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EDIÇÃO 3

E3-08 Autismo Infantil: da segregação à inclusão social – novas perspectivas na visão analítico-comportamental

 Adriene Faria Passos Martins[i]
Maxleila Reis Martins Santos[ii] 

RESUMO

Admitir que um filho é acometido por alguma “anormalidade” é uma contingência que traz em si diversos comportamentos encobertos de culpa, impotência e infelicidade aos pais. Este trabalho pretende apresentar, baseado em revisão bibliográfica, novas perspectivas para crianças acometidas pelo autismo, tendo em vista que quanto antes o diagnóstico ocorre, maiores as possibilidades de a criança conseguir mudanças relevantes. O objetivo da Análise do Comportamento na intervenção dessas crianças é possibilitar, por meio da psicoterapia, novas aprendizagens acerca da patologia, sem fazer desta uma limitação, o que reflete maior autonomia e independência em relação aos pais, além da aprendizagem de habilidades sociais básicas. 

Palavras-chave: Autismo, Limitações, Método ABA, Programa TEACCH, Programa de Intervenção PECS (Sistema de Comunicação por Figuras), Análise do comportamento. 

 

INTRODUÇÃO 
Com o nascimento de um filho, muitas expectativas são depositadas na criança. Muitos mimos, carinho e novas aprendizagens lhe são transmitidas e espera-se que ela aprenda por reforçamento e pelos modelos parentais. No entanto, diferentemente do esperado, percebe-se que a criança aparenta certa “anormalidade” e para justificar esta incógnita, muitos pais se esquivam com inúmeras justificativas.  

O autismo do filho coloca a família frente a uma série de emoções de luto pela perda da criança saudável que esperavam. Apresenta, por isso, sentimentos de desvalia por ter sido escolhida para viver essa experiência dolorosa. (KRYNSKY[iii] 1969, citado por, SPROVIERI, 2001, p. 265). 

Diante desse sentimento de impotência comum nas famílias das crianças com autismo, um tipo de Transtorno Invasivo do Desenvolvimento, este trabalho busca oferecer conhecimentos sobre o tema, apresentando possibilidades de tratamento para a criança.   

Em questionário semi-estruturado, feito por Schimidt; Bosa (2003), com pais e mães de crianças com autismo, observou-se nesses preocupação com o futuro do filho quando eles não mais puderem prover-lhe cuidados e proteção no futuro, na dependência deste em relação aos pais e aceitação dos mesmos na sociedade.  

Contudo, os resultados foram díspares em relação aos sintomas da criança: para os pais, o que mais lhes aflige são os comportamentos autoabusivos da criança, enquanto para as mães o que lhes causa maior aversão é a hiperirritabilidade da criança em idade mais avançada (6 a 12 anos). 

Cabe salientar que, com diagnóstico precoce, a possibilidade de um bom prognóstico é consideravelmente maior. 

De acordo com Schimidt; Bosa (2003), o termo autismo significa “ausente” ou “perdido” e caracteriza-se por um comprometimento severo das habilidades de interação social recíproca, habilidades de comunicação, interesses e alta frequência de atividades estereotipadas.

 Jr (1995) descreve o percurso histórico desse transtorno até os dias atuais. Plouller foi quem introduziu o termo autista nos estudos psiquiátricos de pacientes ensimesmados. Leo Kanner em 1943 adjetivou o quadro, referindo-se a ele como “Distúrbio Autístico do Contato Afetivo”. Entre 1949 e 1954, passa a se referir a este mesmo quadro como “Autismo Infantil Precoce”. Ritvo[iv] (1976, citado por JR, 1995) traz uma visão acerca do autismo que revoluciona as anteriores, caracterizando-o por um distúrbio de percepção, do desenvolvimento, do relacionamento social, da fala, da linguagem e da motilidade. Ajuriaguerra[v] (1973, citado por Jr, 1995) enquadra o autismo dentre as psicoses infantis, com características de transtorno da personalidade, dependente de uma desordem da organização do Eu e da relação da criança com o mundo circundante. Em 1985, sofrendo influência da psicanálise, Bleuler conceitua o autismo como sendo um afastamento da realidade com predomínio de vida interior. O DSM-III-R(1989), focado em caracterizações descritivas, nomeia o autismo infantil como um “Distúrbio Global do Desenvolvimento”. Ferreira (2010) citando a Classificação Internacional de Doenças- CID-10, seguindo os padrões do DSM-III-R, define o autismo como “Transtorno Invasivo do Desenvolvimento com características de anormalidade qualitativa na interação social recíproca e nos padrões de comunicação e por repertório de interesses e atividades restritas, repetitivas e esteriotipadas”. Ballone (2004) cita a quarta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais-DSM-IV (1994), que classifica o autismo como Transtorno Invasivo do Desenvolvimento, envolvendo graves dificuldades ao longo da vida. 

Conforme o DSM-IV (1994):

A – Dentre os critérios atuais para diagnóstico do autismo, é necessário que a criança se enquadre em pelo menos 6 de 12 critérios sugeridos. Dentre eles, faz-se necessário que existam 2 critérios que sejam do item 1 e pelo menos um critério dos itens 2 e 3 do referido Manual. 

1) Déficits qualitativos na interação social, manifestados por:

a. dificuldades marcadas no uso de comunicação não-verbal

b. falhas do desenvolvimento de relações interpessoais apropriadas no nível de desenvolvimento

c. falha em procurar, espontaneamente, compartilhar interesses ou atividades prazerosas com outros

d. falta de reciprocidade social ou emocional

2) Déficits qualitativos de comunicação, manifestados por:

a. falta ou atraso do desenvolvimento da linguagem, não compensada por outros meios (apontar, usar mímica)

b. déficit marcado na habilidade de iniciar ou manter conversação em indivíduos com linguagem adequada

c. uso estereotipado, repetitivo ou idiossincrático de linguagem

d. inabilidade de participar de brincadeiras de faz-de-conta ou imaginativas de forma variada e espontânea para o seu nível de desenvolvimento

3) Padrões de comportamento, atividades e interesses restritos e estereotipados:

a. preocupação excessiva, em termos de intensidade ou de foco, com interesses restritos e estereotipados

b. aderência inflexível a rotinas ou rituais

c. maneirismos motores repetitivos e estereotipados

d. preocupação persistente com partes de objetos 

B. Atrasos ou função anormal em pelo menos uma das áreas acima presente antes dos três anos de idade.

1-  Interação social

2-  Linguagem usada na comunicação social

3-  Ação simbólica ou imaginária  

Todavia, ainda hoje, o autismo encontra um grande impasse para ser enquadrado em uma nosografia, circundando a polêmica da psicogenicidade e organicidade; há ainda aqueles que defendem uma multideterminação orgânica, dinâmica e social. 

Pimentel e Jr. (2000) evidenciam o fato de muitas vezes a manifestação sintomatológica ser perceptível pelos pais apenas por volta dos 3 anos de idade, embora o DSM-IV indique a possibilidade do diagnóstico aproximadamente aos 18 meses de idade.  

Devido ao fato do autismo se evidenciar ainda na infância, faz-se necessário o acolhimento aos pais dessas crianças, já que o trabalho psicoterápico desenvolvido pela Análise do Comportamento requer treino e reforços nas diversas instâncias de convívio da criança. Para a instalação dos comportamentos deficitários nessas crianças, há vários modelos de intervenções descritos na literatura, alguns deles serão apontados neste artigo: ABA, TEACCH e PECS. 

Conforme o Manual “Ajude-nos a aprender” – Programa de Treinamento da Análise do Comportamento Aplicada – ABA – (2006), todo treino relativo a mudanças comportamentais nessas crianças objetiva a instalação de comportamentos socialmente habilidosos e, consequentemente, torná-las menos dependentes de seus familiares.

Conforme Kwee (2006), o Programa de Tratamento e Educação para Autistas e Crianças com déficits relacionados à Comunicação (TEACCH) é uma abordagem transdisciplinar psicoeducativa, envolvendo esferas de atendimento educacionais e clínicos. O programa foi criado em 1966 por Eric Shopler, e colaboradores da Universidade da Carolina do Norte (EUA). O programa consiste na observação comportamental das crianças em diferentes settings, lidando com diferentes estímulos. Foi proposta a participação dos pais, por serem considerados importantes elementos para o processo. 

Outro programa de intervenção e ensino é a Análise do Comportamento Aplicada (ABA- Applied Behavior Analysis), o programa analisa e explica a associação entre o ambiente, o comportamento e a aprendizagem. O objetivo é proporcionar a familiares e crianças com autismo, sem acesso a especialistas na síndrome e sem condições financeiras, conhecimento sobre o assunto, orientações e treino para lidar com a criança e prepará-la para as contingências da vida.  

Por último, segundo Camargos (2000), o Programa de Intervenção PECS (Sistema de Comunicação por Figuras), também é uma alternativa de baixo custo para trabalhar com crianças com desenvolvimento atípico. O programa foi desenvolvido como resposta às dificuldades encontradas em treinamentos para jovens autistas com os programas que eram disponíveis na época. O PECS, versão adaptada do PCS – Picture Communication System, consiste em um manual de treinamento de comunicação alternativa por troca de figuras para crianças com autismo e outros distúrbios de comunicação. Os desenhos são em preto e branco, acompanhados de escrita, e representam objetos, ações, pessoas e sentimentos. 

Percebe-se como existe a preocupação da comunidade científica na implementação e melhoria das propostas de intervenção destinadas a crianças com comportamentos atípicos, possibilitando a elas novos reforçadores para a aprendizagem e a convivência no âmbito social. 

Segundo o Manual ABA (2006), o ambiente familiar e de treino habitual da criança devem tornar-se reforçadores por si só. Os familiares e o próprio terapeuta deverão estar ao lado da criança em atividades que sejam prazerosas para ela, de modo que a presença desses torne-se uma fonte de reforço positivo propício ao treino. As tarefas de aprendizagem devem ser intercaladas primeiramente com atividades mais fáceis até atingir um grau maior de dificuldade de modo a progredir gradualmente o nível de exigência da criança. As atividades às quais a criança será submetida deverão inicialmente ser reforçadas imediatamente após o comportamento almejado ocorrer, dessa forma não se corre o risco de reforçar um comportamento indesejado, ocorrido posterior ao esperado.  

Caballo (2008) mostra a relevância da continuidade do ensino para uma criança autista, mesmo que esse processo seja marcado por algumas tentativas frustradas no início do aprendizado. Assim, o afinco da família em atender prontamente toda vez que a criança demandar atenção ou tentar algum tipo de interação fará com que as atividades se tornem reforçadores sociais importantes, o que, consequentemente, transmitirá à criança segurança e acolhimento na relação. 

Conclui-se que o objetivo principal da Análise do Comportamento na intervenção das crianças com autismo é a possibilidade de oferecer a elas e a seus pais o aprendizado de como lidar com esse transtorno sem fazer dele uma limitação, proporcionando à família e a própria criança maior independência e autonomia em habilidades sociais básicas. 

 

REFERÊNCIAS 

CABALLO, Vicente E. O treinamento em habilidades sociais. In: ______. Manual de técnicas de terapia e modificação de comportamento. São Paulo: Santos 2008, cap. 18, p. 386-398. 

CID 10. In: Virtual Psy. Disponível em: <http://virtualpsy.locaweb.com.br /cid.php?busca=AUTISMO.> Acesso em 18 out. 2010. 

FERREIRA, Marcos. Transtornos Invasivos do Desenvolvimento.Disponível em: < http://neuronios-saudemental.blogspot.com/2010/01/transtornos-invasivos-do.html&gt;. Acesso em 30 ago. 2010. 

JR, Francisco Baptista Assumpção. Conceito e classificação das síndromes autísticas. In: ________. Autismo Infantil. São Paulo: Memnon,1995, cap.1, p. 3-16.

JR, Francisco B. Assumpção; PIMENTEL, Ana Cristina M. Autismo Infantil. Revista Brasileira de Psiquiatria, Belo Horizonte, 2000, vol. 22 (Supl. I), p.37-39. 

KWEE, Caroline Sianlian. Abordagem transdisciplinar no autismo: o programa TEACCH. Mestrado em Fonoaudiologiapela Universidade Veiga de Almeida, RJ, 2006. 

LEAR, Kathy. Ajude-nos aprender: Programa de Treinamento em Análise do Comportamento Aplicada-ABA-. Tradução de Ana Vilela et al.2 ed. Brasil, 2006.152 p. 

SCHMIDT, Carlos; Bosa Cleonice. A investigação do impacto do autismo na família:Revisão crítica da literatura e proposta de um novo modelo. Interação em Psicologia, Universidade Federal do Rio Grane do Sul, 2003, 7(2), p.111-120. 

SPROVIERI, M. H. & Assumpção Jr., J. F. B.Dinâmica familiar de crianças autistas. Arquivos de Neuropsiquiatria, São Paulo, vol. 59, nº 2 A.p. 230-237, jun., 2001. 

CAMARGOS, Walter. O programa de intervenção: o PECS e as adaptações propostas. In: Os efeitos do PECS associado ao Curriculum Funcional em pessoas com autismo infantil. São Paulo,2000, p. 25-34. 


[i] Acadêmica do 10º período do curso de Psicologia do Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

[ii] Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

[iii] Krynski S. Deficiência mental. Rio de Janeiro: Zahar, 1969

[iv] RITVO, E.R.; ORNITZ, E.M.- Medical Assesment. In: Ritvo, E.R-. Autism: diagnosis, current research and management. New York, Spectrum,1976

[v] AJURIAGUERRA, J. – Manual de psiquiatria infantil. Barcelona, Toray- Masson, 1973

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