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EDIÇÃO 3

E3-14 Transtornos alimentares: uma visão da análise do comportamento

Hallana Simões Pires[i]
Maxleila Reis Martins Santos[ii] 

RESUMO
Este trabalho tem como objetivo abordar os transtornos alimentares mais comuns na atualidade. Os transtornos alimentares mais relevantes em nosso contexto sociocultural são: a anorexia nervosa, a bulimia nervosa e a obesidade. Esses transtornos serão analisados a partir da Teoria Comportamental, uma vez que essa se mostrou de extrema eficácia no tratamento desses transtornos desde a década de 90. A relevância deste trabalho se deve ao significativo aumento do número de casos constatados nos últimos anos, principalmente entre os adolescentes. 

Palavras-chave: Comportamento, Transtornos alimentares, Anorexia, Bulimia, Obesidade, Terapia Comportamental Técnicas e tratamento.

 

 

INTRODUÇÃO 

Nos últimos anos, alguns comportamentos associados à alimentação e à imagem do corpo têm sido bastante divulgados nos meios de comunicação. As mídias, em geral, têm direcionado todos os seus “esforços”, especialmente para o público jovem, exatamente porque é nessa fase da vida que as pessoas costumam apresentar suas primeiras manifestações dos transtornos alimentares.  

Os transtornos alimentares mais comuns na atualidade são a anorexia nervosa, a bulimia nervosa e a obesidade. A Organização Mundial de Saúde estima que atualmente haja cerca de 180 milhões de obesos no mundo, e ao contrário da anorexia e da bulimia nervosas, a obesidade não é classificada como um transtorno mental. Ela é considerada uma doença crônica, multifatorial, caracterizada pelo acúmulo excessivo de tecido adiposo no organismo. Segundo Ballone (2007), a grande maioria dos casos de obesidade ocorre entre indivíduos na faixa etária infantil. Ela também acomete indivíduos de outras faixas etárias, mas a preocupação com as crianças é maior em virtude da repercussão negativa em sua autoestima. 

De acordo com o DSM – IV (1997, apud, Silva, 2005), a anorexia e a bulimia nervosas são caracterizadas como uma perturbação no comportamento alimentar, com presença de diversas alterações psicológicas associadas, que, frequentemente, necessitam de intervenção psicológica e/ou psiquiátrica. Segundo Ballone (2007), esses transtornos acometem, em sua grande maioria, pessoas do sexo feminino, principalmente adolescentes e adultas jovens, e essas representam mais de 90% de todos os casos de anorexia e bulimia. Além dos comportamentos que estão relacionados às preocupações com a aparência, indivíduos diagnosticados com transtornos alimentares costumam apresentar outros transtornos psiquiátricos. De acordo com o DSM –IV (1997), é comum a comorbidade com o transtorno depressivo maior, transtorno delirante, fobia social e transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). 

Apesar de termos disponíveis em literatura resultados satisfatórios no tratamento desses transtornos na abordagem Comportamental, existem discussões atuais a respeito de como este tratamento é feito. Yano e Meyer (2003), apud, Moriyama (2007) apontam que estes resultados insatisfatórios ocorrem porque os terapeutas substituem os sintomas, pois enfocam os diagnósticos psiquiátricos e apenas lidam com as respostas ou comportamentos-problema, sem a realização de uma análise funcional particular. Moriyama (2007) aponta novas possibilidades no tratamento dos transtornos alimentares, sugerindo uma proposta fundamentada nos princípios do Behaviorismo Radical, sendo esses transtornos compreendidos como classes de resposta que foram desenvolvidas pelo indivíduo a partir de suas interações com o contexto em que vive.  

O DSM-IV apresenta a descrição topográfica dos comportamentos-problema dos transtornos alimentares e, embora adequadas às propostas de intervenção psiquiátrica, não especificam quais comportamentos estão atualmente ocorrendo, como eles variam entre situações ou como diferentes contextos influenciam a frequência, intensidade e duração das respostas características dos transtornos alimentares (Lappalainen; Tuomisto ,2005, apud, Abreu; Cardoso,2008). 

Estudos como o de Fester; Nuremberger; Levitt (1962, apud Heller e Kerbauy, 2000) fazem uma análise do comportamento alimentar. Segundo os autores, o comportamento alimentar pode ser aprendido, e os mesmos propõem a reeducação do paciente por meio de técnicas de autocontrole. Essas técnicas referem-se a comportamentos específicos que diminuem a probabilidade de emissão do comportamento a ser controlado, que varia dependendo do transtorno alimentar do sujeito. Os desempenhos específicos referem-se à manipulação das condições que influenciam o comportamento indesejado. Segundo Heller; Kerbauy (2000), esse programa é vantajoso porque, quando o autocontrole do comportamento alimentar já está instalado no sujeito, permite que o mesmo mantenha seu próprio comportamento sob controle, além de ser capaz de reiniciar os desempenhos aprendidos se forem novamente necessários.  

Tentar especificar a relação entre os transtornos alimentares e o contexto nos quais esses são função, será o primeiro ponto a ser trabalhado pelo analista do comportamento. Assim, o profissional fará uma análise funcional do comportamento-problema, investigando os eventos antecedentes e consequentes a ele. Além disso, é importante investigar as contingências passadas que instalaram os comportamentos que compõem o transtorno. Lembrando que é importante fazer essa análise em relação às contingências presentes, mas também investigar as contingências passadas que foram instaladoras desses comportamentos que compõem o transtorno. 

Na maioria das vezes, os transtornos alimentares são tratados com psicoterapia associada à medicação. No caso de tratamento de anorexia e bulimia nervosas, a quase totalidade dos pacientes veem o tratamento como uma ameaça, pois imaginam que o objetivo do mesmo é engordá-los. Segundo Silva (2005), o terapeuta não pode interpretar essa oposição, no sentindo de sentir que esta ameaça recai sobre o próprio terapeuta, pois ela é gerada pela forma distorcida como os pacientes se veem. Ainda segundo a autora, é preciso “negociar” a estratégia terapêutica com o paciente para que um vínculo de confiança seja criado, facilitando assim o tratamento do transtorno alimentar. 

Dado o início do tratamento, é esperado que o paciente diminua sua preocupação com a imagem corporal, e, com isso, recupere seu padrão alimentar regular. Assim, aos poucos, ele alterará seus hábitos alimentares e reaprenderá a se relacionar com os alimentos. Para isso, o terapeuta comportamental deverá identificar e corrigir as condições que favorecem o desenvolvimento e a manutenção das alterações comportamentais que caracterizam os transtornos alimentares.  

Segundo Silva (2005), as técnicas comportamentais que são mais utilizadas são: a reestruturação cognitiva (o paciente faz uma reavaliação e correção de suas cognições distorcidas, permitindo assim que ele possa perceber que, na maioria das vezes, estava desvalorizando sua capacidade de enfrentamento de determinada situação), treino de assertividade, exposição e prevenção de respostas. Todas essas técnicas devem ser adaptadas de acordo com a especificidade de cada caso, seja em relação ao tipo do transtorno alimentar ou quanto ao perfil do paciente. Para o sucesso do tratamento, é preciso que haja um bom vínculo entre terapeuta e paciente, o mesmo precisa sentir-se aceito, compreendido e confortável.  

Segundo Silva (2005), o tratamento dos transtornos alimentares pode ser feito com psicoterapia em grupo ou individual. Isso depende do diagnóstico médico e da gravidade de cada caso. Os terapeutas comportamentais têm percebido o atendimento em grupo vantajoso, pois assim que os resultados positivos começam a surgir, o paciente sente a necessidade de inserir o “social” em sua vida, e o grupo acaba sendo um grande facilitador nesse sentido.   

A grande maioria dos casos de transtornos alimentares se inicia na adolescência, porém no tratamento de crianças é necessário que as técnicas utilizadas sejam adaptadas à idade da criança. Silva (2005) indica a utilização de desenhos, jogos, histórias e brincadeiras que fazem parte do mundo infantil para que assim a criança se sinta à vontade para interagir com o terapeuta. A autora ainda sugere que a participação dos pais seja intensa, uma vez que sua colaboração é muito necessária para a realização das tarefas propostas para serem feitas em casa. 

Sendo apresentada uma noção geral de como o terapeuta comportamental trabalha com os transtornos alimentares, se faz necessária uma explicação um pouco mais detalhada de acordo com o tipo de transtorno.  

No tratamento da anorexia nervosa, o foco do atendimento é a recuperação nutricional em função da debilitação física apresentada pelo paciente. Normalmente, os pacientes com esse transtorno são levados à internação por estarem em condições físicas muito precárias. Antes da necessidade de internação, é comum que os pacientes neguem a doença. A psicoterapia individual (ou em grupo), a orientação nutricional, o acompanhamento de um clínico geral e a psicofármacos são utilizados na maioria dos tratamentos de pacientes anoréticos.  

Sujeitos diagnosticados com bulimia nervosa costumam não precisar de internação hospitalar, pois o seu grau de gravidade é menor se comparado à anorexia nervosa. O tratamento desse transtorno tem como objetivo a redução dos episódios de ingestão alimentar descontrolados, auxílio no controle dos comportamentos compensatórios (por exemplo, o uso de laxantes), e tratamento dos sintomas do transtorno. O tratamento com uma equipe multidisciplinar também se faz necessário. Todos os profissionais inseridos no tratamento deste tipo de paciente devem adotar uma postura não julgadora para que assim não seja reforçada a rigidez autopunitiva dos mesmos, pois é comum em sujeitos diagnosticados como bulímicos o comportamento autopunitivo em situações em que cederam às suas vontades, como, por exemplo, quando comem alguma coisa que consideram bastante calórica.  

O tratamento com sujeitos obesos exige que o profissional busque a modificação dos hábitos alimentares do paciente, o início da atividade física e a redução do peso. Para a modificação desses hábitos, são utilizadas algumas técnicas que também são utilizadas no tratamento da anorexia e da bulimia nervosas. O terapeuta comportamental deve estar atento aos sentimentos (comportamentos) de vergonha e inferioridade, que são bastante comuns em sujeitos obesos. É preciso que ele diminua sua exposição às condições que facilitam a alimentação inadequada. Técnicas de prevenção de recaída devem ser utilizadas. O tratamento também deve ser feito com uma equipe multidisciplinar, assim como dito acima sobre a anorexia e bulimia nervosas.

Por fim, é fato que estudos na área dos transtornos alimentares se fazem necessários, uma vez que o número de casos, independente do tipo de transtorno, aumenta a cada dia. Este trabalho enfocou os três tipos de transtornos mais comuns atualmente, porém é preciso ressaltar que existem outros tipos de transtornos que também são importantes e devem ser estudados, como, por exemplo, o transtorno dismórfico corporal, mas que não era foco deste artigo. Os atendimentos feitos por psicólogos comportamentais, apesar de sua eficácia disponível em literatura, devem ser repensados, uma vez que não pode-se ater ao “rótulo” do diagnóstico médico, levando então em consideração a importância de uma análise funcional do comportamento-problema e avaliação do repertório geral, dentre outras técnicas já citadas anteriormente neste trabalho.  


REFERÊNCIAS 

ABREU, Paulo Roberto; CARDOSO, Luciana Roberta Donola. Multideterminação do comportamento alimentar em humanos: um estudo de caso. Psicologia: teoria e pesquisa. Brasília, v. 24, n. 3, set. 2008. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-37722008000300012&script=sci_arttext&gt; . Acesso em: 7 nov. 2010. 

ADES, Lia; KERBAUY, Rachel Rodrigues. Obesidade: realidade e indagações. Psicologia USP, São Paulo, v. 13, n. 1, 2002. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-65642002000100010&lng=en&nrm=iso&tlng=pt&gt;. Acesso em: 7 nov. 2010. 

BALLONE, G.J. Transtornos alimentares. In: PsiqWeb  Psiquiatria Geral. Disponível em: <http://www.psiqweb.med.br/site/?area=NO/LerNoticia&idNoticia=82&gt;. Acesso em: 7 nov. 2010. 

HELLER, Denise Cerqueira Leite; KERBAUY, Rachel Rodrigues. Redução de peso: identificação de variáveis e elaboração de procedimentos com uma população de baixa renda e escolaridade. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva. Disponível em: <http://revistas.redepsi.com.br/index.php/RBTCC/article/viewFile/288/228&gt;. Acesso em: 7 nov. 2010. 

MORIYAMA, Josy de Souza. Processo terapêutico analítico-comportamental em dois casos de transtorno dismórfico corporal. Campinas: PUC-Campinas, 2007. Trabalho de conclusão de curso de doutorado. 233 p. 

REIS, Adriana Alcantâra dos; TEIXEIRA, Eveny da Rocha; PARACAMPO, Carla Cristina Paiva. Auto-regras como variáveis facilitadoras na emissão de comportamentos autocontrolados: o exemplo do comportamento alimentar. Interação em Psicologia. América do Norte, 9 out. 2005. Disponível em: <http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs2/index.php/psicologia/article/view/3286/2630&gt;. Acesso em: 7 nov. 2010. 

SILVA, Ana Beatriz Barbosa. Mentes insaciáveis: anorexia, bulimia e compulsão alimentar. 2. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005. 272 p. 


[i] Acadêmica do décimo período do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

[ii] Professora e supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

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