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EDIÇÃO 2

E2-06 Os efeitos da punição sobre o comportamento de crianças e adolescentes

Carla Mares Guimarães Souza[i]
Maxleila Reis[ii]

RESUMO
Este artigo tem o objetivo de descrever os subprodutos da punição, destacando como esses podem ser prejudiciais à vida das pessoas, dando maior ênfase aos efeitos produzidos sobre o comportamento de crianças e adolescentes. Para isso, será apresentada uma breve definição sobre o que é a punição e como essa acontece em nossa sociedade. Posteriormente serão oferecidas possíveis alternativas de controle menos prejudiciais ao indivíduo, esclarecendo que a total eliminação do controle comportamental é impossível.  

Palavras-chave: Controle, comportamento, punição, coerção, reforço positivo.

 

“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”  Brecht 

Segundo a visão da filosofia Behaviorista Radical, todo comportamento, seja humano, ou não, é controlado pelas consequências e pelos estímulos antecedentes. Esse controle pode acontecer de formas distintas. Uma das formas é através de um controle não-coercitivo onde os prejuízos para o sujeito são mínimos. Já a outra forma de controlar o comportamento humano é através de um controle chamado pelos analistas do comportamento de coerção, ou controle coercitivo. O controle coercitivo acontece quando o comportamento é controlado de forma aversiva para o sujeito. Sabe-se, portanto, que o controle sobre o comportamento está em toda parte do mundo e isso não há como negar, mas sabe-se também que nem todo controle é coercitivo.  

O comportamento humano pode ser afetado por alguns processos comportamentais; como o reforçamento e a punição, sendo que subdividem-se em: reforçameto positivo e negativo, punição positiva e negativa. O reforçamento vai sempre aumentar a probabilidade de determinado comportamento acontecer e a punição tende a suprimir a ocorrência de tal comportamento (informação verbal)[iii]. 

A coerção, assim como qualquer outro tipo de controle, tem a finalidade de influenciar comportamentos. Porém, quando o controle acontece de forma coercitiva, surgem diversos subprodutos nocivos à vida social e pessoal do indivíduo que tem o seu comportamento punido. Considera-se controle coercitivo, quando o comportamento é controlado por reforçamento negativo ou punição (SIDMAN, 1995).

As crianças e adolescentes abordados neste artigo sofrem os efeitos da punição, efeitos esses que podem acompanhar este sujeito até a sua vida adulta. Principalmente os pais e professores, buscando cessar determinados comportamentos que para eles são considerados inadequados, utilizam de algum meio coercitivo para inibir tal comportamento. Assim que utilizam a punição, o comportamento da criança é interrompido, gerando certo alívio e conforto para aquele que puniu. O que pais e professores muitas vezes não ficam atentos é que os subprodutos gerados pela punição podem marcar a criança por toda sua vida, podendo prejudicar vários aspectos da vida social e pessoal desta criança.  

A punição pode produzir inúmeros efeitos negativos, dentre eles destaca-se o comportamento antissocial. Crianças que passam a apresentar comportamentos agressivos e rebeldes têm em sua história de vida a constante presença da punição como principal forma de controle de seus comportamentos. Essas crianças mostram-se desconfiadas, inseguras e incapazes e, muitas vezes, tornam-se membros de grupos e gangues para se sentirem importantes e reconhecidas. O rendimento escolar também pode se agravar, uma vez que a própria escola pode também ganhar função de estímulo aversivo para as crianças.  

Marinho (1999) relata que além da conduta antissocial, as crianças expostas a um controle por punição também podem manifestar dificuldades escolares, déficit em habilidades sociais, comportamento agressivo e baixa habilidade para solucionar problemas, além de apresentarem sentimento de culpa, ressentimento, entre outros.  

Para Sidman (1995) a punição condicionada é um outro efeito da punição em crianças. Segundo ele, crianças que são educadas a partir do uso da punição costumam agir da mesma forma com outras pessoas, especialmente quando se tornam adultos. Normalmente, crianças que têm seus comportamentos frequentemente punidos tornam-se mais agressivas e mais propícias a fazer da punição a sua forma de controlar comportamentos alheios.  

Outros efeitos da punição, estudados pela Análise do Comportamento, são os comportamentos de fuga, esquiva e contracontrole. Esses efeitos aparecem tanto em crianças como em adultos. “Uma característica comum de ação de quem foi agredido é a fuga. Ela é muito presente, pois quem sofre agressão quer, talvez, antes de mais nada, se livrar dela. Isso é alcançado, muitas vezes, através da fuga.” (NAMO; BANACO, 1999, p. 195).   

Fuga e esquiva não possibilitam aprendizado, pelo contrário, elas paralisam o sujeito. As pessoas que se comportam apenas para fugir ou esquivar de estímulos aversivos normalmente têm dificuldades em se expor a novas contingências, podendo apresentar um comportamento mais retraído e ter dificuldade de relacionamento social. 

O contracontrole é outro efeito da punição, onde aquele que tem o seu comportamento punido irá discriminar uma forma de controlar o comportamento do controlador, passando de vítima do controle para agente controlador. Assim, Sidman (1995) afirma que, para que o contracontrole seja eficaz, é imprescindível reconhecer que existe o controle, com seu amplo componente coercitivo, uma vez que negar a existência do controle não impede que este exista, pelo contrário, pode aumentar ainda mais a sua eficácia.  

Os múltiplos produtos da punição e do reforçamento negativo nos fornecem bases racionais para concluir que estes tipos de controle contribuem para muitos problemas e enfermidades sociais. O sucesso imediatamente visível da coerção muitas vezes parece justificar seu uso, mas os efeitos colaterais não-pretendidos, que algumas vezes aparecem muito tempo depois, anulam o sucesso imediato. No final das contas, a coerção invalida seus próprios objetivos. (SIDMAN, 1995, p. 247).  

Visto os inúmeros subprodutos que podem surgir após o uso efetivo da punição, é importante que as pessoas se conscientizem e busquem novas formas de controle comportamental que possam minimizar os prejuízos à vida daqueles que tem o comportamento punido. Para isso, é importante ter consciência de que a coerção está presente na sociedade para, a partir daí, buscar possíveis alternativas.  

O reforço positivo é uma possibilidade de controle bastante defendida pelos analistas do comportamento. Através do uso do reforçamento positivo, é possível controlar os comportamentos, assim como a coerção, porém, sem a produção dos efeitos nocivos que a coerção pode trazer às pessoas e à sociedade em geral.  

Não precisamos punir para evitar ou impedir as pessoas de agirem mal. Podemos alcançar o mesmo fim com reforçadores positivos, sem produzir os indesejáveis efeitos colaterais da coerção. Uma maneira de impedir que as pessoas façam algo sem puni-las é oferecer-lhes reforçadores positivos por fazerem alguma outra coisa. (SIDMAN, 1995, p. 248).  

Contudo, é necessário certo esforço para que a sociedade abandone a coerção e passe a utilizar métodos não coercitivos para controlar os comportamentos. Sabe-se que a punição e o reforçamento negativo são mais fáceis e rápidos para serem aplicados, mas o resultado alcançado a longo prazo, provavelmente, não será o esperado.

Na clínica de Psicologia são recebidas crianças que apresentam as dificuldades relatadas por Marinho (1999). Essas crianças costumam ter em sua história de vida uma presença significativa da punição como principal forma de controle de seus comportamentos. Por não terem acesso a outro tipo de controle, utiliza-se o controle coercitivo, em especial a punição, como única opção. Assim, com esse modelo de controle comportamental vigente, a sociedade passa a utilizar com alta frequência a coerção, uma vez que essa apresenta resultados mais rápidos, sendo mais acessível ao agente punidor. Porém, sabe-se que este tipo de controle é apenas temporário, já que não possibilita ao sujeito punido um aprendizado.  

É de suma importância que pais e professores, como principais controladores do comportamento da criança, consigam perceber os perigos do uso da coerção na educação dessas. Entendendo que a punição não é o melhor caminho, é preciso que pais e professores descubram novas formas menos aversivas de controlar e modificar o comportamento infantil, possibilitando à criança aprendizado, crescimento e conhecimento de si. 

Apesar do controle coercitivo ser dominante em nossa sociedade, é imprescindível buscar novas formas de controle, entendo que a punição não é o melhor caminho. A Teoria Comportamental pode ser eficiente no sentindo de auxiliar os pais e professores para que esses consigam observar melhor e assim discriminar a forma como estão controlando os comportamentos das crianças. Dessa maneira, conseguindo entender como ocorre e os efeitos que são causados pela punição, pais e professores conseguem alterar a punição pelo reforço positivo, constituindo uma relação mais enriquecedora com os seus filhos e alunos. 

 

REFERÊNCIAS

MARINHO, Maria Luiza. Comportamento infantil anti-social: programa de intervenção junto à família. In: KERBAUY, Rachel Rodrigues; WIELENSKA, Regina Chritina. Sobre Comportamento e Cognição: Psicologia Comportamental e Cognitiva – reflexão teórica à diversidade na aplicação. Santo André-SP: ARBytes, 1999, p. 207 – 215;  

NAMO, Danilo; BANACO, Roberto Alves. Contribuições do modelo de coerção de Sidman para a análise da violência de São Paulo: relação com o contexto sócio-político-econômico. In: KERBAUY, Rachel Rodrigues; WIELENSKA, Regina Chritina. Sobre Comportamento e Cognição: Psicologia Comportamental e Cognitiva – reflexão teórica à diversidade na aplicação. Santo André-SP: ARBytes, 1999, 192 – 206;  

SIDMAN, Murray. Existe algum outro caminho? In: ______. Coerção e suas implicações. Tradução: ANDERY, Maria Amália; SÉRIO, Tereza Maria. São Paulo: Editoral Psy, 1995, p. 246 – 275.


[i] Acadêmica do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

[ii] Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

[iii] Informação extraída da aula didática do professor Ghoeber Morales em Belo Horizonte no dia 24 de abril de 2006.

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