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EDIÇÃO 3

E3-47 A histeria: objeto de desejo do Outro

Rejane de Melo Moreira[i]
Geraldo Majela Martins[ii] 

RESUMO
Objetiva-se com este artigo trabalhar o lugar do desejo na clínica da histérica. A psicanálise nos aponta a importância entre a articulação da teoria com os casos clínicos como fonte valiosa de aprendizagem. Para tal, utilizarei de um fragmento clínico a partir do qual discursarei sobre um ponto importante que apareceu no discurso do analisando: o desejo.  

Palavras-chave: Histeria, Desejo, Objeto, Sexualidade, Insatisfação.

 

Este artigo teve origem numa observação clínica surgida no curso de uma possível análise, situando-se numa tentativa de tentar melhor compreender e elaborar o que se passava no tratamento por meio do discurso da candidata á analise. Os atendimentos ocorreram na Clínica de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva, e o artigo acadêmico produzido para a conclusão do Estágio Supervisionado Abordagens Psicanalíticas VII, ministrado e supervisionado pelo Professor Geraldo Majela Martins.

Foi por meio do discurso de uma paciente, uma mulher de 33 anos, solteira, independente, que ocupa um cargo administrativo em uma empresa, e que chegou ao consultório com uma queixa principal “preciso de ajuda profissional para enfrentar o medo, a insegurança e a dificuldade de lidar com as pessoas, situações que prejudicam a vida profissional, familiar e afetiva”.

Durante as sessões, a cliente traz em seu discurso que é perseguida pela supervisora no trabalho e pelo namorado. Considera que tenha parcela de culpa, devido a erros e omissões. A cliente fala pouco da família e, quando fala, relata que o namorado é igual ao seu pai, que também perseguia a sua mãe.

A cliente se identifica com a mãe, a caracteriza como “guerreira” e a coloca no lugar da lei. Por outro lado, critica mulheres que têm atitudes masculinas e diz que nunca quer depender de um homem. Temos uma hipótese de que se trata de uma histeria, já que sabemos que na histeria tem sempre outra mulher na história, porque é ela que indica o significante fálico, essa mulher,  hipotetizamos que seja  a mãe e/ou a supervisora.

Percebe-se que a cliente, apesar de criticar a perseguição de ambos, sente-se culpada, mas, ao mesmo tempo, sente prazer em provocar dor no outro da relação (neste caso, o namorado). Com suas atitudes relatadas ao longo dos atendimentos, a cliente demonstra que provoca o namorado, mesmo sabendo que ele não gosta.

A cliente apresenta em seu texto o que Freud chamou de masoquismo, que é a designação que abrange todas as atitudes passivas perante a vida sexual e o objeto sexual, a mais extrema das quais parece ser o condicionamento da satisfação ao padecimento de dor física ou anímica advinda do objeto sexual. (FREUD, 1905, p.150) Freud aponta que:

É freqüente poder-se reconhecer que o masoquismo não é outra coisa senão a continuação do sadismo que se volta para a própria pessoa, que com isso assume, para começar, o lugar de objeto sexual. A análise clínica dos casos extremos de perversão masoquista mostra a colaboração de uma ampla série de fatores (complexo de castração e a consciência de culpa) no exagero e fixação da atitude sexual passiva originária (FREUD, 1905, p.150).

A cliente, por meio de relatos e atitudes, se coloca no lugar de homem da relação, e na família, se considera o homem da casa, identificando-se com sua mãe, que é para ela a lei, que é o homem ao invés do seu pai.

O estudo deste fragmento clínico aborda a questão do desejo, que para a histérica está além de suas demandas, pois nada pode lhe ser dado com a finalidade de abrandar suas queixas. A histérica nos mostra que frente à sexualidade não há saber, e que ela vive em um estado de insatisfação que não se restringe somente ao registro sexual, mas que se estende por toda a vida. Quanto mais insatisfeita ela é, mais protegida das ameaças de um gozo ela está.

Segundo Martins, o desejo é a lei. Podemos, então, dizer que, em Lacan, o desejo é a lei, porque desejo é sempre interdição de, falta de. (MARTINS, 1999, p. 29). Portanto para Martins, desde Freud:

[…] o desejo (Wunsch), o voto, é inconsciente. Assim, o desejo não são as tendências, as inclinações para os apetites e as vontades. O desejo é uma significância. Sua significância (deutung) é dada pela cadeia de significantes. O sonho é a significância do desejo. O que é essa significância? É, aquilo que o associante, livremente, diz do sonho. O sonho não é o desejo, mais o lugar (topos) onde o desejo se revela. O sonho não é o desejo, porque o desejo não é nada, ele não tem objeto, é metonímico. Portanto, o desejo não é o sonho, não é o chiste, não é o ato falho. (MARTINS, 1999, p. 30).

Percebe-se que o desejo é aquilo que não tem nome, não tem símbolo, é aquilo que se identifica com o significante. Para Martins, o desejo não é concupiscência, um apetite sexual, é um voto, é eleição: seu objeto é o próprio desejo – desejo de desejar (MARTINS, 1999, p.30).

A leitura deste trabalho nos leva a pensar também sobre as questões da feminilidade e do gozo, que nos aponta, portanto para a subversão desejante da histeria e as manifestações atuais dos seus sintomas. O desejo na histeria é um desejo de insatisfação.

Para Lacan (1998), o desejo da histérica é sustentar o desejo do pai. Justificando esta afirmação, Lacan desenvolveu a fórmula que diz “o desejo do homem, é o desejo do Outro.” Logo, a histérica deseja ser o desejo do Outro. Assim, a histérica pula de um objeto a outro, dizendo que não a respondeu, não a satisfez. Por que para a histérica, a insatisfação é o que garante o desejo.

Provar que o desejo na histeria existe é dizer que ele continua insatisfeito, percebe-se que satisfazer este desejo, implica-se em gozar, e o gozar faz com que o desejo se perca. O gozo seria a permanência do desejo insatisfeito, o que de certa forma, se opõe ao prazer.

Seguindo este caminho, pode-se perceber a estratégia da histérica, que, na maioria das vezes, como no caso clínico citado, não quer aquele que a quer, mas sim alguém inacessível, mantendo assim seu desejo sempre insatisfeito. Essa é a relação da histérica com o desejo, pontuando assim a insatisfação.

 Aprendemos com Lacan que o desejo só pode ser tomado ao pé da letra, isso porque é preciso transformar a demanda em questão, ou dito de outra forma, o desejo é expresso pela linguagem, de um enigma a ser decifrado. A linguagem é a peça fundamental para um processo de análise. Lacan aponta que:

Para curar a histérica de todos os seus sintomas, a melhor maneira seja satisfazer seu desejo de histérica – que é para ela o de colocar aos nossos olhos seu desejo de insatisfeito – deixa inteiramente fora de campo a questão específica do por quê ela só pode sustentar seu desejo como desejo insatisfeito. (LACAN, 1998, p.19)

Ao considerarmos clinicamente a histérica, ou ao determo-nos na história do saber médico sobre a histeria, constatamos que a histeria fala, e dela faz falar, ou seja, através dela, faz com que se produza um saber sobre o seu enigma. E por meio desses enigmas, Freud se depara com a questão do desejo insatisfeito da histérica e que é a partir do desejo do Outro que o sujeito constitui o próprio desejo.

Podemos, assim, concluir e mostrar a importância da articulação entre casos clínicos e teoria, percebe-se que a cliente apresenta características e atitudes que nos fazem crer se tratar de uma possível histeria, uma que ela nunca esta satisfeita com o que tem, se coloca por diversas vezes em lugar de objeto, constituindo assim o seu próprio desejo. 


REFERÊNCIAS 

FREUD, Sigmund. (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: _______. Um caso de histeria, três ensaios sobre teoria da sexualidade e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 2006. p.149-151. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 7).

LACAN, Jacques. O seminário: livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

MARTINS, Geraldo. Água que dorme: máscara do desejo. Consciência com ciência. Belo Horizonte, p. 28-32, jan. 1999.  


[i] Acadêmica do 10° período do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

[ii] Professor supervisor de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

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