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EDIÇÃO 3

E3-44 Quando a melancolia bate forte: os limites da escolha e o medo da morte

Natanael Magalhães Soares[i] 
Raquel Neto Alves[ii] 

RESUMO
Este artigo objetiva discutir a melancolia, suas manifestações e suas relações profundas com a escolha e a morte. E, por fim, pretende-se apresentar possibilidades para o trabalho com a melancolia. 

Palavras-Chave: Melancolia, Escolha, Morte, Existência, Psicologia. 

 

INTRODUÇÃO 

Na sociedade contemporânea, tem-se uma oferta de múltiplas possibilidades abertas em todas as frentes da existência, o que expõe a pessoa a um leque muito grande de abertura e, ao mesmo tempo, essa sociedade faz infinitas exigências para o mesmo, as quais ele deve atender em relação às possibilidades. Segundo Angerami-Camon (2003, p. 164), “[…] o mundo atual mais do que qualquer outra época da história apresenta uma série muito grande de exigência sobre o homem fazendo com que o nível de exigência sobre as possibilidades que a vida lhe apresenta sejam muito grande […]”. Através dessas exigências, o homem deve apresentar uma performance existencial frente às escolhas da vida, o que se torna uma grande fonte de frustração e todo tipo de doenças atualmente. (ANGERAMI-CAMON, 2003) 

Exigir do homem uma performance frente às escolhas dificulta um processo que em si já é difícil. Quando se tem apenas as próprias questões, a escolha já exige do homem ficar frente a uma abertura que não lhe dá garantia nenhuma e depois de realizada a escolha, não se pode restaurar as possibilidades deixadas para trás. Segundo Alves (2010), o homem é sempre uma dualidade de sentidos, permanência e transitoriedade, poder e impotência, com isso a existência faz-se na elaboração de crises, conflitos e tensões inerentes a sua própria condição de ser que se constrói a todo o momento. Nesses momentos de escolha, algumas pessoas se perdem entre os paradoxos do processo, de acordo com Angerami – Camon (2003, p. 152),  

em nosso cotidiano estamos a todo momento efetivando escolhas que nos direcionam para os mais diferentes caminhos e labirintos. E concomitantemente a essas escolhas estamos assumindo tudo que é pertinente em termos de consequências e desdobramentos dessas escolhas. E lamentavelmente a vida não nos permite que voltemos atrás em nossa temporalidade para refazermos tais escolhas e dessa maneira tentarmos resgatar aquilo que julgamos que fosse, ou teria sido, a melhor escolha. 

Por não poderem voltar atrás em suas escolhas, algumas pessoas sofrem por aquilo que perderam no momento de suas decisões, elas sofrem por aquilo que não viveram, um modo de ser denominado melancólico, 

[…] iremos definir a melancolia como aquelas situações em que a pessoa sofre por aquilo que não viveu. Dessa maneira, teremos então uma pessoa que atinge a velhice e começa a relembrar das escolhas que efetivou ao longo de sua vida e consequentemente daquilo que deixou de viver em função dessas escolhas […]. (ANGERAMI-CAMON, 2003, p. 151). 

A melancolia apresenta-se como uma prisão do passado, uma existência presa às renúncias realizadas, ao não vivido. A culpa pelo renunciado pode petrificar a pessoa no pesar e desconsiderar o que foi vivido. (ALVES, 2010) 

Este artigo pretende discutir as faces da melancolia, como ela se apresenta na realidade e suas relações profundas com a escolha e a morte.

 

A MELANCOLIA, A ESCOLHA E A MORTE

Alguns autores colocam melancolia e depressão em um mesmo conceito, outros fazem uma diferenciação em relação às manifestações e existem os que veem na melancolia uma ocorrência bem específica da depressão. Romero (1997, p.230) faz uma diferenciação entre os dois conceitos em termos de vivência. Para ele, o “[…] melancólico se assemelha ao depressivo neurótico, mas seu sofrimento está temperado, seja pela sua filosofia de resignação, seja por um humor irônico, que lhe permite aliviar seu sufoco interior […]”.  O depressivo “[…] está condenado a uma autodestruição lenta e sofrida, sem maiores glórias. O segundo aprende a conviver com a adversidade e, não raro, sabe transformar suas aflições em arte e poesia”. Apesar dos dois se encontrarem no lado menos luminoso da vida, o melancólico ainda produz com o seu sofrer, não se prostra totalmente como o depressivo. 

A melancolia é um fechamento no passado, “[…] há um encanto nas paisagens perdidas e em todas as imagens ausentes que frequentam nossa memória” (ROMERO, 1997, p. 230). Diante das possibilidades perdidas, o homem congela e paralisa seu movimento, para Angerami-Camon (2003, p. 153), “o fato de ficarmos com outras possibilidades em nosso imaginário, diante de uma escolha efetivada, faz com que essas possibilidades sempre sejam contaminadas por um grande teor de idealização”. Idealizar é uma forma de se prender ao passado, “[…] presente nas possibilidades que deixamos de lado, faz com que essas possibilidades sempre sejam concebidas como sendo a melhor escolha, pois são colocadas na idealização enquanto a escolha efetivada é calcada no real”. (ANGERAMI-CAMON, 2003, p. 154). 

Esse é o ponto que mais toca o melancólico, o pesar pelas escolhas feitas no passado, para ser mais preciso, seria o pesar pelas possibilidades abandonadas no passado e, no momento atual, parecem mais interessantes justamente por não terem sido escolhidas, agora são idealizadas. A pessoa está constantemente fora do tempo, vive em apenas uma parte, ou seja, presa no passado. Para Angerami-Camon (2003, p. 158-159), 

O sofrimento provocado pela melancolia, dessa maneira, é um sofrimento impiedoso, pois remete a situações localizadas no passado e que não foram experienciadas. E o que existe ainda de agravante é que muitas dessas experiências ao terem sido deixadas de lado, podem ainda apresentar a possibilidade de provocar muita culpa nessa pessoa, seja pelo desdobramento de suas escolhas, seja ainda pelas circunstâncias em que essa escolha foi efetivada. Os casos de melancolia apresentam traços bastante definidos e muito bem delimitados de como a pessoa está sofrendo pela idealização que faz das escolhas não vivenciadas. E o que é ainda pior, das escolhas que incidiram na sua própria responsabilidade frente aos desatinos da própria vida. A melancolia é um sofrimento bastante caustico, pois vai provocar um enfeixamento das variáveis que circundam as possibilidades existenciais de uma determinada pessoa incidindo sobre ela o peso das escolhas que realizamos ao longo de nossa vida. 

Segundo Alves (2010), a escolha realizada no passado é vivida como um erro, e o erro torna-se um pecado que necessita de penitência. O suposto erro é visto apenas como vergonha e culpa moral, não serve de embasamento para nenhuma aprendizagem posterior. Tem-se uma existência congelada em um passado imaginário, que bloqueia qualquer possibilidade de movimento. Falta esperança em qualquer mudança já que as escolhas feitas no passado não foram as melhores. Todo esforço é inútil e fútil, nada se pode fazer, tudo está perdido pelos meus erros cometidos. O homem vive um exílio, fechado no tempo, no espaço e em determinadas relações. 

A melancolia vem permeada por sentimentos de culpa, arrependimento, saudade e até mesmo ressentimento. Apresenta-se um ser impossibilitado de transcendência, congelado e fora da fruição do movimento. Para Romero (1997), a melancolia é um querer transitar no transitório, mas querendo uma perenidade inatingível. A pessoa tenta reter vários momentos vividos juntos, sabendo que nunca mais os viverá. Isso se traduz em um sentimento constante de impotência relativo à solidão e à morte. Para o autor, o tema central dessas vivências depressivas é a morte e o sentimento de impotência diante dela. Como as escolhas são vividas como erradas, e a vida não oferece segurança, o homem se depara com a presente frieza da morte, nada pode ser feito, tudo já está determinado e nosso caminho tem um único porto. Essa proximidade com a morte se torna mais presente quando se perdem os laços e se instala a tristeza, 

A tristeza brota de uma quebra e uma ruptura nos laços que sustentam o nosso ser anímico. A vivência sofrida dessa ruptura anímica é um sentimento. E justamente desse sentimento é que se vai organizando, à medida que ganha terreno no mundo do sujeito, o processo depressivo. (ROMERO, 1997, p. 237) 

Sem laços que sustentem sua vida anímica e prostrado por um mundo que já se apresenta pronto, segundo Alves (2010), o homem está condenado visto apenas pelos seus limites. A vida passa a ser imobilidade, fechamento e morte. Por fim,

[…] a depressão é um modo de ser-no-mundo, isto é, um estado de animo predominante que afeta todo o universo do sujeito. Todas as esferas, da corporal até a dimensão espaço-temporal, estão nitidamente caracterizadas na linha do encolhimento, do abatimento e do desvalor existencial. (ROMERO, 1997, p. 244)

 

CONCLUSÃO 

Diante do exposto sobre a melancolia, fica um sentimento de impotência até mesmo para nós da área psicológica. O que há de se fazer com uma pessoa melancólica? Como trazê-la de volta ao movimento de possibilidades? 

Alves (2010) apresenta uma estruturação interessante sobre a saída da melancolia. A morte tão presente pode ser uma via de retorno. O verdadeiro reconhecimento da morte não como impotência, mas como impossibilidade, já que ela representa o fim, não há necessidade de representarmos aquilo que não somos. O homem pode abandonar o cinismo e a culpa pelas possibilidades perdidas, pois as escolhas feitas representam a ele mesmo naquele momento. O homem se constrói nas suas escolhas num movimento de constante transformação. A morte vista de frente pode nos possibilitar viver antes que a finitude chegue. 

Para Angerami-Camon (2003), a melancolia seria uma resposta para não sucumbir às agruras existenciais. A pessoa teria nessa manifestação uma forma de resposta para aquilo que é insuportável. Desse modo, a melancolia seria uma resposta saudável que sinaliza a necessidade de se buscar ajuda para um reequilíbrio. Deve-se compreender a doença como algo que nos remete à crueza do desespero humano e traçar um novo caminho para que se encontre as profundezas da existência humana. 

Cabe ao psicoterapeuta marcar uma presença ao melancólico. Cabe a ele auxiliar essa pessoa em seu caminho de reconstrução. O psicoterapeuta deve acompanhar a pessoa, pois será um caminho doloroso que passa primeiro por uma desconstrução. Ela vai se deparar com uma existência presa a fantasias idealizadas de possibilidades não escolhidas e que não retornam mais. Experiência de profundo desamparo. A pessoa vai se perceber em uma vida sem fundamento. O psicoterapeuta terá de estar próximo para acompanhar o processo, evitar que a pessoa desabe e iniciar uma viagem com ela em busca de aceitação da suas escolhas, estabelecer uma vida no presente (aqui-e-agora) e partir para novos projetos.

Este trabalho não visa dar respostas definitivas, afinal elas não existem. Buscou-se apresentar a melancolia e algumas possibilidades de saída para a mesma. Porém, como a vida é sempre abertura, espera-se que ele sirva de chão para novos saltos em busca do céu.

REFERÊNCIAS 

ALVES, Raquel Neto. Limites e possibilidades nas situações de crise. In: FEIJOO, Ana Maria Lopez Calvo de (org.). Tédio e Finitude: da Filosofia a Psicologia. Belo Horizonte: Fundação Guimarães Rosa, 2010, p. 97-129. 

ANGERAMI-CAMON, Valdemar Augusto. Depressão como processo vital. In:______.Temas existenciais em psicoterapia. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2003, cap. 5, p. 149-193. 

ROMERO, Emílio. Detrás de um vidro escuro: as vivências dominantes na depressão. In:______. O Inquilino do Imaginário: Formas de Alienação e Psicopatologia. 2 ed. rev e amp. São Paulo: Lemos, 1997, cap. 10, p. 229-248.

  


[i] Acadêmico do 10º período do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

 [ii] Professora Supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

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