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EDIÇÃO 2

E2-03 A metodologia dos grupos multifamílias e o serviço público: ampliando Redes Sociais

Felipe Arthur Martinsi
Flaviane da Costa Oliveira
[i]

Genilce Cunha[ii] 

RESUMO
A contemporaneidade anuncia desafios e possibilidades à atuação da Psicologia, convocando os profissionais a ocuparem novos espaços e a construírem novas práticas. Nesse sentido, pensaremos a inserção da psicologia nestes cenários contemporâneos, em especial no que tange à atuação do psicólogo no serviço público. Apresentaremos a metodologia de grupos multifamílias indo de sua criação a sua utilização atual, seus desafios e perspectivas. Trata-se de um estudo de caso a partir de observações livres e observações participantes, realizadas pelos autores, em um Centro de Referência em Assistência Social (CRAS) na cidade de Belo Horizonte e no Centro de Referência da Mulher e da Família (CRMF) vinculado ao Centro Universitário Newton Paiva. Assim, vislumbramos a necessidade de ampliação da capacitação do profissional psicólogo nesta forma de atendimento, uma vez que a mesma se configura como importante recurso no contato com os grupos familiares enquanto amplificador de redes sociais. 

Palavras-Chave: Atendimento a famílias. Multifamílias. Psicologia no serviço público. Redes sociais.  

 

Família e contemporaneidade

Inicialmente, cabe situar nossa perspectiva sobre o conceito família, uma vez que o mesmo encontra-se no cerne da atuação que pretendemos descrever. Sabe-se que o conceito de família pode ser dado a partir de diversas perspectivas: histórica, funcional, relacional etc.; estando, portanto, diretamente relacionado a uma corrente teórico-epistemológica (AUN, 2005).  Quando falamos em família, assumimos, neste trabalho, a perspectiva de autores como Aun (2005), que compreendem a família como uma instituição social, com funções sociais e psicológicas que se modificam a partir do contexto histórico-social vivenciado. Os estudos de Aun (2005), Bucher (1999) e Osório (2002) permitem-nos vislumbrar uma conceituação básica para família, onde esta figura como uma unidade básica de interação social com funções biológicas, sociais e psicológicas. Ao longo da história, vários esforços classificatórios dos modelos familiares foram realizados e, muitas vezes, contribuíram para a estigmatização de grupos minoritários e a disseminação da ideologia liberalista.  

Além de cristalizar um modelo hegemônico de estruturação e funcionamento dos grupos familiares, a atuação ética do profissional psicólogo deve agregar conhecimentos sobre os fatores que influenciam as mudanças vivenciadas. No Brasil, Aun (2005) aponta as influências européias recebidas pelas formações familiares a partir da vinda da família real portuguesa ao país durante o século XIX. Assim, passou a figurar no país um modelo hegemônico de família nuclear burguesa, marcado pela separação e hierarquia entre público e privado, masculino e feminino, adulto e infantil etc. A partir dos anos 60, os papéis familiares então vigentes sofreram modificações influenciadas por diversos fatores: a consolidação do modelo capitalista de produção; o aumento dos estudos universitários; a entrada da mulher no mercado de trabalho; o crescimento dos movimentos feministas; a legalização das separações; e o surgimento e divulgação de novos métodos contraceptivos.  

De uma forma ampla, o atendimento clínico a famílias é uma prática em desenvolvimento no campo psi. Essa demanda social surgiu no início do século XX, quando vigorava o modelo de atendimento individual muito influenciado pelos pressupostos psicanalíticos. Assim, nasceram os primeiros grupos de estudo e pesquisa em diversos países, que levaram à constituição de um grande arcabouço teórico em termos de terapia familiar (SAMPAIO e GAMEIRO, 1985).  

Rompendo com a lógica newtoniana ou linear de causalidade dos fenômenos, estudiosos puderam condensar pressupostos de áreas com a Cibernética[iii] e da Teoria Geral dos Sistemas[iv], que subsidiaram a superação da lógica de atendimento individual então vigente, passando a compreensão da família como uma unidade com propriedades singulares, incapazes de serem percebidas a nível individual, e levando a uma mudança de foco buscando conhecer o padrão de relacionamento familiar (NICHOLS e SCHWARTZ, 1998). 

Nos Estados Unidos, o crescimento de serviços de Saúde Mental constituído nos anos 50 levou as primeiras iniciativas sistematizadas de atendimento familiar; inicialmente interessados nas formas de comunicação nas famílias esquizofrênicas (SAMPAIO e GAMEIRO, 1985). Entre os anos de 1950-1979, nos Estados Unidos, H. Peter Laqueur, considerado o pai do modelo terapêutico de grupo multifamiliar, desenvolvia a metodologia, que hoje é foco de nosso estudo (HOLZMANN e GRASSANO, 2002).

 

A Metodologia de Multifamílias: surgimento e aplicações

O modelo de grupos multifamiliares foi pensado por Laqueur, durante sua passagem pelo Hospital de Vermont, a partir de reuniões com famílias que possuíam um membro internado com o diagnóstico de esquizofrenia,e que assim podiam falar sobre suas dificuldades e experiências. Simultaneamente, George H. Orvin começou a trabalhar com esses grupos com famílias de adolescentes infratores, também nos Estados Unidos. A partir daí, inúmeros outros grupos surgiram nas mais diversas áreas: junto a toxicômanos, alcoólatras, crianças hospitalizadas, comunidades etc. (HOLZMANN e GRASSANO, 2002). 

Costa (1998, p.252) define o grupo multifamiliar como “Instrumento de apoio, capacitação, suporte e promoção de mudanças”, onde os participantes do sistema determinado pelo problema[v] podem discutir e buscar soluções práticas, aprendendo uns com os outros pela troca de experiências e pelo vislumbre de semelhanças e diferenças, e estabelecendo novos padrões relacionais. O grupo multifamílias é um instrumento importante no alcance e fortalecimento da rede social das famílias e de seus integrantes. A rede social abrange o universo relacional do indivíduo, ou seja, os indivíduos de conjuntos mais vastos, incluindo grupos informais amplos, subgrupos culturais e os elementos de contextos econômicos, culturais e político-sociais. 

Assim, o objetivo principal da metodologia de multifamílias é a criação de um espaço relacional de desenvolvimento de competências e compartilhamento de experiências e aprendizagem. O caminhar dos grupos leva os participantes a assumirem a condição de coterapeutas, fazendo intervenções e servindo de modelo para outras famílias participantes.   Segundo Holzmann e Grassano (2002), existem alguns fatores que contribuem para a eficácia do grupo: o vislumbre de que outros enfrentam o mesmo problema e das formas como puderam superar dificuldades; o fortalecimento de uma rede de apoio em que todos se sentem aceitos; o contato com novos modelos de ação; e a existência de feedback entre os membros. 

No cenário contemporâneo, onde a psicologia é convocada a atuar nas políticas públicas de atenção a população, a metodologia de grupos multifamílias parece apresentar-se como alternativa interessante na emancipação das famílias em situação de risco social. O grupo multifamiliar 

[…] permite o desenvolvimento da coesão intrafamiliar, entre a família e a comunidade e maior consciência de suas competências. Se pensarmos em famílias de camadas populares, fragilizadas pelas precárias condições de vida e pelas rupturas de vínculos sociais e afetivos, as reuniões de multifamílias são uma oportunidade para o desenvolvimento da resiliência familiar, na contingência das possibilidades das interações entre os elementos dos sistemas envolvidos no problema (COELHO, 2004).  

 

O CRAS e o CRMF: ampliando redes sociais

O avanço dos investimentos governamentais nas políticas de assistência[vi] amplia o campo de trabalho da psicologia e convoca os profissionais a construírem novas formas de atendimento que se adaptem aos objetivos propostos. A partir da implantação do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), a assistência social passou a organizar sua atuação a partir de duas grandes estruturas articuladas entre si: a Proteção Social Básica (serviços de atenção básica) e a Proteção Social Especial (serviços de atendimento a necessidades de média e alta complexidade). O Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) se insere no âmbito da Proteção Social Básica e objetiva “o desenvolvimento local, buscando potencializar o território de modo geral” (CREPOP, 2007, p. 12). Atuando dentro da lógica do trabalho em rede, o CRAS busca subsidiar suas ações a partir dos equipamentos e formas de organização existentes na comunidade.  

As atividades do psicólogo no CRAS devem estar voltadas para a atenção e prevenção a situações de risco, objetivando atuar nas situações de vulnerabilidade por meio do fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários e por meio do desenvolvimento de potencialidades e aquisições pessoais e coletivas (CREPOP, 2007, p. 23). 

O mapeamento da rede social de apoio a grupos atendidos nas comunidades, proposto pelo CRAS, aproxima os diferentes atores presentes no cenário social. A partir da atuação em grupos multifamílias, os profissionais do CRAS podem, além de mapear as famílias e os problemas por elas enfrentados, facilitar e integrar o acesso dos participantes aos serviços públicos disponíveis. Nesta perspectiva, a universidade tem um duplo papel, o de personagem desta rede de atendimento e o de capacitação dos profissionais. 

Durante as atividades de observação livre e participante, presentes em práticas de estágio supervisionado, pudemos vislumbrar este ponto de encontro entre a acadêmica e o social. Nesse sentido, o CRMF enquanto ator da rede social de apoio da comunidade da regional oeste de Belo Horizonte/MG, a partir de um cenário desenhado pela equipe do CRAS, levou-nos à compreensão do papel ativo da universidade dentro da realidade social, oferecendo atendimento psicológico e outros serviços às famílias e indivíduos. Por outro lado, a prática na condução de grupo multifamiliares possibilitada pelo CRMF parece preencher a lacuna existente entre a demanda social de atuação do psicólogo e a academia – que, em alguns casos, ainda sustenta a formação de profissionais acostumados aos settings analíticos tradicionais. 

Uma formação profissional comprometida com a transformação social e rica em alternativas de atuação, tal qual a metodologia de grupos multifamílias, parece ser um caminho promissor para a ampliação do papel da psicologia enquanto ciência engajada, com a emancipação das classes economicamente desfavorecidas e com seu papel ético e social. Uma formação que possa romper com o distanciamento entre o profissional psicólogo e a população atendida e onde os atendidos possam figurar como os condutores do processo de resolução de problemas.

Compreender o papel ativo do indivíduo e a influência das relações sociais, valores e conhecimentos culturais sobre o desenvolvimento humano pode favorecer a construção de uma atuação profissional que seja transformadora das desigualdades sociais. Ao levar em consideração essa dimensão do desenvolvimento dos sujeitos, contribui-se para a promoção de novos significados ao lugar do sujeito cidadão, autônomo e que deve ter vez e voz no processo de tomada de decisão e de resolução das dificuldades e problemas vivenciados. (CREPOP, 2007, p.18)

 

REFERÊNCIAS 

AUN, J. G.; VASCONCELLOS, M. J. E.; COELHO, S. V. Atendimento sistêmico de famílias e redes sociais: volume 1: fundamentos teóricos e epistemológicos. Belo Horizonte: Ophicina de Arte e Prosa, 2005. 234 p. 

BUCHER, J. S. N. F. O casal e a família sob novas formas de interação. In: FÉRES-CARNEIRO, T. (Coord.) Casal e família: entre a tradição e a transformação. Rio de Janeiro: NAU, 1999. Cap.5. p. 82-95.

CREPOP. Centro de Referência Técnica em Psicologia e Políticas Públicas. Referência técnica para atuação do (a) psicólogo (a) no CRAS/SUAS. Conselho Federal de Psicologia (CFP). Brasília, CFP, 2007. 48p. 

COSTA, L. F. Reuniões multifamiliares: condições de apoio, questionamento e reflexão no processo de exclusão de membros de família. Ser Social, n.3, jul.-dez.1998. Brasília, DF. UNB. p. 245-273. 

HOLZMANN, M. E. F.; GRASSANO, S. M. Construção das Fundações. In: _____. Multifamílias: Construção de Redes de Afeto. Curitiba: Integrada, 2002. Cap. 1, p. 25-39.  

NICHOLS, M. P.; SCHWARTZ, R.C. Terapia familiar: conceitos e métodos. Tradução: Magda França Lopes. Artmed, 1998 524 p. 

OSÓRIO, L. C. Casais e famílias: uma visão contemporânea. Porto Alegre: Artmed. 2002. 110p.

SAMPAIO, D.; GAMEIRO, J. Terapia Familiar. 2. ed. Porto: Afrontamento, 1985. 170p. 


[i] Acadêmicos do Curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

[ii] Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

[iii] A cibernética foi criada pelo matemático Nobert Wiener (1948) a partir do estudo dos circuitos de feedback (realimentação dos impulsos elétricos) de aviões da Segunda Guerra Mundial. Wiener teve de integrar o circuito de feedback negativo no sistema de defesa antiaérea dos Estados Unidos e aliados, a fim de que o mesmo fosse capaz de derrubar os aviões alemães que eram muito rápidos para os radares. Neste caso, o feedback positivo do sistema não permitia o rearranjo na mira da artilharia o que levava a descontroles. Gregory Bateson – um dos pioneiros na terapia familiar – encontrou-se com Wiener em um encontro multidisciplinar, as conferências Macy. Assim, começava o diálogo entre as áreas (NICHOLS e SCHWARTZ, 1998).  

[iv] Esta teoria teve origem na matemática, física e engenharia da década de 1940, afirma que diferentes sistemas mecânicos ou biológicos compartilham atributos, ou seja, correspondem a um todo composto por partes (NICHOLS e SCHWARTZ, 1998). 

[v] Sistema constituído daqueles que está envolvido direta ou indiretamente com o problema e que farão parte da conversação sobre o mesmo. Para maiores detalhes consulte: AUN, Juliana G. The co-construction process as a context for autonomy: alternative for politics of assistence to the handicapped. Human System, number special. Culture in Systemic Practice, Inglaterra, 1998, v.9, n34, p. 289-305.  

[vi] A partir da Constituição Federal de 1988, ampliaram-se iniciativas de integração entre a Saúde e a Previdência Social, constituindo, assim, o Sistema Brasileiro de Seguridade Social, e desde 1993, com a vigência da Lei Orgânica de Assistência Social (LOAS). Em 2004, estabeleceu-se, a Política Nacional de Assistência Social (PNAS/2004) operacionalizada no Sistema Único de Assistência Social (SUAS) em 2005. 

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