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EDIÇÃO 3

E3-17 O desespero humano na construção da autenticidade

Bárbara Cristine Caldeira dos Santos[i]
Raquel Neto Alves[ii] 

RESUMO
A proposta deste artigo é uma compreensão do desespero humano na tentativa de construção da autenticidade. Há várias formas de desespero que auxiliam na construção da nossa autenticidade, mas há outras que nos levam à inautenticidade. O desespero é algo inerente a nós seres humanos, é preciso saber manejá-lo para que ele nos leve à autenticidade. 

Palavras-chave: Desespero humano, Condição humana, Autenticidade.

 

A proposta deste artigo é a apresentação de um caso clínico relacionado à teoria do desespero humano proposto por Kiekergaard, a angústia e a culpa de Boss e a autenticidade de Jadir Lessa.   

Inicialmente, abordaremos a teoria de Kierkegaard (1988, p.199), que diz que “o desespero é a doença mortal” e “quando o perigo cresce a ponto de a morte se tornar esperança, o desespero é o desesperar de nem se quer poder morrer”.

R, 45 anos, ao contar sua historia, diz que o pior momento de sua vida foi há 20 anos, quando seu companheiro faleceu e logo em seguida seu pai, uma pessoa que, segundo ela, era “unha e carne”. Após o velório de seu pai, R percebeu que estava sozinha a partir dali e teria que tomar conta de dois filhos pequenos e da casa. Ao pensar nisso, R pega todos os remédios (de pressão, diabetes etc.) e toma.

Quando perdemos alguém nossoeu é provocado à tristeza, pois, temos de ser um eu sem o “outro” e o nosso desespero se torna agora um enorme vazio, pois, morto o “outro”, provoca-nos também o abandono. 

Para Kierkegaard (1988, p.200), “a perda não é desespero declarado, mas é dela própria que ela desespera”. Essa afirmação fica evidente na fala de R quando ela diz que, naquele momento, sua vontade era realmente morrer, mas, ao acordar no hospital, se arrepende e decide encarar o desafio que a vida lhe propôs. 

Neste momento, fica claro que o desespero de R é o de não poder morrer, pois havia muito a ser feito. Para Kierkegaard (1988, p.199), “esta destruição de si própria que é o desespero é impotente e não consegue os seus fins”. Sua tentativa de morte física fracassou, mas não a impediu que vivesse para a morte, pois a partir daí R passou a viver para os filhos e para o trabalho se anulando totalmente.

Em relação a isso, Kierkegaard (1988, p.199) pondera que: 

A sua vontade própria é destruir-se, mas é o que ela não pode fazer, e a própria impotência é uma segunda forma da sua destruição, na qual o desespero pela segunda vez erra seu alvo, a destruição do eu: é, pelo contrário, uma acumulação de ser, ou a própria lei dessa acumulação. 

Após ficar viúva, R passa a ser muito assediada por homens solteiros e casados, o que a incomodava muito e a fazia se sentir culpada. Ela decide então tentar se esconder de alguma maneira e passa a comer compulsivamente e sem perceber ela passa de uma pessoa de aparência magra, segundo ela, para uma pessoa obesa. Para Boss (1988, p.16 e17): 

Há tempos os sentimentos de angústia e culpa dos nossos pacientes se recolheram em proporção cada vez maior para o esconderijo do interior do corpo e daí somente falam na linguagem estranha dos assim chamados distúrbios funcionais […] 

Perguntei a ela durante quanto tempo isso aconteceu, mas ela diz não saber dizer. O que sabe é que deu certo e ela ficou “invisível” e parou de ser cobiçada, de ser vista pelos outros e por ela mesma. Segundo ela, durante esses vinte anos, não se olhou mais no espelho. 

A respeito da destruição de si mesmo Kierkegaard, diz que:  

Bem longe de consolidar o desespero, pelo contrário, o insucesso do seu desespero em destruí-lo é uma tortura, reanimada pelo seu rancor; porque é acumulando sem cessar, no presente, o desespero pretérito que ele desespera por não poder devorar-se nem libertar-se do seu eu, nem aniquilar-se. 

R acumulou em seu cotidiano o trabalho e devorou a comida na tentativa de se anular e conseguiu com isso a obesidade, nenhum lazer e nenhum amigo. Ela dedicou sua vida ao acúmulo e ao mesmo tempo à culpa, pois, quando arriscava algo, vinha junto um enorme sentimento de culpa e angústia. Sobre isso, Boss (1988, p.17) diz que “hoje, todavia, angústia e culpa ameaçam se esconder mais e mais sob a fachada fria e lisa de um tédio vazio e por traz da muralha gélida de sentimentos desolados completa insensatez de vida”. 

A fibromialgia foi algo que R conseguiu também por conta de sua obesidade e de seu modo de viver entediante e vazio. 

Para as psicólogas Ana Maria Canzonieri Maeda; Maria Isela Garcia Fernandez (2010), pode-se pensar a fibromialgia: 

[…] como uma sensação alterada de dor, resultante das alterações sofridas por um indivíduo suscetível, proveniente de diversos agentes estressores, causando a dor como a manifestação do conflito vivido internamente. A manutenção da dor parece estar ligada diretamente ao suprimento das necessidades do indivíduo. Pela insuportabilidade psíquica do conflito vivenciado, o indivíduo deixa de entrar em contato com a causa do problema, ele apresenta dificuldades para enxergar seu sofrimento, convertendo, assim, a dor emocional em um sofrimento físico. 

R, agora, é consciente da finalidade de seu sofrimento, disse que algumas pessoas alertaram que a sua dor não tem nenhum motivo clínico, mas algo emocional, sugerindo a ela que fizesse terapia como tratamento alternativo e complementar. Além disso, ela relata que, quando está perto do seu neto de quatro anos, não sente dor alguma. 

Não é possível relatar a história de R em toda a sua riqueza de detalhes, mas a partir do que citamos, percebemos que é uma história de muito sofrimento e busca de superação, e que há ainda muito a superar.  

R está se cuidando, se olhando no espelho, já emagreceu, se permite ser vista e, o mais importante, ela se enxerga e está consciente de que é responsável por essa parte da história de sua vida que tanto a marcou e que agora a faz olhar para frente. No entanto, ainda há muito a se fazer. Prosseguindo no caminho, sempre com o auxilio de profissionais, ela conseguirá superar situações limites. 

Quanto mais consciência houver, tanto mais eu haverá; pois que, quanto mais ela cresce, mais cresce a vontade, e haverá tanto mais eu quanto maior for à vontade. Num homem sem vontade, o eu é inexistente; mas quanto maior for à vontade, maior será nele a consciência de si próprio. (KIERKEGAARD, 1988) 

Ser consciente de si permite caminharmos para a autenticidade, pois o “ser humano pode ser feliz quando escolhe ser autêntico e torna-se um indivíduo que cria e recria a si mesmo” e esse processo é construído para que a felicidade e a autenticidade sejam conquistadas. (LESSA s/d)

 R conquista sua felicidade quando decide aceitar e expressar seus próprios pensamentos e sentimentos, e para concretizar sua transformação, ela precisa “se auto-conhecer e se auto-determinar, transformando seus pensamentos e sentimentos em vontade própria e sua vontade em projetos de vida”. (LESSA, s/d)

Seus projetos de vida ainda são ideias e vontades, mas para R esse é o primeiro de muitos passos que ela dará em direção à conquista de sua autenticidade e, consequentemente, de sua felicidade. 


REFERÊNCIAS

BOSS, Medard. Angústia, culpa e libertação: (ensaios de psicanálise existencial). 4. ed. São Paulo: Duas cidades, 1988. p. 77. 

KIERKEGAARD, Soren Aabye. Diário de um sedutor – Temor e tremor – O desespero humano. São Paulo: Abril Cultural, 1979. p. 279.  


[i] Acadêmica do 10º período do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

[ii] Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

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