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EDIÇÃO 2

E2-04 O sintoma da criança hospitalizada: uma questão familiar

Bruna Luciana Domingues Brandão[i]
Luiza Angélica Fonseca[ii]

RESUMO
O sintoma da criança responde por aquilo que existe de sintomático na estrutura familiar. Deste modo, o contexto familiar possibilita à criança, nas suas diferentes interações, que essa se constitua enquanto sujeito. Assim sendo, pretende-se pelo presente artigo abordar a relação familiar e sua interferência na formação do sintoma na criança hospitalizada. 

Palavras-chave:Hospitalização. Sintoma da criança. Relação familiar.

 

Para a Psicanálise, a família é responsável por fornecer identificações, tendo como função a transmissão subjetiva, ou seja, ela nomeia o desejo da criança, inserindo-a num universo simbólico e na lei. A estrutura familiar corresponde à estrutura mítica edípica, “[…] aquela que organiza a relação entre a mãe, a criança e a função paterna, fundamento da constituição do sujeito e da transmissão da castração” (FERREIRA, 1999, p. 59).  

Nesse viés, um dos mecanismos estruturantes para o sujeito é a neurose, que se trata de uma resposta às vicissitudes da operação de separação, que intervém entre a mãe e a criança, o Nome-do-Pai (FERREIRA, 1999). A neurose é o destino dos falantes, e se o pai falha para encarnar a instância paterna temos a opção neurótica. 

A verdadeira neurose não é necessariamente uma doença e deve inicialmente ser considerada como um tributo à dificuldade da vida. Diagnosticamos doença e anormalidades apenas quando o grau das perturbações incapacita a criança, amola os pais, ou representa um inconveniente para a família (BERNARDINO, 1997, p. 57). 

As dificuldades ou “falhas” da criança, às vezes, vêm como resposta ao ideal do Outro. Essas dificuldades que podem causar certo incomodo na criança devem estar ligadas à relação dos pais ou ao meio social no qual está inserida. Deste modo, podemos identificar a criança como sintoma dessa organização familiar. 

Bernardino (apud MANOMMI[iii], 1967) faz referência à função da palavra no sintoma,

e que ela aparece para dar lugar ao sintoma como palavra verdadeira, mesmo que disfarçado para fazer exatamente substituição ao que o adulto não dá conta de enfrentar. Logo, o sintoma está ancorado diretamente no discurso, no enunciado do Outro. Mas sendo o sintoma um portador da enunciação do sujeito inconsciente, ele estará respondendo a insuficiência do Outro na sua função de transmitir a Lei, a castração. Portanto, o sintoma escreve, de maneira enigmática, a interpretação daquilo que o Outro se constitui, estruturalmente, como falta.

Assim, o sintoma torna-se uma linguagem codificada, em que a criança mantêm o seu segredo. O sintoma vem no lugar de uma palavra que falta. Nessa perspectiva, as palavras ou a falta delas têm um valor simbólico para a criança e a forma como são ditas podem evidenciar o modo de relação com esse Outro. Desta forma, “se a criança tem a impressão de que todo acesso a uma palavra verdadeira lhe é vedado, pode em certos casos procurar na doença uma possibilidade de expressão” (BERNARDINO, 1997, p.57)

A organização sintomática vem em defesa de um mínimo de subjetividade, oscilando entre se fazer objeto imaginário do gozo do Outro e destituir-se deste lugar através do fracasso do ideais daqueles que encarnam o Outro. […] o sintoma é uma tentativa desesperada de sustentar um mínimo de subjetividade diante do imperativo do Grande Outro (Op.Cit, p. 59).

Para isso, devem-se escutar as modalidades de resposta que o sujeito produz e que se manifestam pela via do sintoma, ou seja, escutar a resposta inventada frente ao enigma que é o Outro para o sujeito (FERREIRA, 1999, p. 54). 

Observa-se que muitos pacientes chegam ao hospital trazendo questões referentes à sua posição como sujeito e isto muitas vezes é mascarado pela doença. O paciente não chega sozinho ao hospital, com ele vêm a doença, seus familiares e todas as implicações com relação aos papéis e suas demandas. A instituição hospitalar é o espaço onde o desamparo humano pode presentificar-se com as mais diversas roupagens, que fazem suscitar as reações mais diversas. 

Nesse viés, no hospital, os psicanalistas sustentam o seu lugar como uma posição no discurso, que se insere em sua forma discreta, quase imperceptível, pois o discurso da falta não ocupa espaço, ele abre o espaço para a circulação dos demais discursos. Assim, “os psicanalistas se oferecem como pura presença real, ponto em que o sujeito se desvanece abrindo espaço para o objeto a, faltoso, despido de suas formas” (MOURA, 1996, p.5).

Assim, durante a hospitalização, ao falar o sujeito pode inserir-se no tempo da sua história, na tentativa de sair do lugar de objeto, visto que “o inapreensível do Outro, o que se perde no objeto, é a causa do saber de que o objeto é presença que sustenta a ausência, constituindo-se então a ética do desejo” (MOURA, 1996, p.11). Quando fala, o sujeito renuncia à coisa e sua satisfação passa à linguagem, constituindo-se na própria ação. 

Para exemplificar o tema proposto apresentaremos o caso de João, hospitalizado na pediatria de um hospital conveniado onde ocorre o Estágio O Lugar da escuta na Psicanálise. Considerando o sigilo necessário, todos os nomes referidos neste texto são fictícios. 

João tem 10 anos e os pais separaram-se quando ele tinha um ano. João chega ao hospital com pescoço duro e não conseguia mexer as pernas. Segundo a equipe pediátrica, mesmo João sendo submetido a todos os exames não foi diagnosticado nada, mas em virtude de dores lombares, cefaléia e vômito, João acabou internado por suspeita de princípio de pneumonia. Durante o atendimento, Maria, mãe de João, relata que o filho está presenciando o conflito desencadeado pela separação dos pais, pois, de acordo com a mãe, o mesmo encontra-se “dividido” entre o pai e a mãe. Maria relata que não quer o filho perto do pai, pois ele não é uma boa influência para ele, pois, diz que seu ex-marido tem problemas na justiça e que “mexe com coisas erradas”. Num dos momentos do atendimento, João diz à estagiária que era bom estar no hospital, porque ali, ele e a mãe poderiam “brincar de posição”. Indagado pela estagiária como seria esse brincar ele relata que: “mudo a posição e ela me olha” (sic), pois segundo o mesmo, sua mãe trabalha o dia todo fora de casa e estando ali ela poderia olhá-lo. 

Em relação ao caso acima relatado, percebe-se que a criança consegue fazer da falta no Outro sua consequente demanda, tendo em vista que o corpo de João encena uma busca de saída, de uma expressão para a situação que vivencia no seu ambiente familiar. O sintoma que essa criança apresenta é uma forma encontrada por ela para “falar de suas questões particulares”, pois procura via sintoma convocar esses pais a ocupar suas respectivas funções. Convocação essa, que faz com que João se situe frente a seu próprio desejo, tentando não mais ficar submetido ao desejo do Outro. A criança representa, encena, “fala”, de algo de real da história dos pais, pois se não for assim posto em cena pela criança não irá aparecer no contexto pessoal destes. 

O sintoma da criança é o modo pelo qual ela encontra para se posicionar “[…] inscreve-se no discurso da família […], o sujeito cria o sintoma para suportar a verdade que lhe apresenta a família, e mais exatamente, a mãe e o pai” (FERREIRA, 1999, p. 58). Portanto, o sintoma é uma resposta à estrutura familiar.  

Contudo, os sintomas da criança trazem em seus significados algo que não pertence à criança, mas àqueles que encarnam para ela os “Outros reais” – frequentemente os pais. “Mesmo que o sintoma se afirme como emergência do Real no corpo da criança, ele é um dizer pertencente ao campo simbólico daqueles que trazem a queixa” (FERREIRA, 1999, p. 55).  

Considera-se, portanto, que no hospital, o trabalho do analista consiste em possibilitar o caminho da destituição à restituição da pessoa hospitalizada na posição de sujeito.  Assim, faz-se relevante a escuta analítica no contexto hospitalar infantil, na medida em que se observa que a criança assujeitada a um sintoma “orgânico” pode também estar sendo afetada por questões da estruturação familiar. O sintoma apresentado pela criança advém como uma resposta a uma questão familiar conflituosa que deixa as mais diversas seqüelas. E, em muitas das vezes, a família desconhece os reais motivos que causam a patologia apresentada pela criança submetida à hospitalização, visto que o sintoma é a expressão de um desejo particular do sujeito e a forma como a criança busca o seu lugar enquanto sujeito.

 

REFERÊNCIAS

BERNARDINO, Leda Mariza Fischer. Sim, Toma! In: BERNARDINO, Leda Mariza Fischer (org.). Neurose infantil versus neurose da criança. Salvador: Algama, 1997. p. 53- 65. 

FERREIRA, Tânia.  A neurose da infantil e a neurose da criança. In:_____. A escrita da clínica: psicanálise com crianças. Belo Horizonte: Autêntica, 1999. p.47-63. 

MOURA, Marisa Decat de (org). Psicanálise e hospital. Rio de Janeiro: Revinter, 1996. 118 p. 


[i] Acadêmica do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva. 

[ii] Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

[iii] MANNOMI, Maud. A criança, sua doença e os outros: o sintoma e a palavra. Rio de Janeiro, Zahar, 1967.

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