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EDIÇÃO 3

E3-05 Gabrielle uma mulher?

André Fernando Gil Alcon Cabral[i]
Geraldo Majela Martins[ii] 

RESUMO
Este escrito objetiva correlacionar o feminino no filme Coco avant Chanel, sob uma perspectiva psicanalítica. Enunciam-se as construções teóricas elaboradas por Freud e Lacan, juntamente às suas considerações sobre a mulher antropológica. Aborda-se a não subversão da mulher ao gozo em sua complementaridade fálica, elucidando a suplementaridade no feminino.  

Palavras-chave: Feminino, Coco-Chanel, Gozo, Mulher.

 

Neste escrito, pretende-se abordar o filme Coco Chanel, sob o olhar da psicanálise, partindo-se de uma concepção freudiana sobre o feminino, até os escritos lacanianos sobre o gozo suplementar. 

Coco avant Chanel é uma produção francesa, dirigida por Anne Fontaine, do ano de 2009. O filme é baseado no livro de Edmond Charles-Roux e retrata a história da personagem Gabrielle, também conhecida como Coco. 

Gabrielle passa parte da infância e puberdade juntamente com sua Irmã em um orfanato dirigido por freiras. Seu pai, após deixá-las, nunca mais retornará para vê-las.  

A cena inicial do filme demonstra a observação de Coco pelo chapéu das freiras, em sua exoticidade e estranheza. Talvez o que possibilitou a Coco sua grande geniosidade com tais ornamentações.  

Em sua vida adulta, canta e encena em um bar de uma pequena província francesa, onde conhece Étienne Balsen, porta de entrada para a la haute société. Coco desejava o teatro parisiense, renegando sua habilidade com a moda, o que leva a personagem a tentativas frustradas em teatros e restaurantes.  

Gabrielle muda-se temporariamente para a fazenda de Balsen, nos arredores de Paris, onde conhece o inglês Arthur Capel, conhecido como Boy. Coco terá um romance com o inglês, que, apesar de se casar com outra mulher, incentivará Gabrielle a abrir seu negócio na moda parisiense, ajudando-a a custear os investimentos.

Gabrielle continuará seu romance com Boy até o momento em que o empresário inglês falece tragicamente. Coco, com sua confecção em Paris, torna-se uma das grandes designers francesas e do mundo. 

O feminino traz aos leitores particularidades que em nada se referem à vestimenta, status, beleza ou ornamentos “carnavalescos”, como descritos pela personagem Coco.  

De acordo com Kaufmann (1996), diante da falta da mãe, a criança é colocada por essa como objeto a complementá-la.  Com a chegada do pai – intervenção da lei- libera-se a criança de sua permanência como objeto de gozo deste Outro. Assim, a menina, diferentemente do menino, não apresenta qualquer objeto viril. Diante dessa falta de virilidade, a menina se faz amar pelo pai, tentativa de receber dele a falta. 

Soler (2005), em sua leitura freudiana, descreve que a mulher-mulher é aquela a esperar sua restituição fálica pelo parceiro. O filho é endereçado a ela pelo homem, mas sem que ela se autoproporcione. O feminino consiste em dizer obrigado a restituição do objeto concedido. 

Lacan refere-se à mulher feminina como aquela a incorporar, diante a ausência do pênis, o falo simbólico para o homem, ocupando o lugar de significação da castração de seu parceiro. Diante a ausência de desejo, existe a possibilidade para o homem ou para a mulher existir enquanto objeto a se acoplar diante ao desejo do Outro.  

Balsen elege Coco como objeto de desejo, mas não a elege como objeto causa de desejo. Obviamente, Coco permanece com traços que lembram a esse resto de gozo, mas não se torna objeto a, em que se acoplaria a tentativa de mais gozar. O medo de Balsen em perdê-la em nada aponta para a perda de sua causa, mas para a perda de um objeto, que a castração da realidade lhe impõe.

A pronúncia de Coco a Irmã situou-se com “a única coisa interessante no amor é fazer amor”, prosseguindo “pena que para isto se precise de um homem”. Esse fragmento traz a perversidade do desejo na qual o amor silencia. De acordo com Valas (2001), o desejo visa o outro enquanto objeto para sua satisfação, enquanto o amor vela o escândalo de tal perversidade. O desejo foraclui o sujeito da relação, enquanto o amor o mascara. 

A personagem Coco menciona: “sempre soube que não seria a mulher de ninguém”. Esse fragmento retira a possibilidade do feminino em Coco, como objeto causa de desejo. 

Gabrielle recusa o pedido de casamento ofertado por Balsen, insurgindo-se contra todos os significantes fálicos oferecidos pela cultura. Como mulher visionária, Coco demonstra que a mulher está para além da castração simbólica, porém, mesmo que em sua renúncia, Gabrielle permanece fora do feminino. 

Coco inovadoramente veste-se de homem, como aquela a dizer de um semblante que não pretende. Menciona, por vezes, todas as jóias que a donzela utiliza em sua ornamentação a provar-se desejada pelo outro. Corta o espartilho que sufoca para que o ar entre mesmo que obscurecido sobre a falta de sedução. Coco renuncia ao semblante feminino, mas não a feminilidade, “melhor ser amante que esposa”. 

Em um fragmento retirado do filme, demonstra-se a encenação em um teatro, em que a atriz, amiga de Coco, anuncia: “tenho um amante com habilidades de marido”. Amante é correlato ao desejo de um homem por uma mulher, capaz de tornar a mulher cívica em uma mulher feminina. Marido reúne as significações fálicas de um reconhecimento prevalecente em uma época sócio-histórica.   

Ao dizer da idiotice da mãe por ter se casado por amor, Coco refere-se às traições de seu pai. A personagem traz em questão o não desejo do pai pela mãe, a não eleição desta mulher ao status de objeto de gozo. A não transmissão da habilidade com a feminilidade é o que está em questão. 

A possibilidade do feminino para Gabrielle encontra-se em ser amante, em uma identificação com as mulheres de seu pai. A mãe enquanto esposa em nada aponta para esse continente negro. 

Para Soler (2005), a mulher antropológica não existe como mulher de desejo, essa é sempre falicisada, ou seja, que atende ao desejo do outro, como ser uma boa esposa, comportando-se ao desejo social com suas convenções. Eis a feminilidade, como aquela que deve mover o sujeito a seu próprio desejo. 

A máscara da sedução, semblante da relação dos sexos, segundo Soler (2005), somente terá seu desfecho no ato da cópula. Lacan corrobora Soler ao citar a não existência da relação sexual. 

A incompatibilidade entre o gozo fálico e o gozo suplementar demonstra a não existência da relação sexual, apontando para a satisfação individual, na qual cada parte da cópula goza em sua subjetividade. Para Valas (2001), a mulher contém um gozo dual, sendo o fálico complementar ao do homem, e o Outro gozo, suplementar, estando mais-além do falo.  

Para Valas (2001), o gozo fálico permiti-se a partir da cifragem do gozo corporal, pelo significante fálico pós-castração simbólica. O gozo fálico ligado à linguagem se manifesta pela satisfação verbal. A nível erótico está localizado no pênis e no clitóris, existindo para a mulher a possibilidade de um Outro gozo, que nada se refere à vagina. 

Para Soler (2005), o gozo fálico não se encontra somente no nível erótico, mas segundo a autora, presentifica-se nas realizações do sujeito correlato as satisfações capitalizáveis.   Ainda que pelo bordear deste gozo, prevalecem somente significantes capazes de enunciá-lo mantendo seu caráter inefável. 

Balsen, ao oferecer seu cavalo de maior estima para Coco, oferta-lhe a possibilidade de gozar falicamente, em uma organização pelos significantes do ter. Coco recusa, expressando-se contrariamente ao desejo social, consistindo para ela, algo além das considerações capitalizáveis, além deste gozo no qual o homem está acometido.  

Gabrielle, ao trocar o vestido presenteado por Balsen por uma de suas criações, escuta do mesmo “que pena, quase parecia uma mulher”.  Rispidamente, Coco dirigi-se a Balsen mencionando “vão achar que não lhe custo caro”. Esta é a lógica deste gozo cultural presente até os dias atuais. 

De acordo com Soler (2005), citando Lacan, a mulher é uma invenção da cultura, tendo como resultante de seus símbolos e imagens a metáfora fálica. Uma cultura organizadora e organizada pelos significantes do Outro, que após a cifragem do gozo pela lógica fálica, permanecem em condensação neuróticas de ter e ser. O gozo fálico é aquela que a castração deixa ao ser falante.  

A música cantada por Coco remete a este significante que se acopla ao sujeito como pontuado por Boy “o ruim dos apelidos é que eles não nos deixam mais”. O significante “Coco”, concedido por seu pai carinhosamente, desloca-se em sua representação, no qual coco não mais se refere ao som emitido por seu pai ao acordá-la. Este significante desliza para a representação de um cachorro, significado de esposa.  

O significante “Coco” está em identificação com sua mãe, enquanto o significado está para esposa. Coco renuncia ao pedido de Balsen para se tornar esposa, e aceita a causa de Boy em ser amante. Gabrielle insurge contra a posição de mãe, e torna-se as “mulheres” de seu pai. 

Gabrielle é chamada por Balsen através de sua música, neste lugar de cão fiel, que entretém em seu trocadero. A jovem mesmo que em insurgência “estou farta de entreter estes degenerados”, carrega o significante “Coco”. Cachorro fiel capaz de entreter Balsen. 

A música cantada no salão da casa de Balsen, em um de seus fragmentos, se refere a “alguém viu Coco?”. Momento que todas no salão divertiam-se ignorando e colocando Coco na posição de dejeto. Coco não se viu, somente se ouviu. 

Gabrielle quando criança foi abandonada por seu pai em um convento, aguardando a chegada deste todos os domingos. Diante ao não desejo do pai, Coco não se faz desejar, como também a amar a homem algum.  

Na última cena, do desfile realizado por Coco, ela está sentada às escadas enquanto seu rosto perde as cores em uma cena monocromática. Coco obscurecida, com um sorriso pálido, permanece a observar seu feito, com o vazio sobre o feminino. Nesta cena, confirma-se a fala de sua amiga no cabaré, “quer algo, mas não sabe o quê”. 

Convocada ao lugar de objeto na relação sexuada com o outro, a mulher não o aceita ou fantasia que não o é, pois ser o falo é ser objeto e ser objeto é não ser sujeito de desejo. Com tais afirmações, ainda permanecem a questão sobre o que realmente deseja uma mulher. 

 

REFERÊNCIAS 

COCO AVANT CHANEL. Direção: Anne Fontaine. Intérpretes: Audrey Tautou; Benoit Poelvoorde, Alessandro Nivola. Roteiro:.Anne Fontaine. Warner Bros/ Haut et Court. 2009. I DVD(105min.), son.,color.,legendado. 

KAUFMANN, Pierre. Dicionário enciclopédico de psicanálise: o legado de Freud e Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996. 

SOLER, Colette. O que Lacan dizia das mulheres. Rio Janeiro: Zahar. 2005. 

VARGAS, Patrick. As dimensões do gozo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. 


[i] Acadêmico do 10º período do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva.

[ii] Psicanalista e Professor do Curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva.

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