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EDIÇÃO 3

E3-24 O manejo da transferência: via de uma psicanálise

Dionne Maria Pinto de Carvalho[i]
Geraldo Majela Martins[ii] 

RESUMO
Este trabalho é uma apresentação de um caso clínico, acontecido durante o ano de 2010. O tema a ser abordado neste caso será a transferência, tendo como pano de fundo a irrupção da resistência, no decorrer do processo de tratamento. Os textos de Sigmund Freud serão os norteadores teóricos desta apresentação. 

Palavras-chave: Transferência, Resistência, Psicanálise, Clínica.

 

Este artigo é fruto de um Atendimento Clínico realizado na Clínica de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva – Estágio Supervisionado VII – Abordagem Psicanalítica II, no segundo semestre de 2010, sob a supervisão do Professor Geraldo Majela Martins. 

Iremos tratar do termo transferência a partir de um fragmento clínico, relacionando-o com as contribuições teóricas de Sigmund Freud, em torno de todo o processo analítico para demonstrar a relevância deste tema e o seu manejo no desenvolvimento da clínica. 

Patrícia Mendes procurou a clínica solicitando ajuda, pois se considera muito tímida e não sabe lidar com esse fato, pois se isola das pessoas porque não sabe o que falar com elas, julga não ter assuntos interessantes como os outros. Acreditava que o seu trabalho iria facilitar algo, mas aconteceu o contrário, trabalha com telemartking e isso colaborou mais ainda para se sentir isolada. 

No decorrer dos atendimentos, Patrícia se revela uma pessoa que sabe sim o que falar. E denuncia a falta de estrutura de sua casa. Muitas vezes ela fala que assume o papel de mãe. Pelo fato de Patrícia ser a única que está trabalhando em casa, ela assume a função de mantenedora da casa. E isso coloca o pai em uma posição inferior. 

O pai, os irmãos e o namorado são considerados, em vários momentos, como moleques. Patrícia considera-os imaturos e que levam a vida muito na brincadeira. Relaciona seu jeito mais sério com o jeito de sua mãe. 

Outra questão importante que Patrícia apresenta nas sessões é do seu desejo de casar-se. Ela gosta muito de descrever vários casamentos que frequenta, nos mínimos detalhes. Porém se mostra angustiada quando alguém a questiona sobre seu casamento. Muitas vezes, fala que quer casar, sair de casa, ter o seu próprio canto, onde poderá viver sossegada, livre dos problemas de sua casa. Alega que no momento não pode sair de casa, pois seus pais precisam de sua ajuda, e o outro motivo é porque o namorado está desempregado e não consegue juntar dinheiro para o casamento. 

Apesar de deixar explícito em várias sessões o desejo de se casar, ela, algumas vezes, questiona se isso irá acontecer realmente, e se seria o namorado o futuro marido, assume que gostaria que fosse, mas confessa que nada na sua vida sai do lugar, que seus colegas já se formaram, outros se casaram, e ela, até agora, não fez nada. 

Em outra sessão, Patrícia defende seu namorado, como também sua família, dizendo que sua relação amorosa dá muito certo, pois eles convivem muito bem. Em outro momento, ela também traz que sua família é muito unida e estruturada. 

Para elucidar todo este movimento na Clínica de Patrícia, utilizaremos o conceito de transferência de Sigmund Freud, em A dinâmica da transferência (1912), em que relaciona a transferência na análise como a resistência mais poderosa ao tratamento. 

Neste estudo, Freud (1912) descreve uma situação psicológica durante um tratamento:  

[…] a parte da libido que é capaz de se tornar consciente e se acha dirigida para a realidade é diminuída, e a parte que se dirige para longe da realidade e é inconsciente, e que, embora possa ainda alimentar as fantasias do indivíduo, pertence, todavia ao inconsciente, é proporcionalmente aumentada. A libido (inteiramente ou em parte) entrou num curso regressivo e reviveu as imagos infantis do indivíduo. O tratamento analítico então passa a segui-la; ele procura rastrear a libido, torná-la acessível à consciência e, enfim, útil à realidade. No ponto em que as investigações da análise deparam com a libido retirada em seu esconderijo, está fadado a irromper um combate; todas as forças que fizeram a libido regredir erguer-se-ão como “resistências” ao trabalho da análise, a fim de conservar o novo estado de coisas (FREUD, 1912, p.136-137). 

Para Freud (1912), a resistência acompanha o tratamento passo a passo. E a análise tem que lutar contra essas resistências, em cada associação isolada, em cada ato da pessoa em tratamento, em que há uma representação de forças que estão lutando no sentido de restabelecimento e as que lhe opõem.

Seguindo a teoria de Freud (1912), a resistência pode se fazer sentir tão claramente que a associação seguinte tem de levá-la em conta e aparecer como um conciliação entre suas exigências e as do trabalho de investigação. E é neste ponto que para Freud (1912) que a transferência entra em cena. Quando algo do processo complexivo se transfere para a figura do médico, a transferência é realizada e produz a associação seguinte e se anuncia por sinais de interrupção.

Freud, em seu texto Observações sobre o amor transferencial (novas recomendações sobre a técnica da psicanálise III), 1915, descreve uma reflexão sobre o amor transferencial. Como orientação, o analista deve-se manter atento quando surgir quaisquer demonstrações de afeto no atendimento. 

Freud (1915) nos explica que:

Para o médico, o fenômeno significa um esclarecimento valioso e uma advertência útil contra qualquer tendência a uma contratransferência que pode estar presente em sua própria mente. Ele deve reconhecer que o enamoramento da paciente é induzido pela situação analítica e não deve ser atribuído aos encantos de sua própria pessoa; de maneira que não tem nenhum motivo para orgulhar-se de tal ‘conquista’, como seria chamada fora da análise (FREUD, 1915, p. 209-210). 

Freud (1915) considera a transferência amorosa como um momento importante, pois trata de uma relação de amor, porém o analista tem que saber manejá-la. A paciente quando se sente envolvida pelo médico, ela pode tornar-se muito dócil, porém repentinamente ela perde toda a compreensão do tratamento e todo o interesse por ele. E é neste ponto em que pode constituir a expressão de resistência. 

Um evento deste tipo se repete inúmeras vezes no decorrer de uma análise. Segundo Freud (1912), repetidamente, quando nos aproximamos de um complexo patogênico, a parte desse complexo capaz de transferência é trazida para a consciência e defendida com grande obstinação. Isto não quer dizer que necessariamente este elemento selecionado para a resistência transferencial seja o único de especial importância patogênica. 

Quanto mais um tratamento analítico demora e mais claramente o paciente se dá conta de que as deformações do material patogênico não podem, por si próprias, oferecer qualquer proteção contra sua revelação, mais sistematicamente faz ele uso de um tipo de deformação que obviamente lhe concede as maiores vantagens – a deformação mediante a transferência. Essas circunstâncias tendem para uma situação na qual, finalmente, todo conflito tem de ser combatido na esfera da transferência (FREUD, 1912, p. 139). 

Assim, para Freud (1912), a transferência, na maioria das vezes, no processo analítico, é como a arma mais forte de resistência, e conclui-se que a intensidade e persistência da transferência constituem efeito e expressão de resistência. 

Tendo em vista toda a dinâmica deste processo de transferência, retornamos ao caso clínico de Patrícia. A paciente em questão encontra-se em um momento em que ela começa a abrir mão da queixa do outro, para se organizar a partir da relação amorosa. Assim ela começa a agir como estabilizador dos problemas apresentados e começa a contornar o que antes ela denunciava. 

Diante do exposto, podemos considerar que tudo que a paciente faz que pode interferir na continuação do tratamento é necessário uma atenção especial. Ou seja, uma escuta mais sensível, pois a paciente nos mostra o caminho para análise e quando aparece a resistência no processo, ela está nos mostrando que está lidando com algo da angústia, da pulsão de morte, e este momento é de suma importância para o analista, pois é no manejo desta transferência que possibilitará a entrada em análise. 

Nesses termos, Freud (1912) afirma que, no processo de procurar a libido que fugira do consciente da paciente, penetramos no reino do inconsciente. O médico tenta compelir a paciente a ajustar as pulsões emocionais ao nexo do tratamento e da história de sua vida, a submetê-las à consideração intelectual e a compreendê-las à luz de seu valor psíquico. 

Essa luta entre o médico e o paciente, entre a compreensão e a procura de ação, é travada nos fenômenos da transferência, e é nesse campo que a cura da neurose tem que ser conquistada.

 

REFERÊNCIAS 

FREUD, Sigmund. (1912). A dinâmica da transferência. In:______. O caso de Schreber, artigos sobre a técnica e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1969. p.131-143. (Edição standart brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 12) 

FREUD, Sigmund. (1912). Observações sobre o amor transferencial (novas recomendações sobre a técnica da psicanálise III). In:______. O caso de Schreber, artigos sobre a técnica e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1969. p.131-143. (Edição standart brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 12) 


[i] Acadêmica do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva. 

[ii] Professor supervisor de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva.

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