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EDIÇÃO 2

E2-13 A Clínica Fenomenológica-Existencial

 

Elce Queiroz Almeida[i]
Raquel Neto[ii]

RESUMO
O presente artigo tem como objetivo abordar questões observadas na prática dos estágios supervisionados a partir dos pressupostos da abordagem Fenomenológica. Aborda, também, os pressupostos de uma relação terapêutica, bem como os principais pontos a serem trabalhados com o cliente nesta relação.   

Palavras–chave: Existencialismo. Humanismo. Relação Terapêutica. Intervenção Terapêutica. 

 

O existencialismo é primeiramente uma corrente filosófica que busca compreender a condição humana. Neste contexto, refere-se a um movimento, concebendo o ser humano como um ser emergente, que não possui uma essência definidora, pois sua existência precede a sua essência.

A máxima do existencialismo é encontrada na afirmação de Jean Paul Sartre “a existência precede a essência”, o que significa dizer que, antes de tudo, o homem cria a essência, dentro da sua própria existência. Isto representa uma parte consistente do que Sartre enfatiza quando diz: “Nós somos o que escolhemos ser” (MAY, 1977, p.132)

Conforme May (1977), a abordagem existencialista não é um sistema de terapia, mas uma atitude frente à terapia; não é um conjunto de novas técnicas, mas uma preocupação com a compreensão da estrutura do ser humano, características estas que devem estar presentes em todas as técnicas. 

A base da relação terapêutica na fenomenologia é a escuta e a fala. A fala permite ao cliente uma melhor compreensão e percepção de si mesmo. O cliente é um ser emergente, em transformação durante todo o processo psicoterápico, considerado um ser responsável por suas escolhas. O terapeuta existencial trabalha com a aceitação da escolha do indivíduo e responsabilidade sob as escolhas. A escuta é uma habilidade básica do terapeuta, que segundo Giovanetti (1993), revela uma postura mais dinâmica, que exige uma atenção maior para aquilo que se passa, uma interrogação sobre o significado mais profundo do que é dito.

A relação terapêutica nada mais é que uma relação humana, na qual se proporciona a ambos os envolvidos – terapeuta e cliente, um meio de aprendizado de si mesmo e para o terapeuta, principalmente, um aprendizado da dinâmica do outro. O psicoterapeuta existencial deve procurar sempre conhecer a si mesmo e trabalhar suas questões pessoais mais conflituosas, para que durante o processo psicoterapêutico possa ocupar o lugar do outro sem emitir juízo de valor. Conforme Erthal (1995), “… o terapeuta deve ser autocongruente e transparente, desejando se envolver com o cliente como uma pessoa completa. Precisa compreender e aceitar o seu “self” tanto quanto o de outros indivíduos”.

Durante o processo psicoterápico, o psicoterapeuta procura focalizar a vivência do cliente como um todo, buscando informação sobre vários contextos da vida do cliente como, por exemplo, saber seu relacionamento com a família, com colegas de trabalho, com amigos e na vida sentimental. Dessa forma, o terapeuta poderá conhecer toda a dinâmica do paciente e focalizar posteriormente em pontos conflituosos que se repetem em diferentes contextos. É preciso salientar que o terapeuta deve examinar e apreender a linguagem verbal e não verbal do cliente, sempre baseado no contexto. Nas palavras de Erthal (1995) “Não se pode não comunicar. O silêncio, a imobilidade ou qualquer outra forma de renuncia já é em si uma comunicação”.

O terapeuta na fenomenologia existencial busca apreender o cliente para realizar intervenções mais assertivas a partir da fala verbal ou não verbal do cliente. Para Erthal (1995), o terapeuta precisa ser capaz de entender seu cliente, compreender suas declarações e responder de maneira que facilite a realização dos objetivos fixados. A partir dessas intervenções, o cliente passará a perceber seus comportamentos e principalmente a sua responsabilidade sobre eles, podendo o terapeuta sinalizar o cliente de suas condutas e comunicação não verbal. 

A partir das intervenções do terapeuta, grande parte dos clientes demonstra resistência, principalmente em momento de tomar decisões assertivas. Segundo Poltster (1977), “O que normalmente é considerado resistência não é apenas uma barreira inerte que deve ser removida, mas uma força criativa para administrar um mundo difícil.” Quando o cliente passa a ser resistente às mudanças, embora demonstre e fale que tem percepção que precisa tomar outras atitudes, ele passa por um processo de confronto consigo mesmo, podendo a princípio não saber diferenciar o que é seu, uma característica sua com a do outro. Um ponto importante observado nos atendimentos clínicos é o contato que o cliente estabelece com o terapeuta e com as pessoas do seu convívio. As experiências de vida, a capacidade de adaptação e a readaptação do cliente serão determinantes para estabelecer a forma de contato do cliente. Todo contato apresenta uma fronteira que deve ser respeitada e, se for da escolha do cliente, expandi-la, o que mostrará um grande crescimento pessoal, mas sempre respeitando o limite. 

A seletividade para o contato, determinada pela fronteira do eu do individuo, irá governar o estilo de sua vida, incluindo a sua escolha de amigos, o trabalho, a geografia, a fantasia, o fazer amor e todas as outras experiências que sejam psicologicamente relevantes para a sua existência. (POLTSTER, 1997, p.122). 

Na prática clínica, encontramos clientes que não conseguem assumir a responsabilidade das suas escolhas, “delegando essa tarefa” para outras pessoas. Ainda vinculado a esse comportamento, vimos clientes totalmente dependentes da atitude e da opinião de outras pessoas. Segundo Rogers (1977), o homem não é autêntico consigo mesmo, nem com a sua própria avaliação orgânica da experiência, pois na busca de preservar a estima de outras, passa a introjetar valores de outros, abandonando os seus. 

Enfim, o terapeuta no processo psicoterápico apreende a mensagem do cliente, deixando de lado seus valores e se insere no mundo do outro, valorizando o contexto e enxergando além das formas de expressão utilizadas pelo cliente. A comunicação entre terapeuta e o cliente ultrapassa o nível da fala, fluindo pelos gestos, tons de voz e expressões corporais. O processo terapêuticofenomenológico existencial tem como base trabalhar com o cliente suas escolhas e suas responsabilidades sob elas, além de conscientizá-lo, abordando conteúdos tragos em sua fala verbal e não verbal, presentificando acontecimentos passados e futuros. Assim, o cliente passará a apreender mais sobre si mesmo e a ser mais responsável com as suas escolhas.

 

REFERENCIA 

GUIMARÃES, C.G. A Angustia de ser em liberdade. “De um curso a um discurso”  – A Clinica em Trans – Formação. 23ª Jornada de Psicologia. Centro universitário Newton Paiva. Belo Horizonte, 2007. 

CARVALHO, L. C. Clinica Existencial Fenomenológica – CAMT. “De um curso a um discurso”  – A Clinica em Trans – Formação. 23ª Jornada de Psicologia. Centro universitário Newton Paiva. Belo Horizonte, 2007. 

ERTHAL, Teresa Cristina S. Treinamento em psicoterapia Vivencial. Petrópolis, RJ. Ed. Vozes, 1994. 

GIOVANETTI, J.P. O encontro na perspectiva terapêutica existencial. Cadernos de Psicologia. V. 1, n. 1, Jun.1993. p.31-34. 

MAY, R. Psicologia Existencial. IN Millow; Teorias da Psicopatologia e Personalidade. RJ, Interamexicana, 1977. 

POLTSTER, E. & M. Terapia Integrada. Editora Summus, 1977.

ROGERS, C. Uma Teoria da Personalidade. IN Millon; T. Teorias da Psicopatologia e Personalidade. RJ, Interamexicana, 1977


[i]Acadêmica  do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

[ii] Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

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