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EDIÇÃO 3

E3-35 De uma coisa eu sei: sou mulher…muito macho!?!

O desejo jamais é o desejo da mulher; O desejo nunca se dirige ao Outro como tal, mas antes, provém dele. O que visa ao desejo é o significante pelo qual o outro aparece ele próprio enquanto desejante e, por conseguinte como desejável. Quanto à feminilidade, esta jamais pode ser situada senão num mais-além do desejo. SERGE ANDRE 

 

Lorena Regina Queiroz Lana de Araújo[i]
Geraldo Majela Martins[ii] 

RESUMO
Este artigo tem como pretensão encadear uma construção psicanalítica diante um atendimento realizado pela autora. Procurando destacar a posição histérica viril como  a paciente se colocava diante da analista, enfatizado a feminilidade ou até a falta da mesma.   

Palavras-chave: Mulher, Histérica, Identificação viril.

 

Este artigo tem por objetivo analisar um atendimento realizado na clinica de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva, durante o ano de 2010, supervisionado pelo professor Geraldo Majela Martins, procurando abordar as estratégias de uma neurose histérica atual. 

Cada sujeito em sua sessão traz algo estrutural à medida que fala, porém para que tenha uma analise, é necessário que aquele que se dispõe a escutar retire-se do lugar do saber, isto é, retirar-se do discurso do mestre e até mesmo do discurso universitário, para um discurso que permite que o próprio paciente erga sua subjetividade, o que a teoria lacaniana definiu como discurso do analista. Portanto este texto não pretende construir um saber sobre as questões enigmáticas trazidas pela paciente, apenas encadear uma construção baseada no atendimento.   

“Sou a única mulher no meio de vários homens, tenho 39 anos e cuido de todos os homens, tive que dizer ao meu pai que não era a esposa dela quando minha mãe morreu, e aos meus irmãos que não era a mãe deles, mesmo sendo a mais nova. Sempre fui assim a mulher macho, por isso estou aqui quero ser mais feminina, ser mais mulher, parar de agir como um homem, mas o que é ser uma mulher? Pois não quero ser igual a você, uma bonequinha de luxo que parece que vai quebrar, não uso salto igual a você, nem sou tão doce como você me parece ser. Quero ser menos forte, mas não ser frágil como uma mulherzinha.”  

Esses são os primeiros dizeres de Maria[iii] quando pergunto o que lhe trouxe a clínica, são dizeres que a afligia, pois pronunciava uma contradição, Maria era um homem no corpo de uma mulher, um corpo que não dava conta de sua situação fálica, isto é, a paciente estava inscrita na lógica da castração, agindo como um ser fálico, o que produzia uma insuficiência.  

Porém essa insuficiência também dava uma sustentação a sua questão, pois Maria ficava rodeada por homens que designou como ser único, isto é, como ser fálico. Dessa forma, Maria vivia em um eterno conflito: o que é ser uma mulher?  

De acordo com Soler (2005), nos sabemos o que uma mulher tem, o marido e os filhos, sabe-se que isso constitui sua felicidade, mas também a inscreve na troca fálica, assim esta felicidade não é o que a mulher quer. “Ela deseja ser única, ser exaltada do amor até a morte” (SOLER, 2005 p. 21). É a tentação de um amor tão total, tão absoluto quanto irrespirável, que varre para longe não só as mediocridades do compromisso, mas esvazia matando qualquer diferença e aniquilamento da falta. O que pronuncia o impossível, o impossível em ser uma mulher. 

Na primeira sessão, Maria apresenta-se com um moletom bem largo, chinelo e cabelos amarrados, uma posição bem máscula. Porém em sua terceira sessão, a paciente chega ao atendimento com um vestido longo, cabelo solto e uma sandália com um salto, completamente diferente do que se apresentou nos primeiros dias, de tal modo, que a terapeuta não a reconheceu de imediato. Nesta sessão, Maria chorou muito e disse de sua dificuldade em escolher o que quer fazer da vida, nesta sessão, diferentemente das anteriores, se mostrou uma mulher frágil que não sabia o que queria da vida. Dessa forma, sua estrutura neurótica foi confirmada por se apresentar dividida. Com isso, posso dizer que o mal-estar de Maria impõe a ela mesma, o que Quinet (2005) afirma: 

O neurótico ama seu sintoma como a si mesmo porque este lhe é caro – o que é constatável, na analise, em sua dificuldade em abandoná-lo-, uma vez que seu capital está investido no sintoma. Este é caro como amante (o melhor amigo) e porque aí se encontra seu capital, ou seja, é ai que sua libido está investida. É o que Freud denomina de benefício primário do sintoma, e que Lacan chama de gozo do sintoma (QUINET, 2005 p. 88). 

Dessa forma, para transformar o sintoma de Maria em um sinthoma, segundo Quinet (2005), é necessário que a queixa se transforme em demanda endereçada ao analista e que o sintoma passe de estatuto de resposta ao estatuto de questão para o sujeito, para que este seja instigado a decifrá-lo. E a partir daí o sintoma será questionado pelo analista, que procurará saber a que esse sintoma está respondendo, que gozo esse sintoma vem delimitar. 

Acredito que seja possível esta transformação já que paciente demanda uma transferência, mesmo que negativa com a analista. Maria vem ao consultório em busca de uma guerra viril, porém a terapeuta não assume este papel de rivalidade, na tentativa de retirá-la deste lugar masculinização do gênero feminino que a teoria freudiana denominou como identificação viril. Com isso, a paciente apresenta-se mais feminina nas sessões seguintes, como já relatado acima. 

Em sua última sessão, Maria me diz que está apaixonada por um homem, e que saiu da empresa do seu pai e estava trabalhando em outro lugar, um salão de beleza. Diz que se sentia confiante e decidida em o que fazer da vida. Não sei o que aconteceu com ela, se realmente resolveu todas as suas gavetas. Todavia, nesta última sessão, Maria me mostrou que não devemos em análise, “feminilizar apenas as passíveis de feminilizar”.  

 

REFERÊNCIAS 

COLER, Colette. O que Lacan dizia das mulheres. Tradução: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.  

QUINET, Antonio. As 4 + 1 condições da análise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.


[i] Acadêmica do 10º Período do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

[ii] Professor supervisor de estágio do Curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

[iii] Nome fictício

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