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EDIÇÃO 3

E3-41 Sintoma: um caso clínico

Marcielle Raquel da Costa Maia[i]
Geraldo Majela Martins[ii]

 

RESUMO
O atendimento clínico é um excelente campo de experiência para aquele que  empreende o estudo da psicanálise. O trabalho que se segue é baseado em uma experiência de atendimento clínico, na abordagem psicanalítica, para alunos do estágio VII do Centro Universitário Newton Paiva. Abordaremos a temática relacionada à manifestação do sintoma na clínica psicanalítica.    

Palavras-chave: Sintoma, Sujeito, Objeto.

 

É muito comum clientes do atendimento psicológico chegarem para o atendimento clínico encobertos por uma queixa de sofrimento, que, para eles, é algo excepcional e do qual nada reconhecem. Sara, 59 anos, chegou ao serviço de psicologia com a queixa de insatisfação com seu corpo e com as complicações relacionadas às cirurgias que havia feito no pé, que nasceu com defeito. Durante o primeiro atendimento, Sara relata muito sobre as 29 sessões cirúrgicas pelas quais havia passado, bem como sobre o contexto no qual elas aconteceram. Porém, relata com veemência que por ironia do destino acabou indo trabalhar como recepcionista de um hospital no qual ficou internada por diversas vezes. 

Em qualquer outro local, ou para qualquer outra escuta, poderia mesmo se tratar de uma simples coincidência, o fato de Sara ter optado por trabalhar neste hospital. Mas as experiências em psicanálise demonstram que não se trata de coincidência, mas como um enigma que o sujeito frente ao recalque a cerca do conteúdo recalcado.  

 Freud em (1976) descreve o sintoma como uma construção subjetiva do inconsciente, o sintoma é uma forma de circulação do gozo, no qual o conteúdo sexual, que não encontrou satisfação, passa por modificações a fim de retornar à consciência. Para não ser relacionado aquele conteúdo que foi barrado pelo recalque, esse conteúdo sofre diversas transformações, a ponto de não ser reconhecido pelo sujeito como uma formação oriunda dele mesmo. 

Esses conteúdos relacionados ao sintoma fazem referência às primeiras escolhas pulsionais do sujeito, estando, portanto, intimamente ligados aos conteúdos de formação do inconsciente do mesmo (LIMA, 2000). O sujeito que chega ao atendimento clínico velado por sua queixa pode estar dizendo algo mais íntimo de sua formação inconsciente. Mas por que então o sujeito relata a queixa como sofrimento puro, como algo destituído de todo e qualquer prazer. 

Como já destacamos, o sintoma para o sujeito se configura como um grande enigma, que demanda interpretação, e com o qual ele não se familiariza, por acreditar se tratar de uma formação externa. Isto acontece porque o mecanismo do recalque deveria exilar definitivamente no inconsciente, os conteúdos que não são passiveis de satisfação e, portanto, deveriam prevalecer sob domínio de recalque. Porém o recalque é um mecanismo psíquico falho. A libido, que se encontra represada no inconsciente, encontra outras vias de satisfação consciente, no caso o sintoma. Se o sintoma é um mecanismo de obtenção do gozo porque ele é vivenciado pelo sujeito como sofrimento.

De acordo com Lima (2000), quando o sujeito chega à clínica, ele vem com o intuito de tirar o sintoma, mas segundo a psicanálise, ele não pode ser tirado, pois é uma saída que o sujeito encontra para lidar com o recalque consequentemente se trata de uma formação inconsciente. Para a psicanálise não há como o sujeito se curar do sintoma porque ele não consegue se desfazer do inconsciente. 

Sara se queixa de estar vivendo no passado, ela diz: “eu não cresci me sinto uma criança de sete anos”. Segundo Freud (1976), o sujeito substitui a satisfação frustrada realizando uma regressão da libido, fazendo um vinculo a estádios anteriores de escolha objetal ou de organização, algo que o faz lembrar do passado, do qual não se privava de satisfação. Querendo voltar ao período da história de sua vida para repetir esta fase infantil, mas a partir daí surge um conflito, pois esta satisfação é censurada, sendo transformada em uma sensação de sofrimento. O que naquela época era uma satisfação para o sujeito nos dias de hoje se tornam com algo repugnante e que lhe causa  resistência. Devemos lembrar que há outros processos na formação dos sintomas, como o chistes, condensação e deslocamento.  

Segundo Freud (1976), o sintoma esta ligado a experiências sexuais infantis e responde a incompletude do sujeito, em um dos relatos de Sara ela menciona” quando eu ou minhas irmãs íamos tomar banho, uma tinha que ficar na porta porque se não nosso pai ficava vigiando pelos buracos”. Freud relata sobre a fantasia, que a criança coloca no seu imaginário  o pai como um sedutor, mesmo sem ter ocorrido sedução, muitas  vezes a criança utiliza-se disso para que o período autoerótico de sua atividade sexual seja encoberta. Muitas vezes abandonando a exigência que a realidade nos traz, e para compensar temos devaneios de imaginárias realizações de desejos.

 

REFERÊNCIAS 

FREUD, S. O caminho da formação de sintomas. Rio de Janeiro: Imago, 1976. V.16, Conferência 23.  

LIMA, Celso Rennó. Sintoma: satisfação às avessas. In:____ Os circuitos do desejo na vida e na análise. Escola Brasileira de Psicanálise. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2000.


[i] Acadêmica do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

[ii] Professor Supervisor do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

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