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EDIÇÃO 3

E3-06 A construção da autenticidade do cliente no processo psicoterapêutico

A tarefa terapêutica está na relação de cuidar.
Cuidar é acompanhar, é estar junto, é receber.
 É estar aberto à pessoa. – Pokladek

 André Gil Vianna[i]
Raquel Neto Alves[ii] 

RESUMO
Este trabalho tem a intenção de debater sobre a temática da liberdade à luz da fenomenologia-existencial. Poderemos ver que a liberdade é aprendida quando o cliente interage com o meio, se auto-observando e se implicando no processo psicoterapêutico.  

Palavras-chave: Liberdade, autenticidade, Clínica psicológica. 

 

INTRODUÇÃO

O ser humano traz em si possibilidades de transformação, pois é o único ser que tem a autoconsciência, que é a capacidade de distinguir entre o “eu” e o mundo.  

Somente os seres humanos têm a capacidade de aprender com o passado e planejar o futuro, ou seja, é capaz de sair de si mesmo e contemplar a sua historia, influenciando assim seu desenvolvimento como pessoa e, em menor extensão, a marcha de acontecimentos em seu país e na sociedade como um todo (MAY, 1987, p.70-71).

Com essa condição inerente a cada ser humano, é possível uma transformação da realidade vivida. 

Os atendimentos na clínica buscam resgatar a possibilidade do ser humano de transformação. Buscam fazer crescer os possíveis de cada um, deixando bem claro que o processo de transformação é do cliente. O terapeuta é somente um agente facilitador neste processo. A clínica psicológica propicia ao cliente um aumento na possibilidade de transformação, de autoconhecimento, e, consequentemente, o exercício de sua liberdade, propiciando ao cliente ser mais autêntico. 

O eixo que norteia as ações na clínica, no estágio VII escolhido pelo estagiário, é o fenomenológico-existencial. O Existencialismo, como Filosofia, tem suas origens em Kierkegaard, e pode ser entendida como uma doutrina antirracionalista, que tende a desprezar o discurso especulativo da metafísica e o raciocínio frio das ciências positivas. 

O que pode ser observado nos atendimentos com a cliente, desde o início do processo, é sua dependência em relação à família e a insegurança em se expor nas mais variadas situações do seu cotidiano. Nos atendimentos, ela relata sua vontade de conseguir fazer o que deseja e dizer o que sente sem estar presa ao que o outro vai pensar dela. Se sente aprisionada e quer estar livre para fazer o que realmente deseja.

Diante de tais relatos e da necessidade da cliente em lidar com a angústia e responsabilidade por suas escolhas e assim tornar-se mais autêntica, vamos definir o que é liberdade.  

Liberdade é uma palavra usada amplamente no cotidiano. No senso comum, significa ausência de dificuldades ou fronteiras que possam impedir algo, seja algo que se gostaria de fazer ou aquilo que se pensa em relação a alguma coisa. O dicionário online de português traz as seguintes definições: “1 Faculdade de fazer ou de não fazer qualquer coisa, de escolher, Independência; 2 Poder de exercer livremente a sua vontade; 3 Liberdade de opinião, de pensar, direito de exprimir cada um seus pensamentos, suas convicções.

A liberdade também é vista como consciência para dar opiniões religiosas, as quais a pessoa considera verdadeiras, está relacionado ao direito de manifestação de opiniões políticas. Borges (2009, p. 15) afirma que essas “concepções de liberdade estão voltadas à manifestação sem impedimentos, e sem que exista punição. Diz-se que uma escolha é livre, quando não houve influência ou coação de outrem”.  

Na Filosofia Sartreana, o conceito de liberdade está relacionado à liberdade da pessoa, que, por sua vez, é livre quando tem consciência para escolher, ou seja, intencional. Mas uma observação deve ser feita, não há liberdade comum a todos, pois não há uma essência da liberdade, cada um tem suas possibilidades. 

Certamente, eu não poderia descrever uma liberdade que fosse comum ao outro e a mim; não poderia, pois, considerar uma essência de liberdade. Ao contrário, a liberdade é fundamento de todas as essências, posto que o homem desvela as essências intramundanas a transcender o mundo, rumo às suas possibilidades próximas. (SARTRE, 1999, p. 542) 

Podemos concluir, então, que o homem só o é pela sua condição de ser livre. Ao afirmar suas escolhas livremente, ele se faz, e, consequentemente, o homem é produto de sua liberdade, pois é na ação livre que o homem escolhe seu ser, que se constrói como indivíduo. “A verdadeira liberdade não é a liberdade de obtenção, mas a liberdade de eleição” (PERDIGÃO, 1995, p. 89). 

A cliente, no seu processo, começou a interrogar suas implicações no que ocorria em sua vida, não mais se preocupava em simplesmente fazer o que quer, sem levar em consideração o outro; após três anos, ela relata que as suas escolhas e o que ocorre em sua vida é de sua responsabilidade. 

A escolha em Sartre é importante para se entender a liberdade, pois essa gera no ser uma angústia, pois a escolha revela para o ser a liberdade, ou seja, desvela ao Ser que não pode vivenciar tudo o que é possível, revela então ao Ser, o sentimento de ambiguidade que o assola, pois esse antecede qualquer escolha. O que pode ser observado nos atendimentos é que a cliente avança no processo, se implica e faz suas escolhas, conseguindo se colocar. A angústia, ao mesmo tempo que impulsiona o Ser para atualizar-se, o paralisa quando se vê de frente a responsabilidade das escolhas. Pode-se escolher mal em liberdade, e com isso pode advir o remorso e o arrependimento. A angústia então surge como sentimento inerente ao existente diante das possibilidades históricas que se abrem para cada um em sua existência concreta. 

Entretanto, se a angústia decorre a descoberta individual da liberdade plena, ela só pode ser como salienta Sartre, fenômeno “raro”. Isso porque essa liberdade só é descoberta reflexivamente, quando, engajado no mundo, em vez de realizar meus possíveis (se se quiser, meus fins ou meu futuro), eu os apreendo como meus. (MOUTINHO, 1995, p. 76) 

Percebe-se que a angústia é um tema importante no Existencialismo. Ela não é vista como um sintoma que deve ser eliminado, mas sim como a marcação de um limite que sinaliza, no instante que ela aparece, a possibilidade de mudança. 

Pode-se dizer que a responsabilidade é que o Para-si assume as consequências da escolha, é uma condição do Ser, assim como a liberdade. Sartre (1997) atesta que: “é insensato pensar em queixar-se, pois nada alheio determinou aquilo que sentimos, vivemos ou somos”. Essa concepção nos mostra que o Ser em construção é responsável pelo seu projeto existencial e está condenado a escolher sua trajetória. Na maioria das vezes, esse Ser, devido à angústia que essa condição traz, foge às responsabilidades por meio da má-fé. 

Sartre (1997) salienta que: 

[…] tal responsabilidade absoluta não é resignação: é simples reivindicação lógica das conseqüências de nossa liberdade. O que acontece comigo, acontece por mim, e eu não poderia me deixar afetar por isso, nem me revoltar, nem me resignar. Além disso, tudo aquilo que me acontece é meu; deve-se entender por isso, em primeiro lugar, que estou sempre a altura do que me acontece […] (SARTRE, 1997, p.678). 

A fuga à responsabilidade e à angústia gerada pelo processo de escolha, como dito acima, é chamado de má-fé, e essa, por sua vez, aliena a liberdade, pois o Ser não reconhece o que lhe acontece como sua responsabilidade. 

O medo da liberdade, a fuga da angústia que ela provoca, leva o homem à atitude de má fé. Esta má-fé é uma atitude paradoxal, irresponsável, uma mentira, uma ilusão de escolha para com o homem e com o mundo. É uma mentira que o homem conta para si próprio. 

Após três anos de atendimento, a cliente se implica mais no seu processo e se coloca diante das situações de forma mais incisiva, sendo mais autêntica. 

A condição autêntica não é assumida de uma vez por todas, pois a existência é marcada pela ambiguidade do existir autêntico e inautêntico. Como dito acima, cabe ao homem escolher a cada instante ser ou não ser autêntico. A cliente ainda apresenta algumas situações nas quais não se posiciona da maneira como queria, mas é importante observar nas sessões que ela está atenta às suas escolhas, e também àquilo que poderia ter feito diferente, ou seja, está se tornando responsável pelo seu projeto e não mais vítima das situações. 

Isso permite ao Ser se tornar autêntico no seu cotidiano. O Dasein não se perde na impessoalidade, no medo e no espanto. Agindo por parâmetros coletivos, o Ser, seguindo a massa, foge à possibilidade de uma existência mais autêntica 

Ao agir preso pelos olhares dos outros, o Ser se perde e vive na inautenticidade, e consequentemente, gera neste Ser uma angústia, o espanto, que o move para a mudança. Assim, se apropria de seu Ser de forma singular. Essa singularidade, o Ser autêntico, emerge no momento em que se assume a responsabilidade e a busca por meio da ética, que foi constituída pelas suas experiências. 

O estágio na clínica possibilita não somente ao cliente, mas também ao aluno, o crescimento nessa relação terapeuta-cliente. O espaço de supervisão possibilita uma troca de experiências e pontuações importantes do professor e dos colegas.

O que se pode concluir com as intervenções na clínica é que as pessoas têm oportunidade de se conhecer e viver de forma mais autêntica, ou seja, o cliente e suas relações se estabelecem de forma mais saudável.

 

REFERÊNCIAS 

BORGES, A. T; CAPELLI, D. C; AZEVEDO, M. K; VIEIRA, J. A. O conceito de liberdade no existencialismo sartreano. Akrópolis, Umuarama, v. 17, n. 1, p. 13-20, jan./mar 2009. 

HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Tradução de Márcia Sá Cavalcante Schuback; Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2006. 

JEAN Paul Sartre: Vida e obra. Disponível em: <http://www.culturabrasil.pro.br/sartre.htm&gt;. Acesso em: 21 nov. 2010. 

LIMA, W. M. Liberdade e dialética em J. P. Sartre. Ma­ceió: EDUFAL, 1998. 

MAY, Rollo. O homem a procura de si mesmo. 13ª edição.Petrópolis, RJ: Vozes, 1987.  

MOUTINHO, Luiz Damon Santos. Sartre: existencialismo e liberdade. São Paulo: Moderna, 1995. 

PERDIGÃO, P. Existência e liberdade: uma introdução à filosofia de Sartre. Porto Alegre: L&PM. 1995. 

ROGERS, Carl R. Psicoterapia & relações humanas: teoria e prática da terapia não-diretiva. Vol1, Belo Horizonte, interlivros, 1977. 

SARTRE, J.-P. O ser e o nada: ensaio de ontologia fenom­enológica. Petrópolis: Vozes, 1997.

 SILVA, José Maria de Jesus e. O humanismo existencialista de Jean Paul Sartre. Disponível em: <http://cynthia_m_lima.sites.uol.com.br/jeanps.htm&gt;. Acesso em: 21 set. 2010.


[i] Acadêmico do 10º período do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

[ii] Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

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