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EDIÇÃO 3

E3-43 Efeitos da autoimagem nas percepções vividas

Maria Elisa Costa Soares[i]
Raquel Neto[ii]

RESUMO
Este artigo apresentaum estudo de caso que tem como fio condutor a questão da autoimagem e suas implicações na existência da pessoa. Ressalta a análise da existência e as intervenções feitas pelo psicoterapeuta. 

Palavras-chave: Autoimagem, Escolhas, Projeto original.

 

Este artigo visa articular um caso atendido por um estudante de psicologia, com base no eixo fenomenológico existencial, sob supervisão, em uma clinica escola e os desdobramentos da temática da “autoimagem”, pontuando também as possíveis intervenções no atendimento.  

Esse tema surgiu de um atendimento a uma mulher “x”, de 49 anos, com um filho de 6 anos, mãe solteira, que apresenta como queixa inicial a dificuldade em expressar suas emoções. A cliente afirma que faz tudo para agradar as pessoas, pois gosta de receber elogios e que está disposta a pagar “o preço que for para agradar aos outros”.  

A questão da “autoimagem” apareceu em diversas sessões, como, por exemplo, nas seguintes falas: “meu filho diz que sou gorda, feia”; “Eu sempre me achei feia, principalmente após a gravidez que engordei muito, sendo que antes, eu me garantia pelo meu corpo”. 

Inicialmente, é necessário compreender a importância da autoimagem e como se manifesta no cotidiano das pessoas. O individuo se norteia pelos seus valores e a partir de seu projeto original, ele vai se organizar. Em outras palavras, ”a imagem que o individuo cria de si mesmo determina os comportamentos que desenvolve”. (ERTHAL,1989, p.57) 

A autoimagem pode ser entendida como um núcleo estável, que são as experiências que as pessoas mantêm em sua vida. O Self é um conceito importante ligado à autoimagem, que pode ser compreendido como um “conjunto de experiências que influencia o comportamento do individuo” (ERTHAL,1989, p.58). Dessa forma, Self – fenomenal pode ser denominado autoimagem.  

No caso em questão, a cliente tem uma imagem negativa de si, um sentimento de inferioridade e isso, muitas vezes, a deixa em situações desconfortáveis, como, por exemplo, quando a mesma utiliza um sapato apertado que ganhou de uma amiga, só para receber dessa um elogio ou aprovação por estar usando-o. Também, comer algum alimento do qual não gosta para agradar aos outros.  

O que é possível perceber, é que a cliente está numa busca eterna do que se deve ser, em detrimento do que é. A “imagem idealizada torna-se prejudicial. Muitos não conseguem ter uma imagem precisa e completa do eu, pois vivem enganando a si mesmo”. (ERTHAL,1989,p.64). Um exemplo dessa imagem distorcida aconteceu num atendimento em que a cliente disse que se sente mais magra do que de fato está. Ela conta que resolveu olhar na balança e tomou um susto, pois não imaginava que estava muitos quilos acima.  

Para compreender o projeto original da cliente e concomitantemente encontrar como se formou a sua autoimagem, é necessário examinar a história que a cliente traz. No caso citado, a cliente diz que sempre se achou feia e para receber elogios, se esforça para não desagradar os outros.  

O indivíduo entra em contato superficialmente com os problemas, sua falta de sentido na vida, suas ansiedades existenciais, muitas vezes limita-se apenas a descrever fatos que o distanciam de si mesmo. Portanto, a terapia trata-se de uma maior compreensão da história do indivíduo, história essa revivida no presente através de seus projetos de vida. (GASMAO e PIZZARRO,2009) 

Após essa compreensão sobre o projeto original, a formação da autoimagem e sua influência nas escolhas de vida, vê-se a necessidade de intervenções precisas e a importância do estabelecimento do vínculo psicoterapêutico. 

A princípio, o psicoterapeuta precisa estar com acordo interno e aceitação pelo cliente para que possa trabalhar a noção realística do cliente, ajudando-o a desenvolver a congruência, de forma que seu comportamento esteja de acordo com seu eu real. Pois, quando o cliente reconhece o seu “eu real”, aumenta a probabilidade de ele se aceitar e também reconhecer seus limites. 

No entanto, vale ressaltar que antes de provocar qualquer mudança, o psicoterapeuta pode ter que lidar com os obstáculos do cliente. Resistências a mudanças geram sofrimento, medo, pois esse vai abdicar de uma situação confortável sobre a qual já tem domínio, e explorar uma nova forma de vivenciar o mundo. Para tanto, na psicoterapia, é essencial compreender que 

Considerando que a auto-estima é uma atitude afetiva em relação ao Self, e considerando que toda atitude possui três componentes – afetivo, cognitivo e comportamental- que precisam ser coerentes para que tal direção afetiva seja mantida, um abalo em um desses componentes provoca a alteração dos demais, já que a congruência é necessária. Dessa forma, desenvolvida uma ansiedade decorrente da divergência entre a imagem  que se tem de si mesmo e o que na realidade se expressa, algo precisa ser feito. Pode se negar a realidade externa a título da manutenção da auto-imagem, saída mais fácil, ou aceitar as evidencias e reformular tal percepção. (ERTHAL,1989,p 64) 

Entre tantas defesas, o objetivo primordial é ajudar o cliente a se conscientizar das defesas e buscar a autenticidade como forma de se expressar. Investir no projeto original do cliente é incentivá-lo a relatar seus sentimentos, desilusões, dores passadas ou atuais, sua impotência diante das vicissitudes, analisar novos caminhos ou ver os caminhos feitos.  

Para o bom andamento da psicoterapia, a base está na relação entre o psicoterapeuta e o cliente. Diante disso, Erthal (1989) descreve que o papel do psicoterapeuta é ser autocongruente e transparente, abstrair de seus valores e sentimentos, estar atento às percepções e sentimentos que o cliente provoca em si. As possíveis intervenções no fenômeno “autoimagem” podem ser: a refletora de vivências emocionais, que é quando o psicoterapeuta valida os sentimentos do cliente; a refletora de conteúdo verbal, que organiza a fala do cliente; usar de analogias para promover uma melhor consciência de si , o feedback; o confronto como forma de mostrar contradições e gerar novas percepções etc. 

Ainda como cita Erthal (1989), o cliente pode apresentar-se com formas inautênticas de viver, sem consciência da sua responsabilização sobre os próprios atos e atitudes criticas em relação a sua autoimagem. 

Para que o cliente possa alcançar seu crescimento, superando as resistências a mudanças, é necessário emergir no individuo uma reorganização do eu, com isso “o indivíduo apreende-se a si mesmo como uma pessoa mais apta e com possibilidade de enfrentar a vida” ( ERTHAL,1989, p. 64 ). Contudo, é essencial que o terapeuta trabalhe com o cliente sua responsabilidade nas escolhas para poder então ter o reconhecimento de suas culpas com o intuito de promover a organização, compreensão e respeitar as limitações, criando novas percepções e possibilidades de existir de forma mais plena.  

Dessa forma, de acordo com a imagem que o cliente faz de si mesmo, ele pode selecionar os comportamentos mais coerentes com ela. Cabe ao cliente assumir a responsabilidade de ser livre ou de ser-para-o-outro, limitando-se e tornando-se objeto do outro. 

Atrelado ao tema, pode-se associar as angústias que a cliente vivencia. Yalom (1996) cita que existem quatro angústias existenciais: angústia de morte, liberdade, projeto e solidão. Na cliente “X”, ela apresenta angústia no projeto, pois precisa fazer uma re-elaboração da percepção, de suas vivências. Angústia de morte, pois terá que “morrer a feia e fragmentada para emergir a bela, inteira”; angústia de solidão, principalmente em relação ao seu filho, que tem posição privilegiada e a angústia de liberdade, em que a cliente terá que se responsabilizar por suas escolhas e não ficar submetida aos outros de forma inautêntica. 


REFERÊNCIAS 

ERTHAL,Tereza Cristina Saldanha. Terapia Vivencial. Petrópolis: Vozes,1989. p. 183. 

GUSMAO e PIZZARRO. Reconstrução da auto
estima através da terapia vivencial.
2009.
Disponível em: <http://www.perspectivasonline.com.br/revista/2009vol3n10/volume%203(10)%20artigo8.pdf.&gt; Acesso em: 10 set. 2010. 
 

YALOM, Irvin – O executor do amor. Porto Alegre: Artes Médicas,1996. p. 256. 


[i] Acadêmico do 10° período do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

[ii] Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

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