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EDIÇÃO 2

E2-09 Liberdade ou abandono?

Daniel Sampaio Carneiro[i]
Raquel Neto[ii] 

RESUMO
O período do adolescer é uma fase de descobertas e de início da aquisição da independência, sendo necessário o estabelecimento de limites, por parte dos pais, para que os jovens possam aprender o que é certo ou errado e formar uma personalidade saudável. O propósito deste trabalho é abordar o atendimento clínico psicoterapêutico de V., um adolescente que passa por uma fase de dificuldades escolares e, devido ao abandono familiar, traduzido em liberdade excessiva, está lançando-se em experiências destrutivas sob o ponto de vista existencial.  

Palavras-chave: Liberdade. Superproteção. Abandono. Para-o-outro. Estar-em-situação. 

 

V.[iii] é um adolescente de quatorze anos que procura a clínica de psicologia da Newton Paiva com queixa de “problemas escolares”. Corre o risco de ser reprovado devido às baixas notas obtidas em algumas matérias, principalmente matemática e inglês. No primeiro contato com o processo terapêutico, V. aparenta estar bastante apreensivo. Ao iniciar a conversa, atem-se apenas em responder o que lhe é perguntado, com poucas palavras. Mora com os avôs maternos, duas tias e o irmão mais velho. Revela que sua mãe mora com o padrasto e três irmãs mais novas. Sobre o pai biológico, afirma que não tem muito contato, sendo que não o vê há mais ou menos quatro anos.

De acordo com Angerami: 

O sentido da vida é a propulsão motivacional da existência. A pessoa desprovida de sentido de vida pode ser considerada existencialmente morta, sendo de uma forma geral, totalmente entregue ao tédio existencial. O homem, ao longo de sua existência deve renovar o sentido da vida e significação para suas coisas e fatos a cada momento, fazendo disso o bálsamo cicatrizante das chagas existenciais. (ANGERAMI, 1984, p. 19). 

Quando a mãe decidira casar-se novamente, deixou que V. escolhesse com quem iria morar, ao que ele preferiu ficar com os avôs, já que não tinha uma boa relação com o padrasto. Na escola, V. alega ser um aluno pouco participativo, calado e com poucos colegas. Estuda de manhã e diz sentir bastante sono quando vai para a escola.

Angerani (1984) afirma que:  

Ocorre muitas vezes que o paciente simplesmente existe, não tendo uma força realmente vital que possa transformá-lo de maneira significativa. Situações existem onde o paciente precisa libertar-se do confinamento existencial, imposto por si próprio, através de uma percepção inadequada e até mesmo errônea dos fatos da realidade. Nessas situações o paciente torna-se existencialmente insigne, sem qualquer sentido e propulsão de vida. (ANGERAMI, 1984, p. 39). 

Perguntado sobre a relação com o pai, V. fala muito pouco. Parece preferir não tocar nesse assunto. Comenta apenas que o pai é uma figura apagada em sua vida, pois não participa do seu dia a dia e também não o procura para nada. Voltando ao ambiente escolar, V. afirma ser bastante desatento, tendo dificuldades para se concentrar nas atividades escolares. Diz que na maioria das vezes em que se pede para fazer uma atividade, seja em sala de aula ou para casa, ele nunca termina, por este motivo é comum ser chamado à presença do coordenador de seu turno para uma conversa.

Segundo Kierkegaard (1998), 

Assim como talvez não haja, dizem os médicos, ninguém completamente são, também se poderia dizer, conhecendo bem o homem, que nem um só existe que esteja isento de desespero, que não tenha lá no fundo uma inquietação, uma perturbação, uma desarmonia, um receio de não se sabe o quê de desconhecido ou que ele nem ousa conhecer, receio duma eventualidade exterior ou receio de si próprio. (KIERKEGAARD, 1998, p. 203) 

O mesmo autor acrescenta que “num homem sem vontade, o eu é inexistente; mas quanto maior for a vontade, maior será nele a consciência de si próprio”. (KIERKEGAARD, 1998, p. 207)

Segundo Ferreira e Maturano (2002), comportamentos inadequados frequentemente se desenvolvem em contextos de adversidade ambiental, que existem problemas nas relações interpessoais, falta de supervisão, monitoramento, suporte e investimento dos pais no desenvolvimento da criança, incluindo também práticas punitivas e modelos agressivos. O que gera uma inadaptação psicossocial e aumenta a probabilidade do jovem apresentar dificuldades escolares com sérias consequências, como comportamentos antissociais. (Ferreira e Maturano 2002). 

V. comenta que, no período da noite, sai com colegas para a rua e que geralmente fica até a madrugada conversando. Perguntado sobre o posicionamento dos familiares frente a este comportamento, diz que quando sai de casa, ainda no princípio da noite, ninguém coloca objeções e quando retorna as pessoas da casa já estão dormindo. 

O adolescente precisa ampliar sua liberdade em relação aos pais e buscar a sua independência, como sair com amigos, ir a festas, chegar mais tarde em casa, mas precisa cumprir horários, dizer com quem e onde está e estudar. A criança e o jovem precisam de liberdade, mas também necessitam e buscam em seus pais a resposta para uma pergunta primordial: até onde posso ir? Ao testar os pais, está emitindo uma mensagem muito clara: está dizendo que precisa de ajuda para descobrir o que pode e o que não pode fazer e a atitude dos pais será de extrema importância neste aprendizado.  

Impedir a independência progressiva do adolescente, tolhendo-lhe a liberdade, é impedir que ela se transforme numa pessoa consciente, autônoma e com personalidade. Entretanto, esta liberdade não deve ser confundida com permissividade ou abandono. Percebe-se ao escutar V. que há certo distanciamento dele e suas emoções, pois comenta, mas não esboça nenhuma ligação sentimental com os acontecimentos. Ele encontra-se vivendo para-o-outro, perdido nas possibilidades e carente de orientação e limites. 

 […]aquilo a que se refere minha apreensão do outro no mundo como sendo provavelmente um homem é minha possibilidade permanente de ser-visto-por-ele, ou seja, a possibilidade permanente para um sujeito que me vê de substituir o objeto visto por mim. O “ser-visto-pelo-outro” é a verdade do “ver-o-outro”. Assim, a noção do outro não poderia, em qualquer circunstância, ter por objetivo uma consciência solitária e extramundana, na qual sequer posso pensar: o homem se define com relação ao mundo e com relação a mim; é este objeto do mundo que determina um escoamento interno do universo, uma hemorragia interna; é o sujeito que a mim se revela nesta fuga de mim mesmo rumo à objetivação. (SARTRE, 1997, p. 332).

V. participa de festas frequentadas por colegas da escola e vizinhos de bairro, que iniciam na noite e terminam na manhã do dia seguinte. Questionado sobre a ingestão de bebidas alcoólicas, V. confirma que bebe frequentemente nessas festas. A partir desse relato, fica mais claro que nessa fase de formação que reflete a adolescência, V. não possui um modelo familiar que regularize seu cotidiano, impingindo as regras e modulando seu comportamento. V. está andando de skate com os colegas durante a madrugada. Nessa fase os adolescentes procuram por grupos para fortificar sua identidade. 

Eles se mostram morbidamente, por vezes curiosamente, quase sempre, preocupados com o que possam parecer aos olhos dos outros, em comparação com o que eles próprios julgam ser, e com a questão de como associar papéis e aptidões cultivados anteriormente aos protótipos ideais do dia. (ERIKSON, 1976, p. 152).

O que ocorre, portanto, é que V. se lança em experiências com risco eminente de perigo ou até mesmo de morte, talvez como forma de aparecer diante daqueles a quem diz desprezar – sua família. Seria o grito desesperado de alguém que deseja existir? Eu estou aqui e quero ser escutado! Entretanto, a maneira encontrada por ele coloca em risco sua integridade física. 

O indivíduo se faz na medida em que ele é feito pela situação e pelos acontecimentos. Ao mesmo tempo em que ele se define, é definido por outros e nessa mescla de passividade e atividade, precisa reinventar-se sempre. Ele não está feito. O estar-em-situação só tem sentido se o sujeito se faz presente. (ABERASTURY, 1986, p. 28). 

Segundo Erthal (2004), “a família, depósito do conjunto institucional, traduz os conflitos da época”. O indivíduo se define por seu projeto, por ser capaz de fazer e desfazer o que fizeram dele.

As condições familiares e culturais poderão mitigar, favorecer, demorar ou precipitar o desenvolvimento, mas não poderão impedir que o adolescente deva elaborar por si mesmo lutos (…) importantes. (ERTHAL, 2004, p. 27). 

”Ser no mundo significa existir para si e para o mundo, não apenas o mundo da natureza, configurado em termos humanos, mas também, é claro, o mundo social em que o ser com os outros assegura a realidade no modo da coexistência”. (AUGRAS, 1993, p. 21) 

Preocupado em sua ambiguidade, o ser no mundo só pode permanecer como ser do projeto, ou seja, assumindo a existência em sua temporalidade. No caso de V., percebe-se que o motivo inicial de sua busca, motivado pelo baixo rendimento escolar, apenas representava o sintoma que, após ser desvelado, demonstra uma estrutura familiar deficitária, onde as figuras paterna e materna não colocam os limites necessários ao desenvolvimento adequado, traduzindo sua culpabilidade em uma liberdade e superproteção, que coloca em risco o adolescente em sua busca por um lugar no seio familiar.  

 

REFERENCIAS 

ALMEIDA, Fernando José de. Sartre: É Proibido Proibir. 1ª ed.,São Paulo: FTP, 1988, 72 p.

ALVES, Raquel Neto.  Professora da Disciplina de Clínica Fenomenológico- Existencial – Humanista I – Análise Existencial. Aulas ministradas no Centro Universitário Newton Paiva, curso de Psicologia, 9º período, 2º semestre de 2009.  

ALBERASTURY, Arminda. Adolescência. 4ª ed.,Porto Alegre: Artes Médicas, 1986, 246 p.

ANGERAMI, Valdemar Augusto. Existencialismo e Psicoterapia. 1ª ed., São Paulo: Traço Editora, 1984, 88 p. 

AUGRAS, Monique. O ser da compreensão: Fenomenologia da situação de psicodiagnóstico. Petrópolis: Vozes, 1993, 96 p. 

ERIKSON, Erik H. Identidade Juventude e Crise. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1976, 322 p.  

ERTHAL, Tereza Saldanha. Treinamento em psicoterapia vivencial. Campinas: Livro Pleno, 2004, p.158.

 ERTHAL, Tereza Saldanha. Psicoterapia vivencial: Uma abordagem existencial em psicoterapia. Campinas: Livro Pleno, 2004, p. 229. 

MATURANO, Edna Maria; Ferreia, Marlene de Cássia Trivellato Ferreira. (2002). Ambiente familiar e os problemas do comportamento apresentados por crianças com baixo desempenho escolar. Psicologia: Reflexão e crítica, vol. 15, n° 1, Porto Alegre, p.1 -16. 

SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada: Ensaio de Ontologia Fenomenológica. 4ª ed. Rio de Janeiro: Vozes, 782 p.


[i] Acadêmica  do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva. 

[ii]Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

[iii] Nome fictício.

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