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EDIÇÃO 3

E3-45 Entrevistas preliminares

Dayana Soares A. da Silva[i] 
Geraldo Majela Martins[ii]

RESUMO
Este artigo surgiu a partir de um caso clinico que visa fazer um estudo do texto “As 4+1 condições da análise” de Quinet, mostrando a função e importância das entrevistas preliminares durante o tratamento. O caso, apesar de não ter muitas informações, nos ajudará a compreender a importância das entrevistas preliminares.

Palavras-chave: Entrevistas preliminares, Análise, Transferência.

 

Este artigo surgiu a partir de um caso clinico do estágio VII – Abordagem em psicanálise, orientado pelo professor Geraldo Majela Martins, visando fazer um estudo do texto: “As 4+1 condições da análise” de Quinet (2000).

Inicialmente, falaremos sobre o caso clinico: as queixas da paciente e o desconforto que os seus sintomas lhe traziam. Em seguida, faremos um estudo do texto de Quinet, mostrando a função e importância das entrevistas preliminares durante o tratamento.

A paciente Márcia[iii], de 38 anos, procurou a clinica de psicologia do Centro Universitário Newton Paiva com a queixa de síndrome do pânico. Ela já tinha feito tratamento nessa mesma clinica há um ano e abandonou por se sentir bem. Agora relatou que as crises de pânico voltaram e que quer se livrar de vez delas.

Márcia chegou ao consultório com uma questão: “estou com síndrome do pânico! Sei que não tenho nada, que tudo isso é coisa da minha cabeça, mas não sei o porquê fico pensando nisso o tempo todo. Quero muito descobrir o porquê sinto isso e me livrar de vez desses incômodos!”.

Márcia reclamava que tudo acontecia de repente, e ela era tomada por uma onda de medo e que seu coração disparava, sentia muita dor no peito e dificuldade de respirar e, nesse momento, pensava que iria morrer. Falou também que sempre que se arrumava para sair, tinha medo e sentia aquela desagradável sensação no estômago e se aterrorizava ao perceber que teria outra crise.

No segundo atendimento, Márcia continuou reclamando das mesmas sensações e do desconforto de não saber o porquê sentia tudo aquilo.

Por incompatibilidade do horário da paciente com a da estagiária, o tratamento teve que ser interrompido, e a paciente foi encaminhada para outro estagiário.

De acordo com Quinet (2000), a expressão entrevistas preliminares corresponde, em Lacan, ao tratamento de ensaio de Freud. Essa expressão indica que existe um limiar, uma porta de entrada na análise diferente da porta de entrada do consultório do analista. Trata-se de um tempo de trabalho prévio, a análise, cuja entrada é concebida como uma descontinuidade, um corte em relação ao que era anterior e preliminar. Esse corte corresponde a atravessar o umbral dos preliminares para a entrada do discurso analítico. Durante as entrevistas preliminares, o analista faz um diagnóstico que tem como função a direção da análise.

De acordo com Quinet (2000), o diagnóstico só tem sentido se servir de orientação para a condução da análise. Para tanto, o diagnostico só pode ser buscado no registro simbólico, no qual são articuladas as questões fundamentais do sujeito sobre sexo, a morte, a procriação, paternidade etc.

A posição do analista não é a de saber, nem de compreender o paciente, pois se há algo que ele deve saber é que a comunicação é baseada no mal-entendido, na ignorância douta.

Em relação à demanda de análise, Quinet comenta que:

(…) não deve ser aceita em estado bruto, e sim questionada. A resposta de um analista a alguém que chega com a demanda explicita de analise não pode ser, por exemplo, a de abrir a agenda e propor um horário e um contrato. Para Lacan, só há uma demanda verdadeira para se dar inicio a uma analise – a de se desvencilhar de um sintoma. A alguém que vem pedir uma analise para se conhecer melhor, a resposta de Lacan é clara – “eu o despacho”. Lacan não considera esse “querer se conhecer melhor” como algo que tenha o status de uma demanda que mereça resposta (QUINET, 2000, p. 16). 

No primeiro momento, Márcia apresentou-se ao psicólogo com uma queixa de seu sintoma e até mesmo pediu para dele desvencilhar-se, mas só isso não basta. Para entrar em analise, é preciso que essa queixa se transforme numa demanda endereçada àquele analista e que o sintoma passe do estatuto de resposta ao estatuto de questão para o sujeito, para que este seja instigado a decifrá-lo.

No trabalho preliminar, o sintoma será questionado pelo analista, que procurará saber a que esse sintoma está respondendo, que gozo esse sintoma vem delimitar.

De acordo com Quinet (2000), o estabelecimento da transferência é necessário para que uma análise se inicie: é o que se denomina a função transferencial das entrevistas preliminares. Mas é importante salientar que a transferência não é condicionada ou motivada pelo analista. A transferência não é uma função do analista e sim do analisante. A função do analista é saber utilizá-la.

Ainda de acordo como Quinet (2000), a constituição do sintoma analítico é correlata ao estabelecimento da transferência, que faz emergir o sujeito suposto saber, pivô da transferência. E nesse momento em que o sintoma é transformado em enigma, é o momento da histerização, pois o sintoma representa a divisão do sujeito. Enquanto o sintoma faz parte da vida do sujeito, pode ser considerado como um signo (ou sinal): aquilo que representa alguma coisa para alguém. E quando esse sintoma é transformado em questão, ele aparece como a própria expressão da divisão do sujeito. E o momento em que esse sintoma encontra o endereço certo, que é o analista, se torna sintoma propriamente analítico.

E a partir daí o sujeito se dirige ao analista com algumas questões. Tal posição inclui um saber, supondo que o analista detém a verdade de seu sintoma, sob a forma de uma produção. De acordo com Quinet (2000), o sujeito histérico encosta no seu mestre (S1) contra a parede para que o mestre produza um saber (S2). Saber sobre esse gozo que está em causa e que vem a mostrar a verdade escamoteada do sintoma. Essa manobra é fadada ao insucesso, pois à impotência do saber em dar conta da verdade do gozo (a), constituindo, no entanto, um laço social.

O enigma é dirigido ao analista, que é suposto detentor do saber: o analista é assim incluído nesse sintoma, completando-o. Dessa forma a entrevista preliminar  provoca a histerização do sujeito, desde que o histérico é o nome do sujeito divido, ou seja, o próprio inconsciente em exercício.

Dessa forma, as entrevistas preliminares são a porta de entrada para análise. Mas para que haja análise, é preciso percorrer um longo caminho até que a transferência seja estabelecida, e a queixa se transforme numa demanda endereçada aquele analista, também é necessário que o sintoma passe do estatuto de resposta ao estatuto de questão para o sujeito, para que este seja instigado a decifrá-lo.

Márcia apresentou-se com uma queixa de seu sintoma e até mesmo pediu para dele desvencilhar-se, mas o pouco tempo do atendimento e a impossibilidade da continuidade do tratamento não permitiu que houvesse uma tentativa da entrada em análise.

 

REFERÊNCIA

 QUINET. Antonio. As 4+ 1 condições da analise. 8. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000. 115 p.


[i] Acadêmica do 10° período do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva. 

[ii] Professor supervisor do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva. 

[iii] Nome fictício dado para preservar identidade da paciente.

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