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EDIÇÃO 3

E3-21 A terapia comportamental infantil ao longo da história

Damiana Cristine Ferreira[i]
Maxleila Reis Martins Santos[ii] 

RESUMO
Este artigo tem como objetivo apresentar um breve histórico da psicoterapia comportamental infantil ao longo de sua existência. Neste intuito, serão apresentados dados do referencial teórico Analítico Comportamental e apontamentos históricos que revelam o processo de desenvolvimento da Psicoterapia Infantil. 
 

Palavras-chave: Modificação do Comportamento, Psicoterapia Comportamental Infantil, Criança.

 

INTRODUÇÃO 

Mudanças na forma de interação entre crianças e adultos podem ser percebidas ao longo da história da humanidade, devido ao papel social destinado às crianças no decorrer dos anos. As diferentes formas de interação entre adultos e crianças trouxeram reflexos também para a interação dos terapeutas infantis e seus clientes.

Dados históricos revelam épocas em que a infância era um período ignorado pela sociedade. Esse comportamento social era justificado devido ao fato de que a criança, no período da antiguidade, era vista como “fruto de um estigma, pois representava o pecado da carne, que lhe dera origem, o pecado original” (RIZZO, 2003, p. 21). Devido a essa intrínseca natureza pecaminosa, acreditava-se que a criança necessitava de uma educação corretiva e disciplinadora, que deveria ser feita por meio de vigilâncias constantes. 

Ainda de acordo com a autora citada acima, foi a partir das guerras napoleônicas que se iniciou o movimento de valorização da criança, pois havia sido exterminado um grande contingente de homens nos confrontos, surgindo assim a demanda de novos soldados que pudessem defender o Estado-Igreja.  

Nos dias atuais, o lugar ocupado pela criança vem se desenvolvendo a cada dia, sendo essa resguardada por políticas públicas e leis de proteção à criança. 

O papel social da criança ao longo da história refletiu nas formas de atuação dos terapeutas nos atendimentos infantis. Passa-se agora a delinear o desenvolvimento da psicoterapia infantil ao longo da história, desde o seu surgimento (Modificação do Comportamento) até os dias atuais (Psicoterapia Comportamental Infantil – PCI), sob o enfoque da Análise do Comportamento.  

Williams; Madsen (apud, CONTE e REGRA, 2000, p. 79) afirmam que a Modificação do Comportamento era caracterizada como uma tentativa de replicação de princípios de aprendizagem e métodos experimentais desenvolvidos em ambientes artificiais (ambientes controlados). O foco de intervenção na psicoterapia era uma resposta (a queixa) ou uma classe de resposta específica e que visava a sua modificação. Cada queixa era tratada de maneira isolada, não levando em consideração o todo envolvido.  

Na Modificação do Comportamento, os problemas das crianças restringiam-se às preocupações dos pais, por esse motivo os trabalhos dos terapeutas não levavam em consideração as opiniões e questionamentos da criança. O trabalho de intervenção no decorrer do processo psicoterápico se dava exclusivamente com os pais, sendo de forma indireta a participação da criança no processo.  

As entrevistas na Modificação do Comportamento eram feitas com os pais, que definiam as queixas a serem trabalhadas no decorrer do processo. As crianças não participam de forma ativa nem mesmo na “delimitação” dos comportamentos-queixa, as interações da criança com o ambiente e a posição da criança frente às queixas apresentadas pelos pais não eram consideradas. Nas entrevistas preliminares, nas quais o terapeuta passa a ter acesso às dificuldades da criança, era o adulto o responsável pela definição e delimitação do comportamento-queixa a ser trabalhado. Visando ao levantamento de dados precisos quanto às queixas apresentadas pelos pais, utilizavam-se check-lists e inventários que abarcavam uma multiplicidade de comportamentos-problema observáveis nos quadros de depressão, agressividade, ansiedade e timidez (WATSON; GRESHAM, apud GADELHA; MENEZES, 2004, p.59).  

Recursos lúdicos não eram utilizados no processo de modificação do comportamento infantil, pois, como foi mencionado acima, a participação da criança no processo psicoterápico se dava de maneira indireta, e os comportamentos encobertos e os relatos verbais dessas muitas vezes não eram considerados no decorrer do processo de intervenção e de definição do comportamento-problema, sendo utilizadas apenas técnicas precisas, que podiam ser medidas no decorrer do processo de intervenção. 

De acordo com Gadelha e Menezes (2004, p. 59), foi em 1960 que a terapia comportamental infantil firmou-se como modelo psicoterápico, passando a analisar de forma funcional o comportamento da criança em relação ao ambiente no qual ela está inserida. Neste momento, a criança passa a participar do processo psicoterápico de forma ativa. 

Na Psicoterapia Comportamental Infantil, as crianças – enquanto agente ativo no processo psicoterápico – participam de todo o processo, desde o levantamento da queixa até os momentos da intervenção propriamente ditos. De acordo com Silvares; Gongora (apud, GADELHA; MENEZES, 2004, p. 59), as crianças passam a ser informantes de seus próprios comportamentos, sentimentos e relacionamento social, não dependendo mais exclusivamente dos relatos dos pais para a obtenção de dados quanto as suas vivências individuais. Nesse tipo de entrevista, a criança pode fornecer informações adicionais quanto a sua forma de interação.

A participação da criança enquanto agente do processo psicoterápico exigiu dos terapeutas uma atuação embasada nas particularidades infantis (desenvolvimento motor; comportamental; sensorial e emocional), na qual as estratégias lúdicas passam a ser uma importante forma de atuação.  

Dentre os recursos lúdicos na Análise do Comportamento, há o uso da fantasia no exercício clínico e este “[…] pode ser abordado como estudo científico quando descreve e explica o comportamento (englobando comportamento verbal e não verbal e o sentir e o perceber) conduzindo à compreensão do fenômeno de maneira econômica” (REGRA, 2001, p.187). O fantasiar tem sido útil na avaliação e também no processo de intervenção clínica, possibilitando ao terapeuta maior conhecimento das possíveis variáveis controladoras do comportamento da criança, viabilizando assim uma intervenção mais precisa. 

De acordo com os dados acima, percebe-se que a Psicoterapia Comportamental Infantil foi se desenvolvendo ao longo dos anos, sendo influenciada pela cultura (papel social desempenhado pela criança ao longo da história da humanidade) e ainda pelo desenvolvimento conceitual do eixo epistemológico que a sustenta – Análise do Comportamento.  

 

REFERÊNCIAS 

CONTE, Fátima Cistina de Souza; REGRA, Jaíde A. Gomes. A psicoterapia comportamental infantil: Novos Aspectos. In: SILVARES, Edwiges F. M. et al.(Org.). Estudos de caso em psicologia comportamental infantil. Campinas: Papirus, 2000, v. 1, cap. 4, p. 79-136. 

GADELHA, Yvanna Aires; MENEZES Izane Nogueira de. Estratégias lúdicas na relação terapêutica com crianças na terapia comportamental. Disponível em: <http://www.publicacoesacademicas.uniceub.br/index.php/cienciasaude/article/viewFile/523/344. Acesso em: 3 mar. 2011. 

MADSEN JR., C. H. (1965). “Positive reinforcement in the toilet training of a normal child: A case report”. In: ULLMANN, L. P. e KRASNER, L. (orgs.). Case studies in behavior modification. Nova York: Holt, Rinehart and Winston Inc.                

RIZZO, Gilda. A Creche: breve histórico. In:______. Creche : organização, currículo, montagem e funcionamento. 3. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. cap. 1, p.19-43. 

WATSON, T.S. & GRESHAM, F. M. Handbook of child behavior therapy. New York: PLENUM PRESS, 1998. 

WILLIAMS, C. D. (1965). “The elimination of tantrum behavior by extinction procedures”. In: ULLMANN, L. P. e KRASNER , L. (orgs). Case studies in behavior modification. Nova York: Holt, Rinehart and Winston, Inc. 


[i] Acadêmica do 10° período do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva  

[ii] Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

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