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EDIÇÃO 3

E3-03 Casa, casada e cansada, um deslizar de significantes para amar e trabalhar – entrevistas preliminares, a transferência e a entrada em análise

Não é a toa que Freud dizia que, um dos objetivos da análise da neurose é do sujeito poder amar e trabalhar.
Antonio Quinnet

 

Adriana Arcanjo Santarelli[i]
Prof. Geraldo Majela Martins[ii] 

RESUMO
Este artigo foi elaborado a partir do estágio supervisionado em clinica psicanalítica II, sob supervisão do professor Geraldo Martins, no I e II semestre do ano de 2010. O objetivo deste texto é o de articular conceitos da teoria psicanalítica com um atendimento clínico, tendo como foco principal uma neurótica, que demanda a cura ao analista. Abordaremos a importância das entrevistas preliminares, como principal instrumento de conhecimento estrutural, de aceitação do analista pelo analisando e a relevância das mesmas no estabelecimento da transferência para a conseguinte entrada em análise.   

Palavras-chave: Entrevistas preliminares, Neurose, Transferência, Entrada em análise. 

A sensação de insegurança e de incapacidade do graduando em psicologia, de conduzir atendimentos clínicos, sob as lentes da teoria da psicanálise, provoca angústia, mas também promove o posicionamento do mesmo como o sujeito que deve responder de um lugar, em que o saber é sempre suposto. A escuta do primeiro discurso revela a necessidade de uma prática que Freud chamou de Análise de Prova, a que Lacan mais tarde denominou Entrevistas Preliminares. A pessoa que vem procurar a análise como vetor de possível cura para seu sofrimento espera senão a extirpação imediata do que o causa, pelo menos, um alívio significativo do que se apresenta como sintoma.  

Na análise de prova, o que o analista tem que provar é se diante do discurso que lhe é apresentado, o setting analítico, e suas ferramentas de trabalho – transferência e associação livre poderão dar conta de reinventar uma psicanálise que se adéque àquele sujeito que a demanda, bem como, se há a disposição do analista em se doar como objeto e se tornar um ideal de eu, daquele que endereça uma queixa que lhe causa sofrimento. Este adiamento no processo de análise da queixa que demanda é também um tempo o qual J. A. Miller (1987) dirá que Freud e Lacan apontam como importante, para o diagnóstico da estrutura do analisando – neurótico, psicótico ou perverso – para uma melhor condução da psicanálise. Não se deve pensar nesta prática inicial como um momento de estigmatização do sujeito. Mas, como um momento em que o analista interpreta a autoavaliação que o analisando traz em seu discurso.

O analisando enunciará sua entrada em análise através de um chiste, um sonho, um ato falho, um esquecimento ou uma repetição de atos passados. Sendo este o chamado, ato analítico, uma comprovação simbólica da abertura do inconsciente e da instauração do analista como tal, através da transferência. Freud, no texto de 1922, afirma que a transferência positiva é o que dá assistência à compulsão, à repetição na “luta” desta última em superar o recalcamento. 

Segundo J.A.Miller, (1987), na transferência de repetição, o inconsciente usa de disfarces para representar seu desejo, neste caso, utilizando o analista como ator convidado à trama e, enviando, a este, uma mensagem que denuncia aquilo que a consciência teria rejeitado, se o inconsciente tivesse apresentado tal como deseja. Esta atualização, em ato, do recalque, no presente, o que às vezes ouvimos como retorno do recalcado, demonstra que o analista não ocupa mais para o analisando o papel de pessoa, mas de significante de identificação, colocado pelo próprio inconsciente em outra posição, a de um decifrador do sintoma. E foi com o ato da repetição que Sara[iii] anunciou sua entrada em análise. Nas sessões, repetia exaustivamente os significantes cansada, casa e casamento. Embora confessasse que não tinha muitas tarefas, Sara não entendia por que sempre se encontrava cansada.  

Sara é uma neurótica histérica, de 44 anos, mãe de um casal de filhos. Casou-se com Alberto, que se tornara alcoolista e logo passou da agressão verbal para a física. No terceiro ano do casamento, Sara manda Alberto embora, pois estava cansada de sofrer. Neste período, se percebe enamorada por Marcio, um amigo de Alberto. Mantém com ele uma relação mais intima e Marcio se oferece para assumir o romance e a família, mas Sara diz que teve medo de recomeçar e volta para Alberto, pois, com ele, ela já sabia lidar. Sara apresenta certa resistência em falar do passado, principalmente do que viveu com o marido, diz que falar é lembrar, e lembrar é sofrer por algo que já passou “Sofrer duas vezes”. Diz “o casamento esta bom, meus filhos cresceram, estão estudando, não me dão trabalho, meu marido não bebe mais e trabalha em uma oficina onde o salário é bom, embora não reconheça meu trabalho em casa, estamos melhor, o sexo com ele é bom, tudo esta como deveria estar, já te disse não é dotora que eu gosto de comodidade”. 

Freud (1914), no texto “Recordar, repetir e elaborar”, explica que o recordar e o repetir são regulados pelas resistências, mas que esse é um movimento necessário para que determinados conteúdos sejam elaborados, possibilitando o aparecimento de outros. Sara diz que, em dois outros momentos, se envolveu em relações amorosas que não passaram do flerte e dos beijos e abraços, embora em um deles tenha se sentido bem “balançada”, nunca foi mais além, por medo de grandes mudanças em sua vida, diz preferir a comodidade, do que já lhe é conhecido, e por isso não larga o marido.  

Sara reclama muito de ter que cuidar de uma tia idosa, “no começo eu gostava, mas depois começou a ficar cansativo”. A relação com a tia demanda muito tempo e atenção, uma modificação constante na rotina da família. Um dia, a tia foi levada para casa de parentes e Sara denunciava em seu discurso o alivio por tê-la distante. 

Sara ficou irritada quando soube da interrupção do tratamento, devido às férias escolares de julho, dizendo ser um espaço de tempo muito grande. Na primeira semana de agosto, em contato telefônico, Sara diz que está trabalhando fora e que gostaria de retomar o tratamento. Durante as sessões, Sara se apresenta feliz e fala sobre a empresa e os colegas de trabalho, diz não se sentir mais cansada. Seus sintomas desapareceram e ela está bem. Começa a apontar que tem sido difícil perceber que estava perdendo seu tempo de descanso, em sábados tão bonitos, para falar do passado. Uma série de assuntos trabalhados nos meses anteriores começou a ser reeditada, por assim dizer, pois agora Sara os nomeava e se implicava neles. Conta que está flertando com um colega de trabalho mais novo que ela e se senti bem em saber que ainda provoca interesse, principalmente por ele ser um homem mais jovem. Sara pensa em retomar os estudos e a voltar a cantar no coral. Fala que se sente bem e que tem dado conta de perceber seus problemas e de se a ver com eles sem sentir os “sintomas”. Percebo que Sara está se “cansando” de nossa relação e resistindo, faço uma intervenção perguntando se ela quer se livrar de mim. Sara se mostra embaraçada e diz que sabe da importância da continuidade do tratamento e da analista em sua vida, mas que tem sido sacrificante se abster de tempo que poderia gastar consigo e sua família. Proponho uma situação problema, para que esta pudesse refletir sobre a desistência do tratamento. Sara fala de sua percepção sobre ainda não estar completamente curada, ainda não se sente como era antes de seu diagnóstico. Agradece meu acolhimento e atribui à analista a melhora por ela percebida.  

Outra vantagem ainda da transferência é que, nela, o paciente produz perante nós, com clareza plástica, uma parte importante da história de sua vida, da qual, de outra maneira, ter-nos-ia provavelmente fornecido apenas um relato insuficiente. Ele a representa diante de nós, por assim dizer, em vez de apenas contar (MILLER,1997,p. 203). 

O processo da análise havia chegado a um estágio que colocava em discussão o posicionamento de Sara diante do mundo. É possível dizer que, de alguma forma, a necessidade de mudança foi percebida, mas não “aceita”. Mudar o estado de coisas, de sua comodidade, seria abrir mão de vários ganhos secundários que estava tendo com sua postura passiva e impotente; por isso, a resistência se fez necessária. Freud (1912), no texto “A dinâmica da transferência”, diz da resistência como sendo outra forma da transferência, podendo ocorrer para manter o estado de coisas, que foi o caso de Sara, ou porque conteúdos inconscientes se tornam vulneráveis, podendo se tornar conscientes, o que é inaceitável pela consciência. No processo analítico ocorre a introversão, isto é, a parte da libido que é direcionada à realidade, capaz de se tornar consciente, é diminuída, retornando ao eu e aumentando aquela relacionada ao inconsciente. Nesse processo, a libido regride  pontos de fixação infantis; o analista busca rastrear a libido, tornando-o consciente e útil à realidade.  

No ponto em que as investigações da análise deparam com a libido retirada em seu esconderijo, está fadado a irromper um combate; todas as forças que fizeram a libido regredir se erguerão como resistências ao trabalho da análise, a fim de conservar o novo estado de coisas. […] Mas as resistências oriundas desta fonte não são as únicas, ou, em verdade, as mais poderosas. A libido à disposição da personalidade do indivíduo esteve sempre sob a influência da atração de seus complexos inconscientes (ou mais corretamente, das partes desses complexos pertencentes ao inconsciente) e encontrou um curso regressivo devido ao fato de a atração da realidade haver diminuído. A fim de liberá-la, esta atração inconsciente tem de ser superada, isto é, o recalque das pulsões inconscientes e de suas produções, que entrementes se estabeleceu no indivíduo, deve ser removida (FREUD, 1912/1969, p.114). 

Nas duas marcações posteriores, Sara não compareceu. Sara anuncia que aquilo que antes lhe servia e lhe causava certo prazer começa a lhe ser cansativo, referindo-se ao tempo demandado nas sessões analíticas, e que, portanto, haverá um corte na relação com a analista. Nossa relação é interrompida para não provocar mudanças. Como em sua relação com Márcio e os outros homens com os quais namorou e que foram descartados tão logo se apresentava a Sara o momento de escolha entre o certo e o duvidoso. Como com a tia idosa, que a principio lhe conferia um prazer de se sentir útil e valorizada, mas que, aos poucos, se tornou carga pesada de cansaço e que foi imposta a cuidados de outrem. Sara tira de cena tudo e todos que só serviram para tamponar o enorme buraco da falta que se lhe apresentava, e que ela, como boa histérica, tem consciência de sua existência, mas resiste em se a ver com a responsabilização que uma implicação própria (retificação subjetiva ou em Lacan Histerização), nas consequências que se apresentam e a confrontam. Sara busca na repetição a atualização de seu sintoma e uma forma de resignificação do desejo.  

O deslizar dos significantes cansada, casa e casada, que têm em comum o prefixo casa e que Sara sempre utilizou em seu discurso, denuncia um descontentamento da mesma para com as tarefas, cansativas, de casa e o não reconhecimento, como boa esposa, pelo marido, logo, de sua condição de casada. Sara busca na relação com outros parceiros a ajuda de se perceber como mulher desejada. A análise promove um movimento no qual Sara, na conquista de seu trabalho em uma empresa, onde tem um reconhecimento, se permiti voltar a amar – um jovem homem. E voltar a trabalhar – nos estudos e a amar a música. Desta maneira me contento em saber que Sara deu conta de atualizar seu sintoma e com um mínimo de retificação subjetiva, partiu, após breve análise de sua neurose, dando conta de trabalhar e amar.

 

REFERÊNCIAS

A repetição na teoria de Freud: o retorno do recalcado e a compulsão à repetição.  Disponível em: http://opus.grude.ufmg.br/opus/opusanexos.nsf/. Acesso em: 28 nov. 2010. 

FREUD, S. A dinâmica da transferência (1912). In:______ O caso Schereber, artigos sobre técnicas e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1969. p.109 – 111. 

FREUD, S. Recordar, repetir e elaborar (1914). In:______ O caso Schereber, artigos sobre técnicas e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1969.  p.109-111. 

LACAN, Jacques. – mais, ainda. In ______. O Seminário – livro 20. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p. 121-135. 

LACAN, Jacques. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. In:______. O Seminario – livro 11. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p 55 a 65. 

MILLER, Jacques-Alain. A transferência de Freud a Lacan. In:______. O percurso de Lacan – uma introdução. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1987. p. 55-71  

MILLER, Jacques-Alain. O método psicanalítico. In:______. Lacan Elucidado. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997. cap. 3, p. 220 a 261. 

MILLER, Jacques-Alain. O sujeito suposto saber. In:______. O percurso de Lacan – uma introdução. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1987. p. 55-71.  

NASIO, J. D. Cinco Lições sobre a teoria de Jacques Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993. 

QUINET, Antonio. As 4+1 Condições da Análise. Rio de Janeiro. Jorge Zahar: 2000. p. 7-34.  


[i] Acadêmica do curso de psicologia do Centro Universitário Newton Paiva em 2010.  

[ii] Professor supervisor do curso de psicologia do Centro Universitário Newton Paiva. 

[iii] Todos os nomes, do relato do caso, são fictícios criados apenas, para melhor compreensão do leitor.

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