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EDIÇÃO 3

E3-36 Angústia da separação

Luciana Soares Martins Fróes[i]
Geraldo Majela Martins[ii] 

RESUMO
Este artigo pretende apresentar as manifestações de angústia frente às escolhas, decisões e desejos de um paciente da Clinica de Psicologia. Discute-se também o ato de nascer como primeira experiência da angústia. Para isso partiremos de Freud e Lacan para entendermos os conceitos de angústia na Psicanálise. 

Palavras – chave: Angústia, Psicanálise, Castração, Clínica de Psicologia.

 

INTRODUÇÃO                

O paciente B. tem 27 anos e mora na região do Grajaú, procurou a clinica de psicologia com a queixa de um término de relacionamento de seis anos com a sua noiva, e não sabia o que fazer. 

No decorrer das sessões, B. levou muito mais que a queixa inicial, que era o término de relacionamento, trouxe os medos que ele sempre tem quando está sozinho, falou sobre a separação dos pais e como a mãe o tratava sempre de forma autoritária. 

O paciente relata que os pais se separaram quando ele tinha dois anos de idade e ele ficou morando com a mãe. Diz também que a mãe o colocava contra o pai e contra a família do pai. Até que um dia ele o denunciou por causa de pensão alimentícia, e o pai foi preso. B. diz que sofreu muito com isso tudo, pois não queria fazer isso com o pai. 

B. traz a questão da mãe como sendo uma pessoa que decidia tudo, “ela me trata como se fosse um cachorrinho”, sempre mandou na sua vida e fez as escolhas por ele.  

Hoje o paciente está noivo de uma moça que ele mesmo relata ser igual à mãe, sempre resolve as coisas para ele, manda e desmanda na sua vida. 

Agora que eles terminaram, ele traz esta angústia da separação, continua ou não com este relacionamento, o qual remete tanto a sua mãe.

 

ANGÚSTIA DA SEPARAÇÃO 

Segundo Freud (1926), o ato de nascer é a primeira experiência de angústia, sendo esta a fonte da sensação da angústia.  

Freud (1926) ressalta que a angústia é um sinal de perigo que provém do mundo externo ou de impulsos internos, relata que perigos internos possuem uma característica comum, envolvem a separação ou perda do objeto amado, ou uma perda do seu amor, uma perda ou separação que poderá de várias maneiras conduzir a um acúmulo de desejos insatisfeitos e, dessa maneira, há uma situação de desamparo do nascimento – ocorre por ocasião de uma separação da mãe, que remonta a uma fase particular do desenvolvimento do aparelho psíquico. 

Nesse viés, Freud (1926) aponta que o trauma da castração é o responsável pelas diferentes reproduções da angústia, seja ela angústia automática ou mera sinalização produzida pelo eu. Sendo assim, a angústia referenciada a uma situação de castração não implica numa unicidade quanto a sua origem; mantém-se a ideia de uma angústia sinal, isto é, produzida pelo eu com o intuito de evitar novas situações traumáticas. Para Freud, 

No entanto, não posso ver como objetar contra uma dupla origem da ansiedade – uma, como conseqüência direta do momento traumático, e a outra, como sinal que ameaça com a repetição de tal momento (FREUD, 1926, p 119).  

Em seu texto “Inibição, sintoma e angústia”, Freud (1926) aborda a questão da castração em relação à angústia e expõe essa ideia, inicialmente, a partir do caso “Pequeno Hans”, em que o temor da castração iminente determinou um recalque que resultou em um sintoma: a fobia. Freud afirma que, 

Somente no tocante a ‘Little Hans’ é que podemos dizer com certeza que aquilo que sua fobia eliminou foi os dois principais impulsos do complexo edipiano, sua agressividade para com o pai e seu excesso da afeição pela mãe. (FREUD, 1926, p.129)   

Nesse caso, a angústia é gerada por um perigo externo (castração) que deriva de um perigo interno, o desejo incestuoso pela mãe e a agressividade com o pai. Freud relata, 

A afirmação que acabo de fazer, no sentido de que o eu foi preparado para esperar a castração, tendo sofrido perdas de objeto constantemente repetidas, coloca a angústia sob nova luz. Até aqui consideramo-la como um sinal afetivo de perigo; mas agora, visto que perigo é tão amiúde o de castração ele nos parece uma reação a uma perda, uma separação. (FREUD, 1926, p.154) 

Ante a ameaça deste perigo externo, advindo da castração, o sujeito produz um mecanismo de defesa denominado recalque. Esse tem por objetivo a defesa contra a angústia, e como consequência a defesa do aparelho psíquico, que consiste em uma representação da consciência para evitar a angústia. Assim a repetição da angústia se dará devido às exigências pulsionais que remetem o sujeito a uma situação de perigo, que representa um temor primário da castração. 

Desde modo, Freud (1926) afirma que o recalque é encarado como uma tentativa de fuga, na qual o ego retira sua energia psíquica pré-consciente da representação pulsional que deve ser recalcada, utilizando-a com o objetivo de liberar o desprazer, ou seja, a angústia. 

Caminhando nas construções acerca do conceito de angústia, Santos (2002) demonstra, a partir da leitura de Lacan, que é preciso diferenciar a angústia simbolizada, que está alienada aos significantes do outro, de outra mais elementar, mais primitiva, que é derivada da experiência traumática do primeiro encontro com o desejo do Outro.  

Rinaldi (2005) em seu artigo ”O Conceito de Angústia em Lacan” nos apresenta que Lacan decorre da sua afirmação, no seminário x, que existe uma relação entre a angústia e o desejo do Outro. Ele traz a dimensão do Outro, como lugar do significante para a definição de angústia, e que a angústia se enquadra por esta relação ao campo do significante na sua articulação com o imaginário.  

Ainda conforme Rinaldi (2005), nessa relação ao Outro, o sujeito se inscreve como um quociente, isto é, como um resultado dessa marca significante. Porém há um resto, um resíduo, este resto é o objeto a, única garantia da alteridade do Outro. A problemática da angústia se vincula ao desejo do outro justamente enquanto estrutura portadora desse enigma, nesse ponto de falta que faz do Outro o Outro. 

Rinaldi (2005) relata então que, segundo Lacan, quando algo surge no lugar da castração imaginária, é isso que provoca a angústia, uma vez que a falta, falta, e é isso que dá o verdadeiro sentido ao que Freud designa como perda de objeto em relação à angústia.

 

CONCLUSÃO 

Freud diz que a criança nasce de mãe desconhecida e que sua chegada ao mundo é marcada antes de tudo pela angústia. A primeira experiência de angústia, pelo menos no homem, é o nascimento, que significa objetivamente a separação da mãe e poderia ser comparada a uma castração da mãe. Portanto, a criança é antes de tudo uma castração da mãe e um objeto de angústia. 

“Minha mãe era assim, B. fala isso, já deu bom dia, falou obrigado não faça isso, não faça aquilo. Eu era o cachorrinho da mamãe” 

Podemos dizer, então, que o sujeito por ter sido inscrito no universo simbólico e assim ser da linguagem é inerente à falta, já que a linguagem é incapaz de dar conta de tudo.  

Isto é, a angústia que afeta o corpo do sujeito, marcando assim sua divisão, assinalando a sua incompletude de Outro do significante, levando assim o sujeito a sua própria incompletude. 

Eu estou muito indeciso, muito angustiado, não sei se e isto que eu quero, sei que a Maisa e uma mulher para casar, mas fico pensando:  E se daqui a dez anos eu perceber que não e isso que eu queria e ai? Como vai ser? E se tiver filhos, pior ainda? Tenho medo….”                        

Freud (1926) afirma que a angústia se faz acompanhar de sensações e reações fisiológicas, em órgãos ligados ao coração e à respiração, pois ele remete ao estado de perigo e este sempre volta repetindo seu estado.

“Tenho muito medo de escuro, de fantasmas, de assombração de coisas do outro mundo, até de Deus, nossa senhora eu tenho medo, fico trêmulo, as minhas mãos suando, meu coração palpitando” 

Podemos concluir que a partir das considerações de Freud e Lacan sobre a angústia, esta nos introduz numa função, a função da falta. 

A angústia surge quando o sujeito é confrontado com a “falta que falta”, ou seja, com uma alteridade onipotente que o invade a ponto de destruir nele qualquer forma de desejar.

 

REFERÊNCIAS 

FREUD, Sigmund. Inibições, sintoma e Ansiedade (1926). In:______. Um estudo auto-biográfico inibições, sintomas e ansiedade a questão da análise leiga e outros trabalhos.. Tradução Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1976. p. 95-228. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, vol. 20). 

HARARI, Roberto. O seminário a angústia de Lacan: uma introdução. Tradução de Francisco Settineri. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1997. cap. 3, p. 61-112  

PISSETA, Maria Angélica Augusto de Mello; BESSET, Vera Lopes. Fobia, angústia e castração. In: BESSET, Vera Lopes (org). Angústia. São Paulo: Escuta, 2002. cap.3, p. 187-198. 

RINALDI, Doris. O conceito de angústia em Lacan. 2005. Disponível em: http://www.interseccaopsicanalitica.com.br/art016.htm . Acesso em: 6 jul. 2011.

 


[i] Acadêmica do 10º período do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

 [ii] Professor supervisor de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

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