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EDIÇÃO 3

E3-02 Dependência Amorosa Feminina

 Adalgisa Kelly da Silva dos Reis[i]
Genilce Rodrigues Cunha[ii] 

RESUMO
Este artigo objetiva aprofundar e pensar em questões relacionadas à dependência amorosa, enquanto escolha do parceiro. Tal trabalho procura compreender as influências de ordem familiar e social, revelando os possíveis reflexos na hora de escolher o parceiro para se viver, ou seja, as influências sociais diante das escolhas como mulher.
 

Palavras-Chave: Família, Escolha, Parceiro, Mulher. 

 

Este artigo objetiva aprofundar e pensar em questões e relações situacionais na vivência e dependência da mulher em função do parceiro. A mulher tem vivido um processo de evolução, teve várias conquistas ao longo dos anos, porém, em alguns momentos, se mostra frágil, se anula, vive um processo de dependência em função do olhar do outro, ou seja, do seu parceiro. Observamos que a experiência proposta pelo Centro Universitário Newton Paiva, estágio VII, clínica sistêmica, nos auxiliou em estudos e reflexões baseados em atendimentos clínicos, nos quais parte da demanda que a cliente apresentava se dava pela escolha do parceiro. 

Para entendermos tal evolução e dependência, visualizamos a família como base para compreender o papel da mulher na sociedade e como a mesma se reconhece.  

É importante delinear a evolução do conceito de família no ocidente. “A família moderna ou burguesa desenvolveu-se a partir do século XV e XVI e, com mais vigor no século XVII” (ARIES, 1986, apud GOMES, 2006). O autor afirma que, no período anterior ao citado, não havia sentimento de família tal como na atualidade. O sentimento de família relacionava-se com a vida na casa e seus cuidados. Um maior valor era atribuído à linhagem, sendo essa a concepção de família existente em toda a idade média. Durante esse período, as trocas afetivas eram realizadas dentro da comunidade, cabendo à família, a conservação dos bens e a ajuda mútua para garantia da sobrevivência. 

Com o enfraquecimento dos laços de linhagem, a família burguesa torna-se “a célula social, a base dos estados, o fundamento do poder monárquico” (ARIES, 1986, apud GOMES, 2006, p. 20). Nesse sentido, foi atribuído à família burguesa o valor antes atribuído à linhagem. Paralelamente, há um gradual aumento de autoridade paterna, no que se refere ao casamento dos filhos. Principalmente entre a aristocracia, os casamentos eram arranjados pelos familiares e não tinham como motivador o amor: eram negócios de família. Também crescia a autoridade do marido, tornando mulheres e filhos cada vez mais submetidos. Assim, a partir do século XIV, observa-se uma gradativa e lenta degradação da mulher. “Esse movimento duplo, na medida em que o produto inconsciente e espontâneo do costume, manifesta sem dúvida uma mudança nos hábitos e nas condições sociais” (ARIES , 1986, apud, GOMES, 2006, p. 20). 

A partir da revolução industrial e do capitalismo, surge a família moderna, especialmente caracterizada pela separação entre o lar e o mercado de trabalho. O lar se torna um refúgio diante da competitividade inerente ao capitalismo. A partir do século XVII, a reforma dos costumes concomitante a uma reorganização da casa “deixaram um espaço maior para a intimidade, que foi preenchida por uma família reduzida aos pais e às crianças, da qual se excluíam os criados, os clientes e os amigos. (ARIÈS, 1986, apud GOMES, 2006, p. 20-21). 

Segundo Angelo (1995), a escolha do parceiro expressa um jogo extremamente sutil e sofisticado, em que a atenção culturalmente induzida para perceber elementos específicos de interesse no aspecto ou comportamento de determinada pessoa é acompanhada de uma “desatenção” igualmente seletiva por todos os elementos de seu caráter e do relacionamento com essa pessoa que poderiam tornar a relação problemática.  

Angelo (1995, p. 47) cita em sua obra que a escolha do parceiro se baseia então num jogo de “vazios” e “cheios” que permitem, justamente por meio de sua interação dinâmica, que o relacionamento prossiga e evolua, ou que, pelo contrário, seja interrompido. Neste último caso, às vezes, é justamente o trauma ligado a essa conclusão que se torna a premissa indispensável para uma contínua busca de reconstrução do relacionamento interrompido, sob forma de aspiração a alcançar o suposto “paraíso perdido”, identificado no “infeliz” vínculo realizado.  

Tal distanciamento perdido nos permite entender a importância das escolhas no percurso da vida, nesse caso, direcionado para a escolha do parceiro. Isso nos faz refletir e compreender como os aspectos históricos da vida pessoal e social de cada sujeito incorporam valores e funções transmitidos pelo mito – da história da família de origem suas modalidades de enfrentar os processos de união e separação entre seus vários membros. 

Se pudermos desfazer-nos da cortina de nevoeiro das tantas projeções que fazemos na vida e conseguirmos olhar verdadeiramente para o outro, veremos que ele, na sua individualidade terra-a-terra, é uma criatura maravilhosa. O problema é que, por serem muitas as pessoas e ficarmos cegos por nossas projeções, raramente podemos ver o outro claramente, em toda sua profundidade e nobreza. (JOHNSON, 1987, p. 42) 

Ângelo (1995, p.48) aborda que os conteúdos são estruturados de modo a promover a mencionada função seletiva sobre a atenção, na medida em que sugerem a que características dar atenção na escolha do parceiro, características essas que devem satisfazer as expectativas implícitas nos elementos do mito. 

Como mencionado na obra de Ângelo, (1995, p. 48), o mito familiar depende da sua força e riqueza: quanto mais “articulado” for, tanto maiores serão as possibilidades de desenvolvimento e escolha; quanto mais forte for um dos seus componentes, tanto mais predominará sobre os outros na busca de satisfação. Isso parece estar relacionado também com o grau de diferenciação alcançado pela pessoa e com sua capacidade de elaboração do mito: ou seja, com seu grau de autonomia e identificação e com a maneira como estruturou e resolveu seus vínculos com as figuras familiares mais significativas. Em geral, com o passar do tempo, a escolha de um parceiro se torna cada vez mais complicada e sujeita a maior número de exigências.  

Já em um segundo momento, Papp (2002, p.194) nos fala que todos os casamentos implicam a descoberta e a subsequente discussão sobre as diferenças; lidar com elas nos casamentos heterogêneos também requer a superação dos conflitos entre ambos os mundos. “Todo paraíso tem sua queda, todos eles têm algum tipo de serpente. É da natureza do paraíso que seu oposto apareça logo” (JOHNSON, 1987, p. 27). 

Segundo Papp (2002, p. 194), no mundo ocidental, o conceito moderno de casamento está baseado na ideia central de amor. De acordo com tal conceito, o matrimônio é o resultado de uma escolha livre. Trata-se de uma decisão individual feita pelo casal, a qual tem como objetivo promover a felicidade, a intimidade e autorealização de ambos. Em nosso mundo, o casamento implica a separação ou afrouxamento dos laços com a família ou com a tradição de origem.  

O outro é o mundo da origem – raça, religião, cultura e/ou nacionalidade, que traz consigo responsabilidades e lealdades coletivas diversas. Chamaremos esse mundo de “inter”. Esse mundo opõe-se fortemente ao caráter individual da ideologia moderna do amor. O “inter” é regido pelo conceito de uma rede de ligações em que cada individuo faz parte de uma história e de uma tradição familiar e nacional, vivendo essa lealdade comunal. O casamento não acontece apenas entre duas pessoas, mas também entre duas famílias. Nesse mundo, as necessidades da comunidade substituem as necessidades do indivíduo.  (PAPP, 2002, p.194).  

A escolha do parceiro, homem que acompanhará a mulher ao longo do percurso da vida, se dá em função dos traços de origem, desde o seu nascimento, acrescentado de fatores sociais ao longo do seu desenvolvimento, além de experiências vividas ao lado de pessoas próximas que influenciaram a sua formação, conforme exemplo citado, a família. 

… Algumas vezes, eles, de fato, atravessam as fronteiras; outras vezes, eles passam por essa transição na sala da própria casa. mergulhados em um mundo desconhecido, cada parceiro “turista” percebe todo o tipo de detalhes que as pessoas do lugar não notam ou não têm como certas…(PAPP, 2002,p. 194). 

Retratamos e buscamos compreender o quanto a sociedade influencia em nossas escolhas, assim como, também, as referências humanas, neste caso estudado, a família de origem ou quem cumpre este papel nesta importante instituição. 

A mulher, desde os primórdios, vem desenvolvendo seu papel, buscando ser independente, livre, protagonista de sua vida, embora aspectos sociais ponderem ou interfiram em sua vida, pessoal, social, além de refletir nas escolhas que a mesma faz, ao buscar o parceiro para conviver. 

Concluímos e observamos a importância de um aprofundamento no tema para que mulheres interessadas em compreender ou questionar suas escolhas consigam identificar, como foi construída essa identidade para optar por determinado parceiro.

 

REFERÊNCIAS                                                               

 JOHNSON, Robert A. She. A chave do entendimento da psicologia feminina. São Paulo: Mercuryo, 1987. 

JOHNSON, Robert A. He. A chave do entendimento da psicologia masculina. São Paulo: Mercuryo, 1987.

PAPP, Peggy; trad. Daniel Àngel Etcheverry Burguño. – Casais em perigo: novas diretrizes para terapeutas. Porto Alegre: Artmed, 2002. 

ANDOLFI, Maurizio; ANGELO Claúdio; SACCU, Carmine. Tradução Silvana Finzi Foá; O casal em crise. São Paulo: Sumus, 1995. 

ARIÈS, PHILIPE. O amor no casamento. In: BÉJIN, A.; ARIÈS, P. Sexualidades Ocidentais. Tradução Lygia Araújo Watanabe; Thereza Christina Ferreira Stummer. ed. 2 São Paulo: Brasiliense, 1986b, p. 153-162.  

GOMES, Junia Cristine. Dependência Amorosa Feminina. Belo Horizonte, 2006.


[i] Acadêmica do 10º período do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva  

[ii] Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

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