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EDIÇÃO 3

E3 -11 Inautenticidade: Estudo clínico de Joana

Pollyanna Magalhães Nobi[i]
Fernando Dório Anastácio[ii]  

RESUMO
Este artigo tem como objetivo apresentar o caso clínico de Joana, a partir da abordagem fenomenológica existencial, bem como conceituar e elencar o termo inautenticidade ao caso.
 

Palavras – chave: Autenticidade; Inautenticidade; Fenomenologia Existencial.

 

INTRODUÇÃO 

Este artigo será apresentado em decorrência do estudo do caso clínico de Joana, tendo a abordagem fenomenológica existencial como pressuposto teórico. Propõe-se estabelecer relação entre o termo inautenticidade e as relações interpessoais trazidas pela adolescente aos atendimentos psicoterapêuticos. 

Joana, 12 anos, foi trazida à clínica de Psicologia da Newton Paiva por sua mãe com duas queixas iniciais apresentadas pela própria mãe: sua dificuldade em lidar com o assunto sexualidade com a filha, que se encontra em uma fase de transição da infância para a adolescência, em que as curiosidades sobre o assunto começam a ser maiores, e as dificuldades de aprendizagem na escola apresentadas por Joana. Ao iniciar o atendimento, Joana escuta o que a mãe traz à psicoterapia e ao ser questionada sobre o que pensa ou o que tem a dizer sobre o assunto, a mesma não faz nenhuma observação. No decorrer das sessões, foi possível perceber que essa atitude acontece em todos os momentos em que ela está na presença da mãe. Durante as sessões, Joana menciona que sua dificuldade com os estudos está relacionada à sua troca de escola, de uma pública para uma privada, sendo esse o motivo pelo qual não tira notas boas na atual escola. 

Joana reside com sua mãe e seu padrasto. Seu pai biológico foi assassinado há alguns anos. Joana foi criada, a maior parte da sua vida, somente pela mãe. As duas moravam com a avó materna, e a mãe precisava trabalhar o dia inteiro para o próprio sustento e o sustento da filha, tendo pouco tempo para estarem juntas. A mãe menciona que devido a sua falta de tempo e o desgaste no trabalho, não tinha muita paciência com a filha e, por muitas vezes, a agredia sem motivos aparentes. Essa realidade mudou há alguns anos quando a mãe de Joana se casou novamente com o atual marido, esse apresenta uma condição financeira tranquila, que garante o sustento da casa e a manutenção de Joana em uma boa escola particular, sem que seja necessário que sua mãe saia de casa para trabalhar.

 

MÉTODO FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL 

Os atendimentos à Joana foram realizados a partir do método fenomenológico existencial, sob a orientação do Professor Fernando Dório. 

Segundo Forghieri (1984), o conhecimento científico iniciou-se com a necessidade de ser uma ciência empírica, tudo o que se apresenta no mundo precisava ser comprovado empiricamente para ser considerado e reconhecido como ciência. Menciona que com a Psicologia não foi diferente. No seu surgimento, utilizava o método experimental, que era fundamental no estudo do ser humano, o que implicou considerá-lo como um objeto entre outros objetos na natureza. Diante disso, a autora menciona o surgimento, com Husserl, da Fenomenologia, método que contesta o método experimental para aplicação nas ciências do homem, especialmente a Psicologia. 

Forghieri (1984, p.15) cita que Husserl “nega a existência tanto do sujeito quanto do mundo, como puros e independentes um do outro. Afirma que o homem é um ser consciente e que a consciência é sempre intencional, ou seja, ela não existe independentemente do objeto, mas é sempre consciência de algo”. 

Ainda segundo a autora, basear-se no método fenomenológico existencial é acreditar que o homem não é algo pronto, mas um conjunto de possibilidades que se atualiza no decorrer da sua existência. É livre para escolher em muitas possibilidades, levando em consideração que cada escolha significa um ato de renúncia às outras possibilidades.

É possível perceber que, no decorrer dos atendimentos, Joana está em constante desenvolvimento de suas potencialidades e reconhece cada vez mais suas possibilidades.

 

O SER AUTÊNTICO E INAUTÊNTICO 

É perceptível, no decorrer dos atendimentos, que sempre que a mãe de Joana se coloca presente para dizer algo que a incomoda sobre a filha, Joana mantém-se em silêncio, e não se posiciona sobre o que é trazido. Diante do não posicionamento da cliente, é importante apresentar o conceito de autenticidade do ser descrito por Sartre. Angerami (1985) menciona que para Sartre, “o homem autêntico é aquele que se submete à conversão radical através da angústia e assume sua liberdade”. Sartre distingue três tipos de inautenticidade: 

Uma, que deriva do não reconhecimento da dualidade entre nosso ser-para-nós e nosso ser-para-outrem. A outra baseia-se na confusão entre nosso estar-no-mundo e nosso estar-no-meio mundo; mas esta forma de inautenticidade decorre do não reconhecimento de nossa situação ambígua com um em-si-para-si e nosso ser como para-si (ANGERAMI, 1985, p. 28). 

É possível perceber que a atitude de Joana em não se posicionar quando está frente a frente com sua mãe diz de uma inautenticidade, uma vez que esta assume a mesma postura na maioria dos acontecimentos em sua vida. A inautenticidade pode ser vivenciada por uma queda objetiva ou subjetiva. Para Heidegger (2000, apud SOARES, 2004, p. 582), a queda subjetiva pode “ocorrer quando a pessoa vive em grande parte, em função dos ditames dos outros, deixando que esses determinem o seu modo de existir. Isso significa omitir-se da responsabilidade de ser-si-próprio”. Quanto à queda objetiva, pode ser caracterizada a partir de “uma eleição por um objeto que anestesie os conflitos existenciais, associada ao valor simbólico que o mesmo representa na dimensão imaginária de cada pessoa em particular”. (HEIDEGGER, 2000 apud SOARES, 2004, p. 582).

É comum, também, a cliente demonstrar indiferença diante de fatos que dizem respeito a ela, sempre que questionada sobre seu pensamento sobre algo, diz que para ela tanto faz ou que não sabe. Escolher não saber ou escolher não lidar diretamente com os fatos que ocorrem à sua volta e que principalmente dizem respeito a ela é escolher ser indiferente, não ter consciência, e, segundo Angerami (1985), a consciência é exatamente o que distingue radicalmente o homem dos outros seres. Escolher ou opinar sobre algo necessita do uso da liberdade, e para Sartre, a liberdade do ser é uma condição, que pretende erigir a sua moral da responsabilidade e do compromisso. “O subjetivismo de Sartre revela-se extremo: “tudo o que acontece é meu”, “tudo o que me acontece acontece por mim””. (ANGERAMI, 1985, p. 28).

Na psicoterapia, vem sendo trabalhado com Joana sua dificuldade em assumir as responsabilidades de sua própria vida e assumir sua liberdade, a fim de auxiliá-la a apropriar-se dos acontecimentos que estão diretamente ligados a ela, bem como possibilitar maior compreensão das diferentes possibilidades existentes para lidar com diversas situações. Segundo Feijoo (2008), elegemos e assumimos a responsabilidade da eleição do que somos e do que decidimos fazer, cita que para Sartre, a liberdade (na edição brasileira Saint-Genet – ator e mártir) não é senão “o que nós fazemos daquilo que fizeram conosco.”

A autora menciona que para Sartre, 

o fundamento para chegar à compreensão é a concepção de que o indivíduo se encontra inteiro em todas as suas manifestações; portanto, a partir de qualquer ato, de qualquer aspecto vivido pelo sujeito, é possível chegar à sua significação, ou ao seu projeto originário. Assim é que, para Sartre, a personalidade é considerada sempre como um fenômeno resultante da dialética entre objetividade e subjetividade (FEIJOO, 2008. p.204). 

Ainda segundo a autora, “ninguém nasce determinado a priori: a personalidade é resultante de um processo histórico de construção do ser, realizado através do jogo dialético entre a objetividade […] e a subjetividade [..]” (FEIJOO, 2008, p. 205). As escolhas e a subjetividade do ser são fundamentais para sua construção como sujeito.

A Psicoterapia de base fenomenológica existencial age como facilitadora para uma libertação da dependência subjetiva da cliente dos outros, possibilitando-a separar o que é seu e o que é do outro, para que tenha consciência que o que lhe acontece é posterior a uma escolha sua.


REFERÊNCIAS 

ANGERAMI, Valdemar Augusto. Psicoterapia existencial: noções básicas. São Paulo: Traço, 1985, 99 p.  

FEIJOO, Ana Maria Lopez Calvo de. Interpretações Fenomenológico-Existenciais para o Sofrimento Psíquico na Atualidade. Rio de Janeiro: GDN, 2008, p. 202-2012. 

FORGUIERI, Yolanda Cintrão, (Org). Fenomenologia e Psicologia. São Paulo: Cortez: Autores Associados, 1984, p. 07-26. 

SOARES, Astréia; BARBOSA, Márcio Venício (Org.). Iniciação científica Newton Paiva 2002/2003. Belo Horizonte: Centro Universitário Newton Paiva, 2004, p. 632.  


[i] Acadêmica do 10º período do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva. 

[ii] Professor supervisor de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva.

 

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