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EDIÇÃO 3

E3-18 Vou ter que conviver com essa mulher? O feminino em Freud a partir de um fragmento clínico

 

Bruna Luciana Domingues Brandão[i]
Geraldo Majela Martins[ii]                  

RESUMO
Pretende-se neste artigo discorrer sobre a sexualidade feminina, partindo-se dos textos de Freud sobre a Sexualidade feminina (1931) e Feminilidade (1933) no intuito de estudar o Édipo na menina, mediante um fragmento clínico de um caso atendido na Clinica-Escola de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva. 

Palavras-chaves: Complexo de Édipo da menina, Sexualidade feminina, Insatisfação.

 

Este artigo foi produzido a partir da prática de atendimento decorrente da disciplina Estágio Supervisionado VII – Abordagem em Psicanálise II, do Centro Universitário Newton Paiva, sob orientação teórica psicanalítica do Professor Geraldo Majela Martins, que teve início no 2° semestre de 2010 e término no 1° semestre de 2011. 

Em seu texto sobre a Feminilidade (1933), aponta que, de acordo com sua natureza peculiar, a psicanálise não tenta descrever o que é a mulher – seria essa uma tarefa difícil de cumprir, mas se empenha em indagar como é que a mulher se forma, como a mulher se desenvolve desde a criança, dotada de disposição bissexual. Ele nos apresenta que há nas meninas o complexo de Édipo, levanta um problema a mais que nos meninos, ademais, a comparação com o que acontece com os meninos nos mostra ser o desenvolvimento de uma menininha em mulher normal mais difícil e mais complexo. 

Rita[iii], 27 anos, procura a clínica de Psicologia, pois, segundo ela, apresenta dificuldade em dizer não e por ser uma pessoa muito nervosa e ansiosa. Durante os atendimentos, no que concerne a essa queixa, Rita relata que devido a sua história pregressa, sofria preconceito por parte dos colegas, devido “ao seu nariz grande” (sic). Esses a chamavam de nariguda, nariz de tucano, enfim, essas nomeações a incomodavam a ponto de atender às demandas de outras pessoas para que essas gostem dela, mesmo não estando essas congruentes com aquilo que pensava. Diante desse posicionamento, Rita aponta que como não falava o que pensava, na hora que devia, acumulava sentimentos que numa situação inoportuna, de maneira impulsiva, eclodiam, e ela acabava por agredir verbalmente outrem. Daí a sua fama de estressada. Nos atendimentos, Rita apresenta os seus relacionamentos afetivos de maneira conflituosa. Nesses relacionamentos, Rita relatava atritos, em que se observa, em cena, uma hostilidade para com outra mulher. Diante dos embaraços com o feminino, Rita afirma: “Vou ter que conviver com essa mulher?” 

Nessa perspectiva, discorremos neste trabalho a partir de um fragmento clínico, no intuito de exemplificarmos, a partir de uma discussão teórica acerca da maneira pela qual a mulher aparece no Édipo da menina. Para tanto, nossa pergunta é, o que é o Édipo da menina? 

Segundo Freud (1924), a crença na universalidade do pênis é pré-condição necessária para a constituição do Complexo de Édipo em ambos os sexos. Na menina, o Édipo não termina com a castração. O principal acontecimento se dá com a separação da mãe, que remete à separação original do seio materno. Segundo Freud, tendo em vista que a mulher não se consola com essa separação, a mulher carrega com ela a marca do ressentimento por ter sido deixada na insatisfação. Esse ressentimento, esse ódio primitivo, desaparece sob efeito do recalcamento, e surge novamente por ocasião do complexo de castração.  

Cabe ressaltar que, ainda em Freud (1924), para a menina, o complexo de castração despertado pela visão do pênis nos meninos a levará a um sentimento de inferioridade e a querer compensar sua falta pela inveja do pênis. Na menina, o complexo de castração a faz voltar-se para o pai para tentar substituir a falta do pênis: o desejo de ter um filho do pai, como substituto do pênis é, portanto, o promotor do Édipo feminino.  

Ainda em 1924, Freud ressalta que em toda a relação entre uma menina e seu pai há que se considerar que houve antes, com igual ou maior intensidade, uma relação de amor com a mãe.  

Mais tarde, Freud (1931), em seu estudo intitulado Sexualidade feminina, dá ênfase à intensidade e longa duração da ligação pré-edipiana da menina à mãe. Observa que, antes de surgir a ligação da menina com o pai, existia uma forte ligação desta com a mãe, sendo que, em muitos casos, esta persiste para além dos quatro ou cinco anos: “Tínhamos de levar em conta a possibilidade de um certo número de mulheres permanecerem detidas em sua ligação original à mãe e nunca alcançarem uma verdadeira mudança em direção aos homens” (FREUD, 1931, p. 260). Ainda de acordo com o mesmo autor, é preciso considerar que existem mulheres que estacionam em sua ligação materna e jamais completam a mudança de objeto.  

Segundo André (1998), a relação pré-edípica com a figura materna, dizendo que “o destino da menina aparece, assim, como o de uma metáfora impossível ou de uma luta permanente para se elevar do registro metonímico para o da metáfora” (ANDRÉ, 1998, p. 186). Diferenciando ainda esta relação primária de uma fusão ou comunhão, ressaltando tratar-se antes “de uma luta ferrenha cujo objetivo, em última instância, é o de determinar quem vai devorar o outro” (ANDRÉ, 1998, p.186-187). Trata-se, dessa forma, de uma relação marcada pela ambiguidade amor-ódio, ambiguidade referida por Freud (1924) e esta é mais uma dificuldade a ser enfrentada pela menina: se, por um lado, para que ela possa se endereçar a um homem, faz-se necessário esta ruptura analisada por Freud com relação à figura materna, por outro, ela deverá identificar- se a esta figura “odiosa”, a fim de construir sua feminilidade. 

Perante aos embaraços do complexo de Édipo, a menina constitui, assim, um processo identificatório em duas vertentes: uma marcada pela fase pré-edípica, na qual a mãe é tomada como primeiro objeto de amor; e outra, advinda do complexo de Édipo, em que a mesma mãe será vista como uma rival a ser eliminada para que a menina possa ocupar-lhe o lugar junto ao pai. 

Diante dessa relação conflitiva e de acordo com o modo pelo qual a menina significa sua castração, segundo Freud (1931), restam a ela três saídas possíveis do complexo de Édipo: renunciar à sexualidade, reivindicar o pênis ou complexo de masculinidade ou aceitar a feminilidade. O primeiro caso é caracterizado, sobretudo, por uma atitude de desvalorização da menina em relação à mãe, à medida que constata sua falta de pênis, o que a leva ainda a relegar sua atividade masturbatória a um plano secundário, já que seu clitóris também perde seu valor diante da impossibilidade de ostentá-lo como objeto fálico na mesma proporção que o pênis ocupa para o menino. Assim, como consequência última, ocorre o recalque, por parte da menina, de grande parte de suas inclinações sexuais.  

Já no tocante à renúncia ao pênis, será definido como um momento no qual a menina se recusa a reconhecer a falta de pênis materno e, consequentemente, sua própria falta, rebelando-se de modo a acentuar sua masculinidade prévia, apegando-se a uma atividade clitoridiana e refugiando-se numa identificação com sua mãe fálica ou com seu pai, permanecendo, desta maneira, vítima da esperança de um dia ainda vir a ter um pênis e conserva, desse modo, uma relação intrínseca com a inveja do pênis – emergente do momento em que a menina vê o traço identificatório do sexo do pai.  

É quanto à última saída pela feminilidade, apresentada por Freud (1933), pode ser explicada pela capacidade da mulher em proceder a um deslizamento simbólico, abrindo mão do objeto materno e se dirigindo ao pai, figura á qual endereçará seu desejo por um filho, como representante do estabelecimento de um desejo feminino por excelência. “[…] Sua felicidade é grande se, depois disso, esse desejo de ter um bebê se concretiza na realidade; e muito especialmente assim se dá, se o bebê é um menininho que traz consigo o pênis tão profundamente desejado” (FREUD, 1933, p. 128). 

Rita, em seu discurso, traz de forma recorrente a reedição do Édipo atualizado, numa disputa fálica com outras mulheres, uma hostilidade endereçada à figura feminina, seja a mãe, a irmã, a ex-namorada do seu namorado, enfim, o Outro rival, em conflito, é sempre o outro do feminino. 

Rita, numa identificação com o pai, escolhe exercer a mesma profissão desse para atendê-lo naquilo que nenhum outro filho fez, e segundo relata, a relação com o pai é diferente da sua relação com a mãe, haja visto que aquele se mostra mais amoroso com Rita. “Minha irmã sempre foi mais ligada à minha mãe e eu ao meu pai” (sic). 

Segundo ressalta Freud (1931), a menina somente chega ao amor do pai pela via do amor da mãe. Essa mudança de objeto de amor ocorre a partir da percepção da própria castração. Ou seja, a menina fica em falta da mãe, na entrada de um terceiro na relação, o pai ou aquele que pode ocupar esse lugar. É na medida em que o desejo da mãe se volta para esse outro que a menina percebe que não completa a mãe, que não é tudo para a mãe. É só quando se dá conta de que sua mãe não é completa, mas faltante, assim como ela mesma, que então pode abandonar seu apego primário à mãe e tomar o pai como objeto.  

Assim, faz-se considerar pelo fragmento clínico, que atualização de uma cena edipiana, em que a menina rivaliza com mãe e elege o pai como seu objeto, aquele que lhe dará o que a mãe não pode – o falo – advém na cena analítica via repetição lá onde o sujeito desconhece, pois repete fora de qualquer intencionalidade, mas que está presente no seu cotidiano através dos seus relacionamentos. É preciso então que num processo analítico, Rita possa resignificar seus embaraços com o Édipo feminino a fim de compreender que a convivência com essa outra mulher- a mãe simbólica – foi preciso, mas que é necessário separar-se dela e eleger o pai simbólico como objeto de amor.

 

REFERÊNCIAS

ANDRÉ, Sergio. Uma menina e sua mãe. In:______. O que quer uma mulher?. Tradução de Dulce Duque Estrada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. cap. 10, p. 170-188. 

FREUD, Sigmund.A dissolução do Complexo de Édipo(1924). In:______. O Ego e o id- uma neurose demoniaca do século XVII e outros trabalhos. Tradução Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1976. p. 191-202. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 19). 

_______. Sexualidade feminina (1931). In:______. O futuro de uma ilusão, O mal-estar na civilização e outros trabalhos. Tradução Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1976. p. 257-282. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 21). 

_______. Feminilidade (1933). In:______. Novas conferências introdutórias sobre psicanalise e outros trabalhos. Tradução Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1976. cf XXXIII, p. 113-134. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 22).


[i] Acadêmico do 10º período do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva. 

[ii] Professor supervisor de estágio do Curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva. 

[iii] Observamos que, considerando o sigilo necessário, todos os nomes referidos neste texto são fictícios.

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