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EDIÇÃO 3

E3-42 Um modo de existir obsessivo

“O ‘caso bem sucedido’ não é uma ‘cura’ no sentido de um produto acabado, mas uma pessoa que sabe que possui ferramentas e equipamentos para lidar com os problemas à mediada que estes surjam. Ele ganhou espaço para trabalhar, sem ser estorvado pelas bugigangas acumuladas de transações iniciadas, mal acabadas.” (B. Stevens)

Marcos Tocafundo[i]
Raquel Neto Alves[ii]

 

 

RESUMO
Este artigo é resultado de pesquisa bibliográfica e prática clínica do estágio VII. O objetivo é contribuir para o desenvolvimento da escuta e da compreensão sobre a realidade do cliente. Tratará de um modo de ser obsessivo e seus desdobramentos.

Palavras-chave: Obsessão, Comunicação, Linguagem.

 

INTRODUÇÃO 

Este artigo tem como objetivo associar o atendimento supervisionado do paciente FGS à fenomenologia. Para que possamos fazer uma escuta fenomenológica, usarei a fala desse individuo, pois será por meio dela que perceberemos seus sentimentos, intenções e pensamentos. 

A criação e transmissão de uma cultura singular somente são possíveis através da linguagem, já que é com o seu emprego que os indivíduos realizam a comunicação de sentidos e se faz possível a participação em experiências alheias. (ERTHAL, 2004 p. 75) 

Segundo Erthal (2004), na comunicação existem sinais cujos significados devem ser captados pontualmente pelo seu receptor, porém nem sempre esses sinais são captados precisamente como foram transmitidos. Distorções sutis na comunicação não chegam a alterar significativamente a mensagem ao ponto de limitar o entendimento no nível de processo pelo receptor. Porém pode ser que em certos limites ela poderá se inutilizar. Isso se ocorre porque as existências do falante e do ouvinte estão incluídas na fala. Dessa forma, a interação é de extrema importância em qualquer situação, o receptor e o transmissor  interagem em um jogo de forças independentes. Tanto um quanto o outro se informam a cada momento sobre as suas atitudes.

Seguindo esta linha, Erthal (2004), diz que terapias centradas no problema, na técnica ou no terapeuta somente contribuem para a distorção do encontro, fazendo com que seu processo de “cura” seja determinado por forças externas ao cliente e não por sua opção. Sartre (1943 citado por Erthal 2004), diz: “somos para nós mesmos a nossa própria obra de arte”. 

Assim está sendo conduzido o atendimento do cliente FSG, 27 anos, que procurou a clinica escola da Newton Paiva por indicação de sua namorada. Teve como queixa inicial suas frequentes “alterações de humor”.  FGS disse também não conseguir controlar sua vivência de angústia. 

Na fala de FGS aparecem repetidas vezes a preocupação em estar ajudando as pessoas, se demonstra muito solícito aos pedidos de todos e, segundo ele, fica muito angustiado sempre que percebe que pode não ter os recursos necessários para atender à demanda dos outros. 

FGS tem repetido em sua fala frases: “tenho medo de prejudicar alguém”, “tenho que ajudar; se as pessoas ficarem tranquilas, também fico”. Também é muito frequente em seu discurso o autoquestionamento como: “o que há de errado comigo?”, “será que vou conseguir ajudar as pessoas?”. 

FGS demonstra a imagem de uma pessoa correta e muito ética, não sendo capaz, segundo palavras dele, de prejudicar ou até mesmo magoar nenhuma pessoa de sua relação. Quanto a sua atual relação afetiva, ele demonstrou ser muito exigente e estar sempre querendo uma reciprocidade em relação ao amor e à atenção que oferece. Quando ele tem a percepção de que não está recebendo da forma que está oferecendo, ele se sente muito angustiado. 

 FGS parece ter uma forma obsessiva quanto ao seu “modo de ser”. Segundo o CID-10, a obsessão é:

um transtorno de personalidade caracterizado por um sentimento de duvida, perfeccionismo, escrupulosidade, verificações e preocupação com pormenores, obstinação, prudência e rigidez excessiva. O transtorno pode se acompanhar de pensamento ou impulsos repetitivos e intrusivos não atingindo a gravidade de um transtorno obsessivo compulsivo.  

Romero (2001) diz que o modo de existir obsessivo é bem conhecido

embora não apresente os traços que o juízo do leigo se compraz em atribuir-lhe; não aqueles que o tornam uma caricatura algo grotesca da ordem da limpeza; esta obsessão emerge apenas quando está atravessando um período de ansiedade intensa e nem sempre estão presentes do modo farsesco que o estereótipo sugere. (ROMERO, 2001 p.211).

Segundo Romero (2001), o modo de ser obsessivo faz com que o cidadão pareça bem comportado, atencioso às regras sociais e discreto. Ele não gosta de chamar a atenção em situações sociais, e escândalos podem aborrecê-lo profundamente.  Ele se mostra organizado, metódico e bem responsável. È disciplinado, com bastante senso de respeito às normas, sendo geralmente correto. 

Assim demonstra FGS em suas relações, e por parecer uma pessoa bem comportada e correta, não são percebidas facilmente suas angústias. No caso de FGS, que está no papel de “salvador”, demonstrar fraqueza é algo angustiante. Para que procurasse ajuda, foi necessário que estivesse em grande sofrimento e angústia, pois esse “modo de ser” e o excesso de disponibilidade com as pessoas de suas relações fazem com que ele se angustie principalmente quando não recebe de volta o que oferece a elas. Essa exigência torna suas relações muito desgastantes.

 

CONCLUSÃO 

FGS tem dificuldade para suportar tudo aquilo que considera como infração às suas próprias determinações de organização. Por isso, é inflexível consigo mesmo e com os que lhe são mais próximos na observância de suas leis. O exagerado perfeccionismo, a precisão meticulosa na arrumação das coisas e a constante repetitividade para que tudo saia da forma rigidamente idealizada tornam-no muito entediado.

Esse “modo de ser” rígido, voltado para a perfeição, somado ao medo de que algo pode não estar perfeito, faz com que FGS tenha muita dificuldade para terminar aquilo que começa. Não importa quão boa esteja a realização, ele sempre terá a impressão de que algo estará faltando, algo não estará correto ou perfeito.

O “modo de ser” de FGS revela dificuldades de expressar seus sentimentos de ternura e de compreensão aos sentimentos e atitudes dos outros.

Em seu “modo de ser”, FGS não consegue se realizar em seus anseios, estando sempre confuso, pois qualquer decisão que toma, sempre é avaliada, pois ele acha que poderia ter optado por outra, como não gosta de duvidas, está sempre a procura de certezas que nunca é alcançada. 

A angústia do incerto passou a ser tão intensa que o levou a procurar ajuda. Sendo assim o início de seu processo terapêutico.

 

REFERÊNCIAS

Organização Mundial da Saúde. Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10. Descrições Clínicas e Diretrizes Diagnósticas. Porto Alegre: Artes Médicas; 1993. 

ROMERO, Emílio. O inquilino do Imaginário: Formas de Alienação e Psicopatologia. 3° Edição Rev e Ampl. São Paulo: Lemos, 2001. p. 330. 

ERTHAL, Tereza C.S.. Psicoterapia Vivencial: Uma Abordagem Existencial em Psicoterapia. Campinas: Livro Pleno, 2004. p. 231. 

ERTHAL, Tereza C.S.. Treinamento em Psicoterapia Vivencial.  Campinas: Livro Pleno, 2004. p.159. 


[i] Acadêmico do 10º período do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

 [ii] Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

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