual e realizará suas inestimáveis tarefas sociais. (FREUD, 1932, p. 133).  

Livre a menina agora mulher escolhe o seu marido, casa-se, em conformidade com o ideal narcisista do homem que um dia a menina sonhara em se tornar. Quando nasce o filho, e se este é menino, a mulher obtém satisfação sem limites. “Uma mãe pode transferir para o seu filho aquela ambição que teve de suprimir em si mesma, e dele esperar a satisfação de tudo aquilo que nela restou do seu complexo de masculinidade”. (FREUD, 1932, p. 132) Dessa maneira, Freud descobre com a Psicanálise que os sintomas representam um substituto para as pulsões, cuja força tem sua origem num instinto sexual e que a natureza dos histéricos mostra um grau de repressão sexual superior à quantidade normal. (FREUD, 1905)

Entre tantas descobertas da Psicanálise, a questão do feminino intrigava Freud. A feminilidade aparece em sua obra como enigma não desvendado. Deste enigma tem-se que o desejo feminino de satisfazer a falta não cessa, assim como não cessam as invenções do feminino na contemporaneidade.  Da cena edipiana, a menina trouxe a castração, a falta original. O enigma feminino remete a mulher ao encontro do sexual, um sexual imaginário e preciso, com o ideal narcísico de suprir uma falta. O que quer a mulher se afinal o Édipo produz o homem, mas não uma mulher?  

A castração no menino acaba com o Édipo. Na menina, a castração a insere no complexo de Édipo. E tudo isto não vem sem consequências para a menina: quando a menina reconhece a sua ferida narcísica, ela instala-se num sentimento de inferioridade; a menina sente ciúmes de seu pai e inveja outras mulheres, pois acha que o seu clitóris é um equivalente de um pênis; a menina se desliga desta mãe culpando-a por não ter dado a ela um pênis; e enfim ao se deparar com a inveja do pênis a menina acaba abandonando a masturbação clitiroana e vai de encontro a sua feminilidade.

 

3. CONCLUSÃO 

As escolhas sexuais que o sujeito faz na vida são da ordem do inconsciente. E diante de tantas escolhas objetais, a descoberta do Complexo de Édipo demonstra bem que o desejo que orienta estas mesmas escolhas são consequências de cenas edípicas. A mulher, diante da castração, pode encontrar várias saídas: a primeira é a maternidade, na qual ela faz uma equação entre filho=falo; a segunda é escolha de seu objeto amoroso, que primeiro era centrada na figura do pai, mas que agora é centrada na figura de um parceiro amoroso, o que leva esta mulher ao encontro de sua feminilidade com o abandono da sua zona erógena que era o clitóris pela sua vagina; a terceira saída é a que passa pela via do corpo, localizando neste toda a libido e formando os sintomas histéricos, dentre os quais podem ser citados as crises nervosas, as enxaquecas, a depressão, as fobias, a anorexia, a bulimia, a compulsão por compras e a tendência da mulher na contemporaneidade de se achar alto suficiente, negando a sua falta primordial; a quarta saída que se expressa como uma negativa é a identificação ao pai assumindo uma posição masculina.  

Pode-se concluir que a homossexualidade é um destino pulsional ligado à posição edipiana. E cabe a psicanálise e a sua ética não tentar direcionar uma cura para o sujeito homossexual, mas tentar entender como é este mecanismo de reviver o complexo de Édipo de cada sujeito, pois este mecanismo funciona sob a égide do inconsciente, devendo ser respeitada a posição subjetiva deste sujeito que procura  clínica numa situação de extrema angústia.  

O recorte da jovem relatada no caso clínico, ao reviver seu complexo de Édipo na puberdade, sugere-nos que esta sofreu grande desapontamento. O pai não poderia lhe dar o falo. Diante deste desapontamento, acabou se afastando do pai, identificando-se com ele e assumindo uma posição masculina.Ressentida ela renuncia sua feminilidade, pune a mãe que a proíbe de tudo e vinga-se de seu pai, assumindo uma postura viril e tendo uma voz ativa, numa posição que deveria ser passiva, ou seja, do feminino. Desta posição a jovem tenta se posicionar na clínica e diante de seu pai, relatando sua angústia e embaraço diante deste pai que não a escuta como mulher. A jovem então assume a posição de negativa tentando responder a questão de qual lugar (ele) o pai a escuta.

 

REFERÊNCIAS 

FREUD, Sigmund. (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In:______. Um caso de histeria , Três ensaios sobre sexualidade e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1972. p. 123-236. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 7).                     

______. (1920). A psicogênese de um caso de homossexualismo numa mulher. In:______. Além do princípio de prazer Psicologia de grupo e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1972. p. 183-212. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 18). 

______. (1924). A dissolução do complexo de Édipo. In:______. O ego e o id e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1972. p.215-300. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 19). 

______.(1925). Algumas conseqüências psíquicas da distinção anatômica entre os sexos. In:______. O ego e o id e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1972. p. 303-320. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 19). 

______. (1931). Sexualidade feminina. In:______. O futuro de uma ilusão, O mal-estar na civilização e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1974. p. 231-251. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 21). 

______. (1932).  Conferência XXXIII – feminilidade. In:______. Novas conferências introdutórias sobre psicanálise e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1974. p. 113-134.  (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 22). 

JÚNIOR, Fábio. Novelas. Música: Pai. Gravadora Som Livre. CD 2005. 


[i] Fábio Júnior 

[ii] Acadêmica do 10º período do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

[iii] Professor supervisor de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

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