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EDIÇÃO 3

E3-46 Plantão Psicológico sob o enfoque da análise do comportamento

Maria Christina Bittencourt Lima[i] 
Ghoeber Morales dos Santos[ii] 

RESUMO
A Abordagem Centrada na Pessoa tem sido a fundamentação da prática clínica mais utilizada nos serviços de Plantão Psicológico no Brasil. Essa abordagem apresenta critérios básicos necessários para o exercício do Plantão Psicológico em Clínica – Escola. Entretanto, busca-se a possibilidade da prestação do mesmo serviço sob o enfoque da Análise do Comportamento, por meio da reflexão de que ambas as abordagens possuem os critérios básicos comuns, mas especificidades como princípios e objeto de estudo que devem ser respeitados. Como também o mesmo pode ocorrer com as diversas abordagens psicológicas existentes.

Palavras-chave: Análise do Comportamento, Plantão Psicológico, Abordagem Centrada na Pessoa

 

INTRODUÇÃO

O propósito deste artigo foi o de refletir sobre a possibilidade de um Plantão Psicológico, como uma modalidade de atendimento psicológico, a ser realizado à luz dos conceitos da abordagem da Análise do Comportamento – AC. Após analisar, em textos impressos e eletrônicos, esse tipo de serviço existente no Brasil, foi possível constatar que praticamente todos possuem como base teórica a visão humanista de Carl Rogers[iii], especificamente, a Abordagem Centrada na Pessoa –ACP.

Inicialmente, faz-se necessário considerar que o termo “plantão”, segundo Mahfoud (1987, p.75), é associado a um tipo de serviço em que os profissionais se mantêm à disposição de quaisquer pessoas que deles necessitem, em períodos de tempo previamente determinados e ininterruptos.

Nessa perspectiva, o plantão requer disponibilidade por parte da instituição que o oferece, e da parte dos profissionais, disponibilidade para se defrontar com o inesperado, como também com a possibilidade de realizar um único encontro com o cliente. Diante das características apresentadas, o Plantão Psicológico é um desafio.

Honório (2008 apud Roseenthal,1999, p.19) ressalta que o caráter imediato de atendimento do Plantão Psicológico não o destina a atender somente pessoas em crises emocionais agudas e quadros psiquiátricos graves. Destaca que a proposta desse serviço não é destinada para emergências psiquiátricas, mas para uma escuta imediata, para o momento da dificuldade da pessoa, sem que necessariamente a intensidade dessa dificuldade tenha atingido um ponto critico que represente ameaça iminente à sua integridade ou a de outros.

Ainda, no que se refere ao conceito desse tipo de atendimento, por Plantão Psicológico, compreende-se, segundo Furigo[iv] (2008), apud FREIRE (2004):

[…] uma nova modalidade de atendimento clínico diferenciada dos modelos convencionais de psicoterapia, em função de seu caráter focal em emergências e urgências de âmbito psicológico. Na forma de Pronto Atendimento busca oferecer àquele que a ele recorre um espaço de Atenção Psicológica na forma de escuta, de acolhimento e de intervenção clínica, diante situações de crise e esclarecimentos.  

Os vocábulos “emergências” e “urgências”, em concordância com Tassinari[v]  apud Dicionário Petit Robert, 1990), possuem significados semelhantes, indicando o surgimento repentino de algo que necessita de uma ação imediata. Porém, do ponto de vista médico, Tassinari (2003, apud Godim, 2003) há uma distinção entre os termos emergência e urgência. Para Godim, em seu texto – Aspectos éticos em situações de emergência e urgência “a emergência caracteriza-se como uma situação onde não pode haver uma protelação no atendimento” enquanto, “nas urgências, o atendimento deve ser prestado num período de tempo que em geral, é considerado não superior a duas horas.”

No que se refere à Atenção Psicológica, Furigo (2008), apud Furigo (2006, p.80) a descreve como uma das características fundamentais para a formação de uma aliança, isto é, um vínculo entre o plantonista e o cliente.

Tassinari (2003) salienta que a palavra crise, da mesma forma que é empregada na Medicina, é também na Psicologia, isto é, em associação a eventos traumáticos ou relacionados à psicopatologia, de maneira a indicar uma necessidade de intervenção imediata. Acrescenta-se DiTomasso, Martin e Kovnat (2004, p. 335) que  definem crise como:

[…] uma experiência durante a qual o indivíduo enfrenta um estressor percebido como insuperável, mesmo com o uso das suas abordagens habituais de enfrentamento e resolução de problema. Por essa definição, o indivíduo em crise percebe o estressor como uma ameaça ao seu bem estar físico, psicológico ou emocional.

Segundo Frank (2004), apud, Eppersen-Sebour; Parad e Parad (1990), as crises são eventos de vida que atacam ou ameaçam o senso de segurança e controle da pessoa. Dentre os chamados estressores da realidade, estão os problemas de saúde, morte, divórcio, separação, perda de emprego e problemas financeiros. Somam-se a esses estupros, assaltos, transtornos do pânico e ansiedade generalizada e experiências de violência em geral.

De acordo com Zanoni (2009, p.9), o Plantão Psicológico é uma prática clínica que tem por finalidade acolher e apoiar psicologicamente as pessoas que buscam por atendimento imediato em seus momentos de crise.

Palmieri e Cury (2007), apud, Dyck & Azim (1983, p.28) dizem que o  surgimento   nos Estados Unidos, Canadá e outros países da Europa das  walk-in clinics”, uma modalidade de clínica institucional, utilizada principalmente nos EUA nas décadas de 70 e 80, visavam a um atendimento emergencial médico ou psicológico ao cliente, no momento em que havia a procura. Essas clínicas atingiram considerável abrangência na área da saúde sob a influência do movimento humanista.

Este, segundo Zanoni (2009, p.14), surgiu nos Estados Unidos, na década de 40 e entre seus representantes destacou-se Carl Rogers (1902- 1987), um dos principais responsáveis pelo reconhecimento da atuação do psicólogo na área clínica, até então restrita à Psiquiatria e à Psicanálise.

Segundo a autora supracitada, Rogers entendia a terapia como um processo que leva a pessoa a descobrir a nuance do seu próprio conflito, com o mínimo de ação por parte do terapeuta, que deve funcionar como um espelho para o cliente.

 A ACP, desenvolvida por Rogers na década de 50, ficou conhecida, inicialmente, por Aconselhamento Não-Diretivo ou Terapia Centrada no Cliente. Seu pressuposto teórico tem por crença que o ser humano é um organismo vivo, com capacidade para crescer e se desenvolver na direção de suas potencialidades intrínsecas, com tendência ao desenvolvimento pleno, adquirindo assim sua maturidade psicológica.

Desse modo, essa abordagem enfatiza as atitudes de empatia, aceitação positiva incondicional e a congruência do terapeuta como elementos essenciais para uma Atenção Psicológica, eficaz, proporcionando ao cliente autonomia para ele próprio encontrar solução para seus conflitos psicológicos.

Furigo (2008) afirma que no Brasil, o Plantão teve seu inicio no Serviço de Aconselhamento Psicológico do Instituto de Psicologia da USP, por volta de 1960, criado pela professora Rachel Lia Rosenberg, através do desenvolvimento de um Pronto Atendimento Psicológico inspirado nos modelos norte-americanos das “walk-in clinics”.

Para Pamieri e Cury (2007), o Plantão Psicológico brasileiro tem origem essencialmente institucional e tem conquistado espaços e se solidificado no âmbito da Psicologia Clínica. E enfatizam que sua base teórica é fundamentalmente humanista, em específico a ACP, que a partir dos anos 50 tem influenciado fortemente os psicólogos humanistas brasileiros, após a influência da mesma abordagem nos Estados Unidos.

Já o Plantão Psicológico da Clínica-Escola de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva, inspirou-se no modelo de Plantão implantado na Universidade de São Paulo – USP. Entretanto, a prestação desse serviço nesta Clínica-Escola acontece sob o enfoque da Análise do Comportamento, abordagem psicológica advinda do Behaviorismo Radical, que tem como seu criador Burrhus Frederic Skinner.  

Skinner (1904 -1990) nasceu no Estado norte-americano de Nova York. Queria ser escritor, no entanto essa carreira lhe foi breve. Ainda jovem, se interessou pelos estudos de John Watson e outros Behavioristas, isto é, estudiosos do comportamento, incluindo-se posteriormente a esse grupo.

Costa (2002, p.2) afirma que o comportamento, na concepção de Watson, referia-se basicamente às mudanças observadas no organismo, em especial, às que ocorrem nos sistemas glandular e motor, como, por exemplo, a salivação, a contração muscular e outros decorrentes de algum estímulo ambiental antecedente, o que denominou de paradigma respondente.  O Behaviorismo Watsoniano é conhecido como Behaviorismo Clássico.

Entretanto, na visão de Skinner, como aponta Moreira & Coutinho (2004, p.60) nem todos os comportamentos aprendidos podem ser explicados por meio do paradigma respondente. E neste momento, Skinner introduz o segundo paradigma comportamental e o principal que deve ser considerado em uma análise comportamental – o paradigma operante. Esse possui como foco principal referir-se ao papel que as consequências desempenham no comportamento e na manutenção deste.

E assim, segundo Marçal (2010, p.31), Skinner deu origem ao Behaviorismo Radical para a compreensão do comportamento humano. Sua proposta foi considerada behaviorista por considerar o comportamento como objeto de estudo e o método científico como forma de produção de conhecimento.

Marçal (2010), apud, Chiesa, (1994) [vi]para o Behaviorismo Radical, o ser humano faz parte do mundo natural e assim interage no ambiente ao invés de sobre o ambiente, sendo parte interativa desse. Neste processo interativo, considera tanto o comportamento público, isto é, o comportamento observável, quanto o comportamento privado – sentimentos, pensamentos, sensações, ambos, público e privado são para Skinner simplesmente comportamentos.  

Para Moreira & Medeiros (2007), há de se fazer uma distinção crucial entre os termos Behaviorismo e Análise do Comportamento. Os autores supracitados afirmam que o Behaviorismo não é uma ciência do comportamento, mas a filosofia que embasa essa ciência. Por isso, não é possível comparar o Behaviorismo Radical com a Psicanálise, a Psicologia da Gestalt e com a Psicologia Cognitiva, pois o Behaviorismo Radical não é uma abordagem psicológica. Já, de forma contrária, a Análise do Comportamento é uma abordagem psicológica. Em síntese, o Behaviorismo Radical embasa filosoficamente a Análise do Comportamento.

A Análise do Comportamento, proposta por Skinner, busca compreender o ser humano a partir de sua interação com o seu ambiente. Esse se refere ao mundo físico que são as coisas materiais, ao mundo social, isto é, a interação entre e com as pessoas e à história de vida do indivíduo consigo. A essência da Análise do Comportamento consiste em identificar relações funcionais entre os comportamentos dos indivíduos e suas consequências. A esse tipo de identificação de relações denominamos análise funcional do comportamento ou análise de contingências.

De acordo com Marçal (2010, p. 32) na clínica analítico-comportamental, o sofrimento de uma pessoa, sua forma de agir e seus comportamentos decorrem da relação entre o seu organismo e o ambiente.

Além da interação organismo e ambiente, na clínica analítico-comportamental seguem-se algumas etapas básicas a partir das queixas iniciais do cliente as quais são utilizadas no Plantão Psicológico da Clínica-Escola Newton Paiva. Faz-se necessário compreender os fenômenos comportamentais relacionados à(s) queixa(s), e esta busca de informações tem por principio básico que os comportamentos não ocorrem por acaso. Esses ocorrem dentro de uma história de vida, de um contexto em que o analista comportamental procura entender em quais condições ocorreram e não onde ou como eles estariam armazenados. O fundamental é identificar quais variáveis são responsáveis pela manutenção dos comportamentos apresentados e o que seria necessário fazer para tais variáveis, na perspectiva de mudanças dos comportamentos. Daí, um analista do comportamento não está interessado no comportamento em si, mas nas condições em que ele ocorre, seus antecedentes e consequentes, sua história de reforçamento/punição e os efeitos deste sobre o comportamento. Emprega-se o raciocínio selecionista para compreender como os comportamentos dos clientes foram adquiridos e são mantidos.

Acrescenta-se aos aspectos componentes da prática clinica apresentada a valorização do autoconhecimento do cliente, que tem um significado bem mais amplo que identificar características pessoais. Assim como a escuta não – punitiva, a empatia, a compreensão do comportamento ocorrido dentro de um contexto para assim modificá-lo, isto é, tornando este comportamento funcional. E mais, cabe ao analista comportamental além de identificar as variáveis independentes dos comportamentos relevantes de seu cliente também capacitá-lo a fazer o mesmo.

Já, Zanoni (2009), apud, Rosenthal (1999, p.16) afirma que o Plantão Psicológico sob a ACP configura-se nos aspectos da escuta, da empatia e da  compreensão do estado emocional do cliente naquele momento, isto é, como ele experimentou e vivenciou a situação que relata visando ajudá-lo a se organizar emocionalmente, através de proporcionar-lhe condições de pensar em alternativas inovadoras que possam ajudá-lo a equacionar de forma produtiva a situação que o incomoda.

Ao comparar os aspectos da prática clínica da Análise Comportamental com os da ACP, é possível constatar um tronco comum constituído pela escuta, pela empatia e pela compreensão do estado emocional do cliente, embora a fundamentação filosófica de ambas as abordagens sejam diferenciadas. Essa comparação viabiliza a concluir que não só a análise Comportamental, mas qualquer outra abordagem psicológica que atenda aos critérios mínimos necessários aos já mencionados acima é possível de ser utilizada como prática clinica da modalidade de serviço – Plantão Psicológico. Provavelmente, o fundamental em relação ao serviço de Plantão Psicológico seja que toda e qualquer abordagem psicológica tenha como foco o cumprimento da finalidade desse serviço – escutar, acolher e intervir clinicamente em situações de crise emocional advindas de naturezas diversas.

 

REFERÊNCIAS 

COSTA, Nazaré. Terapia analítico-comportamental dos fundamentos filosóficos à relação com o modelo cognitivista.1ª ed. São Paulo:ESETec, 2003, p. 2

De-Farias, Ana Karina C.R. et al. Análise comportamental clínica: aspectos teóricos e estudos de caso. Porto Alegre: Artmed, 2010, p.31- 32.

FURIGO, Regina Célia Paganini Lourenço et al. Plantão Psicológico: uma prática que se consolida. Bol.psicol. São Paulo. v.58, n.129, dez 2008.Disponível em http://prpdiv.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0006-59432008000200006&Ing=pt&nm=iso. Acesso em: 24 nov.2010.

FRANK, Dattilio M. et al. Estratégias cognitivo-comportamentais de intervenção em situações de crise.Porto Alegre: Artmed, 2004, p.335-336.

GOLDIM, José Roberto. Aspectos éticos em situações de emergência e urgência. http://www.ufrgs.br/HCPA/ gppg/gppghcpa.htm. Acesso em 22 dez. 2010.

HONÓRIO, Karina Barbosa. Plantão psicológico. Disponível em http://www.redepsi.com.br. Acesso em: 21 dez.2010.

MOREIRA, Borges Márcio; MEDEIROS, Carlos Augusto. Princípios básicos de análise do comportamento. Porto Alegre: Artmed, 2007, p.148.

PALMIERI, Tatiana Hoffmann; CURY, Vera Engler. Plantão psicológico em hospital geral: um estudo fenomenológico. ScieloBrasil. Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Campinas – SP. Psicol.Reflex. Crit.v.20, n.3, Porto Alegre, 2007. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?pid=s0102

79722007000300015&script=sci_arttext. Acesso em: 22 dez./2010.

ROSENBER, R.L. Aconselhamento Psicológico centrado na pessoa. São Paulo: EPU,1987, p.75

TASSINARI, Márcia Alves. A clinica da urgência psicológica: contribuições da abordagem centrada na pessoa. Rio de Janeiro: UFRJ. Instituto de Psicologia, 2003, p.231. Disponível em: http://www.gruposerbh.com.br/textos/teses_doutorado/tese 02. Acesso em: 22 dez.2010. 


[i] Acadêmica do Curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

[ii] Professor supervisor de estágio do Curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

[iii] Precursor do desenvolvimento da Psicologia Humanista nos Estados Unidos

[iv] Freire, P.S.G.L. (2004). Pronto atendimento psicológico em um serviço universitário: compreendendo os processos sob o olhar da Psicologia Analítica. Dissertação de Mestrado. Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Campinas.

[v] Professora e supervisora da Universidade Estácio de Sá, Campus Méier. Coordenadora do Serviço de Psicologia Aplicada da Universidade e sócia-fundadora do Centro de Psicologia da Pessoa, atuando como psicoterapeuta e membro da equipe do curso de Especialização em Abordagem Centrada na Pessoa.

 [vi] CHIESA, M. Radical Behaviorism: The philosophy and the science. Boston:Autthors Cooperative,1994. Não foi possível o acesso à pagina no livro original.

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