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EDIÇÃO 2

E2-01 Família: herança e construção

 Alessandra Cristina Alvim[i]
Gisele Cristina de Oliveirai
Genilce Cunha
[ii]
 

RESUMO

O presente artigo tem como objetivo apresentar algumas contribuições da abordagem sistêmica na compreensão da dinâmica familiar, fazendo uma análise de temas como: relacionamentos, escolha do parceiro e suas interações, demonstrando que construímos relações de acordo com nossas heranças culturais familiares, tanto em sentido de reafirmá-las quanto negá-las, e que os padrões de interações podem influenciar na construção de famílias disfuncionais.  

Palavras–chave:Teoria sistêmica. Família. Escolha do parceiro. Interações. 

 

Este texto faz uma breve apresentação de temas relacionados à família, discutindo os relacionamentos e suas interações, a dinâmica familiar e a escolha do parceiro através da teoria sistêmica. A concepção sistêmica vê o mundo em termos de relações e de integração, considerando a complexidade, a instabilidade e a intersubjetividade de determinado indivíduo a ser estudado, cujo seu funcionamento será entendido como um sistema.  

Partimos do princípio que sistemas são totalidades interligadas, cujas propriedades não podem ser reproduzidas a unidades menores e que a natureza do sistema é intrinsecamente dinâmica. Temos, portanto, sistemas demarcados por estruturas que não rígidas, e sim manifestações flexíveis, apesar de se apresentarem estáveis. 

Minuchin (1982) afirma que a família tem funções de proteção psíquica de seus membros. A socialização e transmissão da cultura da qual fazem parte é que irá variar de geração para geração. Ou seja, a família está sujeita a mudanças relacionadas ao contexto histórico-social de cada um de seus membros, apresentando vínculos emocionais e uma história compartilhada sob a forma de valores e de funções transmitidas pelo mito. 

As famílias transmitem modelos, mesmo aquelas que cuidam para não acontecer. O sistema familiar é definido por Cerveny (1994) como o contexto no qual ocorre a transmissão dos padrões interacionais que, às vezes, pode não passar de uma geração à subsequente, mas até pular gerações.

Cerveny (1994) acrescenta ainda que

Toda família repete e há repetições que mantêm a família como um sistema, podendo, inclusive, prover esse sistema uma identidade especificada que o diferencia dos outros. A repetição dos padrões interacionais multigeracionalmente toma outra dimensão quando impede o sistema familiar de mudar e crescer ou quando mantém uma família num nível tão disfuncional que a interação terapêutica se faz necessária (CerveNy,1994, pag 41) 

Sarti (2003) considera que cada família, e muitas vezes cada membro, terá uma versão de sua história sobre si mesmo. Cada família organiza sua história numa narrativa oficial, construindo os significados para a experiência vivida dentro dos limites de seu mundo e de sua cultura; e demarcando interações circulares dinâmicas que se modificam conforme as mudanças ocorridas no contexto e na forma de comunicação de cada sistema. 

Segundo Austin (1990) a linguagem e a fala são importantes como figuras de fundo, tanto para dar sentido à existência como para construir as relações. As relações são construídas pelas regras comunicacionais e permitem-nos inferir a qualidade relacional ao nível das escolhas do parceiro. A escolha do parceiro conforme Andolfi (1995) expressa um jogo extremamente sutil e sofisticado.  

Quando as relações são construídas baseadas na igualdade e minimização das diferenças, o que a teoria sistêmica denomina de interação simétrica, os elementos de uma comunicação colocam-se ao mesmo nível, refletindo assim os comportamentos uns dos outros, minimizando as suas diferenças e amplificando as semelhanças comunicacionais. Ou seja, um parceiro não exige submissão do outro. 

Já a interação complementar diz de interações que reforçam as diferenças comunicacionais, no sentido em que um elemento complementa a comunicação do outro. O extremo desta dependência conduz a uma complementaridade rígida. Assim, no que se refere à tomada de decisões, os elementos ocupam uma posição definida na relação, onde alguém decide e alguém obedece. Muitas vezes até utilizam discursos não-verbais. onde cada um comunica ao outro o modo como espera que ele se comporte e aquele, por sua vez, pressupõe o que é esperado dele na relação e as respectivas definições de relação encaixam-se.  

De acordo com Andolfi (1995), a escolha do parceiro se dá por meio de uma “atenção seletiva” ou “desatenção seletiva” a eventos importantes da vida, baseando-se então num jogo de “vazios” e “cheios” que permitem, por meio da interpretação dinâmica, que o relacionamento prossiga ou evolua, ou que seja interrompido.

Nesse sentido, 

É de acordo como vivemos nosso emocionar, em particular nossos desejos, e não de acordo com o nosso raciocinar, que viverão nossos filhos e o mundo que geraremos, eles e nós ao transformarmo-nos construindo a história de nosso viver. (MARTURANA, VERDEN-ZOLLEN, 1997, pag. 13) 

Assim sendo, as histórias são produzidas no mundo da vida, envolvendo sempre uma medida social pela participação de outras pessoas na sua construção. Deste modo, mesmo que se trate de uma história pessoal, o seu contexto de produção compreende não só uma dimensão individual, uma vez que as vozes das famílias e o contexto no qual a pessoa vive e desenvolve suas relações, regulam-se como “outros” internalizados sendo, portanto, co-autores de nossas narrativas.

 

REFERENCIAS 

ANDOLFI, Maurizio. O casal em crise. Mauricio Andolf, Cláudio Ângelo, Carminie, Saccu; (Tradução Silvanma Finzi Foa), São Paulo: Sumus, 1995. 

AUSTIN, J.L. Quando dizer é fazer: palavras e ação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.  

CERVENY, C.M.O. Familia e Narrativas, Gênero, Parentalidade, Irmãos, Filho nos divórcios, Genealogia, História, Estrutura, Violência, Intervenção sistêmica, Rede Social. A família como modelo-desconstruido a patologia. Ed Psy II, 1994. 

MINUCHIN, Salvador (1982). Famílias: funcionamento e Tratamento. Porto Alegre: Artes Médicas. 

MINUCHIN, S.; FISHMAN, H. Charles. Técnicas de terapia familiar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990. 

NICHOLS, Michael P.; SCHWARTZ. Terapia familiar: conceitos e métodos. (tradução Maria Adriana Verissimo Veronese) 7ª Ed. P9orto alegre, 2007. 

Richard C. Terapia familiar: conceitos e métodos. Ed. Artmed. Porto Alegre, 1998.  

SARTI, C.A. A família como espelho. 2 ed. São Paulo : Cortez. 2003 


[i] Acadêmica do Curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva. 

[ii] Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

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