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EDIÇÃO 2

E2-12 A disfunção do desejo sexual feminino e a terapia comportamental

Denise Viana de Mello Dutra[i]
Maxleila Reis[ii] 

RESUMO
O presente artigo tem como objetivo demonstrar a relevância da terapia comportamental no tratamento de uma das disfunções sexuais mais presentes em consultórios, a disfunção do desejo sexual. Muitas mulheres só procuram uma clínica psicológica em busca de ajuda quando esta disfunção está comprometendo o seu relacionamento e sua vida. A Terapia Comportamental possibilitará que a mulher identifique eventos ou acontecimentos importantes que podem influenciar em seu desempenho sexual.  

Palavras-chave: Disfunção do desejo. Terapia comportamental. Análise Funcional. 

 

INTRODUÇÃO 

O processo de atividade sexual é muito complexo, visto que tanto os sistemas orgânicos (neurológico, endócrino e vascular) como os aspectos psicológicos devem estar resguardados.  

Na maior parte dos casos, os aspectos psicológicos apresentam grande influência através da cultura, educação e religiosidade. A exposição às contingências socioculturais como família, religião e regras aprendidas a respeito do sexo controlam a respostas sexuais tanto de forma adequada quanto de forma aversiva.  

Apesar da percepção de que as mulheres têm o direito de se satisfazerem sexualmente, a influência sociocultural frequentemente as coloca em uma posição de preencher o papel meramente reprodutivo, retirando, portanto, a permissão do prazer sexual feminino, e com isto trazendo a culpa por sentir tais desejos. 

As mulheres não podem apagar sua sexualidade psicossocial (identidade sexual sendo mulher), mas podem negar a capacidade biofísica da função sexual natural por supressão física ou psicológica, condicionada ou deliberadamente controlada, da relação sexual. (MASTERS;JOHNSON, 1985, p. 162) 

A ausência do desejo sexual faz com que a mulher não se sinta disponível para o sexo, e com isto, quando o parceiro a procura, ela se sente invadida, esquivando-se do contato sexual.

De acordo com Pedrosa (2009), o desejo é a “fase da resposta sexual humana em que estão presentes fantasias sexuais e estímulos visuais, auditivos, olfativos, gustativos e táteis que prepararão o organismo (corpo e mente) para um possível ato sexual”.  

Uma relação sexual disfuncional pode acarretar vários desgastes na vida do indivíduo, visto que ocorre entre outros, o comprometimento da autoestima. Em momentos propícios para a relação sexual, muitas pessoas podem apresentar ansiedade, medo, vergonha ou mesmo fuga desta situação aversiva a elas.  

Uma mulher estará apta aos prazeres sexuais não só porque seu corpo está sendo estimulado, mas também porque sua relação consigo mesma e a relação emocional com o outro permitem-lhe desfrutar de tal entrega. (BARBACH, 1975, apud SILVA, 2001, p.54) 

Uma história de relacionamentos sexuais inadequada pode levar a mulher a diminuir o valor reforçador da atividade sexual. Os estímulos advindos da resposta sexual podem tanto serem enfraquecedores como fortalecedores.   

 O reforço, além de fortalecer o comportamento público que o produziu, aumentando sua frequência, produz efeitos sobre comportamento encobertos relacionados ao pensar e ao sentir. No entanto, a punição e a extinção, além de enfraquecerem, ou seja, diminuírem a probabilidade de ocorrência do comportamento que as produziu, geram “efeitos colaterais” sobre o mundo privado de um individuo.  (SKINNER, 2000 apud Silva, Marinho e Mousinho 2007, p. 147) 

As informações inadequadas sobre a relação sexual podem ser aprendidas através da ausência de repertórios ou por emissão de respostas disfuncionais no contexto sexual. Ou seja, cada pessoa apresenta uma história de aprendizagem efetiva, como também sua própria história sexual, na qual qualquer estímulo pode se tornar tanto funcional como disfuncional no controle da resposta sexual.  

De acordo com Barbach (1975, apud SILVA, 2001, p. 55), várias mulheres têm falsas crenças, medos e expectativas errôneas em relação ao seu potencial sexual. Essas crenças são frequentemente mencionadas em seus grupos terapêuticos, tais como:

– Sexo deve ser algo natural, não precisa ser aprendido;

– Os homens que devem estimular e ensinar as suas parceiras sobre o sexo;

– A importância do sexo é maior para os homens do que para as mulheres.

– Percepção negativa em relação aos genitais e práticas sexuais;

– Medo de rejeição do parceiro por não serem “quentes” na cama.

 (BARBACH, 1975, apud SILVA, 2001, p. 55) 

 

TERAPIA COMPORTAMENTAL

A análise funcional é o principal instrumento do terapeuta comportamental. Essa análise consiste em fazer um levantamento criterioso das variáveis que controlam o comportamento, que nada mais são do que eventos e acontecimentos que fazem parte do cotidiano das pessoas. A partir do levantamento dessas variáveis é possível criar estratégias que melhorem e aumentem o bem-estar do cliente, através do aumento da frequência de comportamentos desejáveis e funcionais, que promovam a satisfação pessoal.  

[…] O objetivo geral da terapia comportamental, pode ser enunciado como o de criar novas condições de aprendizagem de estratégias funcionais de ação e, consequentemente, de avaliação e correção, buscando eliminar o comportamento desajustado. De forma mais específica e elaborada, a Terapia Comportamental implica, portanto, a identificação e a análise das funções que os comportamentos problemáticos têm, para que metas de aprendizagem de outras funções possam ser implementadas e treinadas. O propósito desse processo é o de criar (novas) condições para a aquisição de repertórios diferenciados de comportamento eficiente. (MACHADO, 2002, p. 51) 

Zeglio (2001) diz que através de aprendizados, o cliente irá perceber seus pensamentos, idéias preconcebidas, sentimento de culpa, evitação do contato sexual, fantasias contrárias à intimidade e ao compromisso, que contribuem para o estabelecimento de formas inadequadas de comunicação entre ela e sua parceria sexual.  

Dentro do processo terapêutico, são usadas algumas técnicas comportamentais para possibilitar maior êxito no tratamento que, de acordo com Rodrigues Júnior (2001), elas têm a função de restabelecer o equilíbrio emocional do indivíduo.  

De acordo com Zeglia (2001), a disfunção sexual que mais tem levado mulheres e casais para tratamento em consultórios psicoterápicos é a disfunção do desejo.  É importante que a mulher perceba que é necessário se conhecer, ter informações sobre seu corpo e suas respostas sexuais, como também saber avaliar a história de vida pessoal e social e os impactos desta em sua vida sexual. A assertividade é outro fator primordial, visto que a mulher deve saber expressar de forma espontânea seus pensamentos e sentimentos. 

A terapia comportamental, através da análise funcional, ajudará a mulher a identificar eventos ou acontecimentos importantes em sua história de vida que poderão influenciar no seu desempenho sexual, e a partir deste levantamento, criar estratégias que aumentem sua capacidade sexual funcional, aumentando assim o bem-estar e realização, além de restabelecer o equilíbrio emocional da cliente. 

 

REFERÊNCIAS

BARBACH, L.G. FOR YOURSELF FULFILLMENT OF FEMALE SEXUALITY. Nova York, Doubleday, 1975. apud SILVA, Maria do Carmo de Andrade e. A história da terapia sexual. In: RODRIGUES JR, Oswaldo M. (Org.) Aprimorando a saúde sexual: manual de técnicas de terapia sexual. São Paulo: Summus, 2001. p. 54-57. 

MACHADO, S.A. Sobre terapia comportamental: questões freqüentes da comunidade. In: TEIXEIRA, A.M.S.; MACHADO, A.M.; ASSUNÇÃO, M.R.B.; CASTANHEIRA, S.S. (Org.). Ciência do Comportamento: Conhecer e avançar. Santo André: ESETec Editores Associados, v.1, p. 44-64, 2002. 

MASTERS, WILLIAM H.; JOHNSON, VIRGINIA E. A inadequação sexual humana. Roca, 1985. 364p. 

PEDROSA, João Batista. Terapia comportamental no tratamento da disfunção sexual. Disponível em: <http://www.syntony.com.br/pedrosa/artigos.asp?artMes=ago2006b.asp&submit0306.x=5&submit0306.y=7>. Acesso em 3 mar. 2009. 

RODRIGUES JR, Oswaldo M. O processo terapêutico em sexologia. In:__________. Aprimorando a saúde sexual: manual de técnicas de terapia sexual. São Paulo: Summus, 2001. p. 85-96

SKINNER, BF. Ciência e comportamento humano.  São Paulo: Martins Fontes, 2000. apud SILVA, Antônio Isidro da; MARINHO, Geison Isidro; MOUSINHO, Liana da Silva.  Terapia sexual sob a perspectiva analítico-comportamental. In: Starling, R. R. (Org.). Sobre comportamento e cognição. Santo André: Esetec, 2007. v.19, cap 12, p. 147. 

ZEGLIO, Carla. Inibição do desejo sexual feminino. In: RODRIGUES JR, Oswaldo M. (Org.) Aprimorando a saúde sexual: manual de técnicas de terapia sexual. São Paulo: Summus, 2001. p. 327-335. 


[i] Acadêmica do Curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

[ii] Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva. 

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