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EDIÇÃO 3

E3-04 O desejo da Histérica

 

Ana Rafaela Pinheiro Brasil[i]
Geraldo Majela Martins[ii] 

RESUMO
Com este artigo objetivamos  pontuar o lugar do desejo na histeria. Utilizaremos com este intuito um fragmento de caso clínico, no qual a paciente demarca este desejo, um desejo sempre insatisfeito. 

Palavras-chave: Histeria, Desejo, Insatisfação. 

 

INTRODUÇÃO 

Este artigo é um trabalho de conclusão do estágio VII, supervisionado pelo professor Geraldo Majela Martins. Objetiva-se com este artigo trabalhar o lugar do desejo na clínica da histérica.  

Renata é uma paciente de 37 anos, que recorre à clínica de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva com a queixa inicial de se sentir deprimida após a traição de seu marido no início desse ano. A paciente diz ter ouvido uma ligação entre o marido e a suposta amante, e depois, ao indagá-lo sobre o ocorrido, o marido assumiu a traição, mas diz ter se arrependido. 

Após esse fato, o relacionamento, que até então era tranquilo, segundo a própria paciente, se transformou. Ela passou a desconfiar de todas as atitudes do marido, invadindo também sua privacidade ao vigiar suas ligações. Renata conta que durante algum tempo ficou fixada na ideia de descobrir quem era a amante, mesmo considerando que ela não seja em nada melhor que ela. A paciente diz não ser perfeita, pois, como todos, ela tem defeitos, mas acha que para seu marido não existe mulher melhor que ela.

Nas primeiras sessões, a paciente deixa claro que não entende como as situações chegaram a esse nível, já que ela e seu marido levavam uma vida relativamente tranquila. Na época do acontecido, ela diz ter pensado em se separar, mas que logo negou essa idéia, pois não iria voltar para a casa dos pais. Optou por continuar com o marido, porque, segundo a paciente, o marido a ama. Mesmo considerando que são muito diferentes em alguns sentidos, diz que não conseguem ficar um longe do outro. 

Renata pontua que eles estão casados, mas não são companheiros. Por terem gostos diferentes, um não acompanha o outro em certos eventos. Ela admite que o marido tem feito muito esforço para tentar acompanhá-la, mostra interesse em estar com ela, porém é ela que, por vezes, afasta o marido de suas atividades. Ela, por sua vez, que tanto reclama da falta de companheirismo, não acompanha o marido nas atividades em que ele requisita sua presença. O que fica marcado na fala de Renata sobre este assunto é que ela, ao mesmo tempo em que vê a necessidade de estar mais presente na vida do marido, não faz nenhum esforço em direção a este, como também não da espaço para que ele se insira nas atividades que ela costuma fazer. 

A paciente em suas falas mostra que se sente frustrada por pensar uma coisa, mas agir de forma diferente. Diz que “quando percebo, eu já falei o que não devia, ou deixar de fazer uma coisa que no fundo sabia que devia ter feito” (sic). Pode-se citar como exemplo dessa fala, o fato de Renata não acompanhar o marido em churrascos e campeonatos, para os quais ele solicita a sua companhia. Renata diz que deixa de ir, primeiro por não gostar do ambiente que o marido frequenta e que vai contra suas crenças, e segundo por desconfiar que uma vizinha deles seja a suposta amante do marido. Ela deixa de sair com o marido, mas depois se arrepende por não ter ido e diz que pode ser tudo fruto de sua imaginação. 

Temos a hipótese de se tratar de um caso de histeria, pois, como sabemos, a histérica sempre fala em sua relação como sendo triangular, não consiste somente entre ela e o marido, mas também existe uma outra mulher em cena e, no caso da paciente, é a amante do marido que ocupa este lugar. 

Colete Soller (2006) afirma que a histérica reconhece que é um sujeito falta-a-ser, mas que ela se considera como sendo o que possa ser o que falta ao Outro, e no caso da paciente que citamos, esse Outro seria o marido. O lugar que ela ocupa então é o de complemento do desejo masculino, já que ela identifica-se com o desejo do Outro. 

A paciente, ao afirmar que sabe que não é perfeita, mostra esse posicionamento histérico de reconhecer que é um sujeito falta-a-ser, mas a paciente se coloca na posição de objeto de completude de seu marido, e podemos afirmar este seu posicionamento, quando ela diz que o marido nunca vai encontrar uma mulher assim como ela, que é boa mãe, esposa e dona de casa. 

O que define a histérica é a vontade que ela tem, inconsciente, de deixar o gozo insatisfeito. A relação da histérica com o desejo, como sendo o de mantê-lo sempre insatisfeito, pode ser percebido no caso clínico quando a paciente diz que não faz certas coisas, como acompanhar o marido aos campeonatos dos quais ele participa e ir a festas, mas depois se arrepende e fica se perguntando por que não fui?

Segundo Colete Soller (2006), “recusar-se aquilo que se diz querer, já aponta um desejo”. Renata, ao se recusar a sair com o marido para bares ou outros lugares em que a vizinha possa estar, indica que a paciente queria manter seu desejo de insatisfação. Não se encontrando com a vizinha, ela permanece com a dúvida se ela era ou não amante de seu marido. Este comportamento da paciente evidencia que a histeria preserva o desejo insatisfeito, a falta, que é o que a sustenta. Ela goza na falta, mesmo que para isso tenha que pagar o preço do desprazer de um desejo não satisfeito. 

A relação da histérica com seu conjugue é marcada por uma estratégia de subtração por parte dela, o movimento de sedução e recusa. Renata diz, durante as sessões, que quer participar mais da vida do marido, ser mais companheira, porém quando surgem as oportunidades para que ela saia com ele, ela recua. Ela mesma diz que inventa desculpas e tenta enrolar (sic) o marido de qualquer forma, mas que depois sente-se frustrada, pensando que poderia ter agido de forma diferente, mas não sabe o porquê de fazer o que faz.

Segundo Nasio (1991), a histérica impõe na relação afetiva com o outro a lógica doentia de sua fantasia inconsciente. Uma fantasia em que a histérica desempenha o papel de vítima infeliz e insatisfeita. Pode-se confirmar isso quando a paciente diz ficar vigiando o marido, achando que ele pode estar com outra pessoa, e quando ele chega em casa, fica sem conversar com ele, julgando que tenha feito algo errado, mesmo que todos os indícios apontem o contrário. 

Mas porque do desejo de vivenciar constantemente a insatisfação? Nasio (1991) nos explica que como a histérica é um ser de medo, para atenuar sua angústia, ela não encontra outra forma senão manter em suas fantasias e em sua vida, o estado de insatisfação, mesmo que seja doloroso. Esse medo que o sujeito histérico experimenta é nada menos que o medo de vivenciar a satisfação de um gozo máximo. 

Para manter essa ameaça de um gozo pleno e temido afastado de si, o que a histérica faz é criar, mesmo que inconscientemente, um cenário em sua fantasia para provar para si e para os outros que só existe o gozo insatisfeito. Para manter essa insatisfação, esse descontentamento, a histérica coloca o Outro como sendo sempre decepcionante em relação as suas expectativas. O que a paciente Renata faz é colocar o seu marido nessa posição de Outro, que por mais que tente sempre a frustra. Ela detecta toda e qualquer falha no marido, o menor sinal que for de fraqueza, criando e inventando o que percebe. 

Durante as sessões, Renata dizia que o marido era um homem bom, que não tinha vício com bebida  nem cigarro, colocava comida dentro de casa, porém, mesmo que ele fosse “bom” por um lado, por outro ele tinha vício em jogar sinuca. Renata pontua que, por vezes, esquece o que ele tem de bom para assinalar para ele e para os outros sobre suas falhas. Nasio (1991) assinala que o desejo histérico é o de localizar o ponto de insatisfação de uma mulher em relação ao homem amado. 


CONCLUSÃO 

Podemos concluir, a partir das considerações feitas acerca do fragmento clínico, que a paciente nunca se permiti satisfazer seu desejo, fica sempre insatisfeito, caracterizando-se assim dentro da clínica das histéricas.

 

REFERÊNCIAS

SOLER, Colette. O que Lacan dizia das mulheres. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006. 245 p. 

NASIO, Juan David. A histeria: Teoria e clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1991. 172 p. 


[i] Acadêmica do 10° período do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 2010. 

[ii] Professor Supervisor de Estágio do Centro Universitário Newton Paiva 2010.

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