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EDIÇÃO 3

E3-20 O obsessivo e a morte

Caroline Turatti Cardoso[i]
Margaret Pires do Couto[ii] 

RESUMO
Este trabalho tem como objetivo caracterizar a estrutura de neurose obsessiva, articulando com um caso a partir da experiência de estágio VI na Clínica de Psicologia Newton Paiva. Para compreender essa estrutura, é preciso considerar a relação com o pai, a dívida e a morte. Daremos ênfase nas fantasias de morte muito presente na estrutura. 

Palavras chave: Obsessivo, Morte, Dívida, Pai, Fantasia. 

 

Para Ribeiro (2003), a neurose obsessiva é um sofrimento psíquico que aponta para os impasses do sujeito com o desejo inconsciente. Segundo Lacan (1999), existe no inconsciente cadeias significantes que são estruturantes, que incidem sobre o organismo, transformando-se em sintomas.  

 “A fantasia efetivamente, é o suporte, o índice de certa posição do sujeito” (GAZZOLA 2002, p.148). Segundo Gazzola (2002), é o ponto de partida constituindo-se a imagem que atinge o sujeito no campo do Outro. O autor caracteriza como um tempo de parada, um tempo suspenso, uma imagem fixada para sempre. É a imagem parada desse momento de ação no qual o sujeito estava prestes a se constituir em relação ao seu desejo. O sujeito então paga um preço para sustentar sua posição de ser desejante. 

Segundo Gazzola (2002), para compreender o obsessivo, é preciso considerar a relação com o pai, a dívida e a morte. Ele se identifica com o pai morto, põe-se assim a fazer-se de morto em vários sentidos.  Primeiramente, para o autor, o obsessivo se recusa a fazer-se de mestre ou senhor para enganar a morte. Ele está sempre adiando seu desejo para só servir-se dele no dia em que seu mestre morrer, no dia que ele poderá ocupar o lugar de seu mestre. Naturalmente, isso nunca acontecerá, pois a melhor forma de enganar a morte é estar morto. É um paradoxo, pois ele escolhe a posição de escravo para não perder a vida, mas acaba tornando-se morto-vivo.  

Conforme Lacan (1999), o obsessivo bruto é aquele que se queixa de empecilhos, bloqueios, inibições, medos, dúvidas e proibições. Um exemplo de um obsessivo bruto é o caso de Marcos, 65 anos, taxista, aposentado, que chegou a Clínica de Psicologia Newton Paiva para acompanhamento psicológico para o filho Leonardo. 

Em um primeiro contato, relatou sobre medos, medo de ser chamado atenção, medo do cliente que entrava no táxi, medo de falar em público e ainda o medo da polícia. Relatou que é membro dos Alcóolicos Anônimos há trinta e dois anos e muitas vezes, ao falar em público, sentia uma tremedeira, ficava nervoso e a língua enrolava.

Marcos já foi casado e possui sete filhos. Uma filha é casada, mora com a mãe e o marido e recebe pensão do pai. Quando indagado sobre o porquê pagar pensão a essa filha, este alega que a pensão é vitalícia e enquanto puder pagar, diz que vai pagar.  Possui outros três filhos com sua ex-mulher, com quem permaneceu muitos anos casado, e ainda mais três filhos mais novos de outra mulher, com quem tem um relacionamento conjugal.  

 Marcos trabalhou seis anos fazendo alguns “bicos” e depois adquiriu sua própria franquia. Para ele trabalhar durante o dia, foi muito difícil, mas depois acostumou. Afirmou que não servia para trabalhar durante a noite, devido à violência e aos assaltos. 

No trabalho, ao “puxar a fila”, expressão utilizada pelos taxistas, significando se aproximar para a próxima corrida, um de seus colegas chamava de “velho muxiba e pé na cova”.  Diziam que está fazendo hora extra e que só puxava o carro  quando desejava. Todos os colegas de trabalho são novos e para Marcos no futuro não haverá mais velho, pois estão morrendo muito cedo. Afirmou que ainda tem medo de sair à noite e, pelas duas ou três horas, ser assaltado por motos, como já viu, descarregarem a arma. 

Relatou que há dois anos fez uma corrida onde foi assaltado. Marcos disse que não poderia fazer a corrida, pois tinha que entregar o carro. O rapaz insistiu e dentro do carro mostrou que portava uma arma, o assaltante questiona se estava com medo e que desejava matá-lo. Marcos responde que não teria condições de dirigir porque estava muito nervoso. O rapaz pede para seguir e indagando se era realmente homem. As palavras do rapaz “você não é homem não? Vai borrar as calças?” ficaram marcadas. 

Ainda para Lacan (1999), há sempre um a cena em que o sujeito é apresentado no roteiro sobre formas diferentemente mascaradas, na qual ele é implicado nas imagens diversificadas, na qual um outro ou um semelhante e também como reflexo do sujeito é presentificado.  

Nas sessões seguintes, ele relatou vários episódios de assalto com outros colegas taxistas. O cliente afirmou que sofria muito com tudo isso e ainda disse que “taxista sente muito medo”. Contou de outra situação que levou outro passageiro em um lugar afastado e que pediu para subir o morro, o cliente insiste dizendo que iria permanecer no carro até o rapaz pegar o dinheiro, que se encontrava no local. O paciente então vai embora preservando sua vida. Podemos perceber que em todas as situações há um enquadramento da cena, ao insistir o sujeito acaba cedendo e é roubado, levando tudo que lhe restava. Para ele, em um assalto é preciso entregar tudo para viver. 

Pode-se perceber que entregar tudo para o outro é entregar a própria vida. Marcos estava às voltas com a morte e como estratégia tinha que oferecer a vida e morrer ou servir ao Outro, que ele supunha ter que se fazer de escravo.  

Podemos pensar que Marcos, como todo obsessivo, se apresenta como escravo, um escravo do trabalho, e, ao mesmo tempo, como seu próprio patrão, dedicando-se em média nove a dez horas em sua jornada. Para Lacan (1999), para o obsessivo, o trabalho é poderoso, sendo feito para liberar o tempo de navegação a todo pano que será o das férias. A passagem pelas férias revela-se habitualmente quase perdida.  

Caso não seja o trabalho, o sujeito pode buscar outras saídas, uma delas é tornar-se escravo da bebida.  

Marcos relatou de um amigo, também aposentado, que passava as manhãs no bar até a hora do almoço e de tarde levava duas garrafas de cerveja para casa. Marcos responde que não pode e não quer ter uma vida como essa.  

Marcos é um escravo não só do trabalho, mas também um escravo que serve sua própria mulher. Nos atendimentos, referia-se a ela como patroa. Dessa maneira, podemos pensar que Marcos encontrava na mulher, a quem servia, e no trabalho, se tornando escravo, modos de regular a sua própria pulsão. Portanto,  era um escravo que ora encontrava-se com o pé na cova fugindo para não se haver com o seu próprio desejo.  

O medo, então, se apresentava como um sintoma para dar conta dessas angústias. E ao mesmo tempo o medo é o sintoma para tratar a “tremura”. Tanto o medo e a “tremura” são significantes que dizem da verdade do inconsciente. O medo apresentado da polícia seria então uma resposta ao pecado moral? Qual é o crime que esse sujeito cometeu para ter tanto medo da policia?  

O tratamento, então, fará surgir o que é da ordem do desejo, pois a todo  momento Marcos foge ao se deparar com ele tentando defender-se da castração. Portanto, o objetivo essencial na estrutura obsessiva é a manutenção do Outro. Segundo Gazzola (2002), o que será importante trabalhar durante o período do tratamento é despertá-lo do seu sono de morte, retirar assim, o pé da cova de forma que se torne vivo no tempo presente. 

 

REFERÊNCIAS 

GAZZOLA, Luiz Renato. O Obsessivo, o tempo e sua morte. In:______. Estratégias na neurose obsessiva. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002. p.145-159. 

GAZZOLA, Luiz Renato. O pai, a dívida e o gozo. In:______. Estratégias na neurose obsessiva. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002. p.40-73 

LACAN, Jacques. O desejo e o obsessivo. In:______. O seminário: livro 5: As formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999. p. 417-434. 

RIBEIRO, Maria Rita Carneiro. A neurose obsessiva. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.  p. 75. 


[i] Acadêmica do 10° período do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

[ii] Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

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