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EDIÇÃO 2

E2-14 O transtorno de pânico além das técnicas: Um estudo sobre o Transtorno de Pânico com foco na Análise do Comportamento.

 

Elisângela Silva Nogueira[i] 
Maxleila Reis[ii]
 

RESUMO
Este trabalho tem por objetivo estabelecer uma discussão referente à prática do Estágio VI e VII em Clínica Comportamental, realizado na Clínica de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva, o qual proporcionou atendimento clínico de clientes que relatavam experimentar reações corporais compatíveis com as manifestações de Transtorno de Pânico. No entanto, é feita uma articulação teórica com foco na Análise do Comportamento e o Transtorno de Pânico. Características desse transtorno de ansiedade são apresentadas conforme definição do DSM IV, além de abordar a ansiedade sob a perspectiva da Teoria Comportamental. A utilização das técnicas também é ressaltada, sendo feita uma discussão quanto à sua utilização, de forma que destaca a importância da Análise Funcional em casos de Transtorno de Pânico.  

Palavras-chave:Transtorno de Pânico. Análise Funcional. Uso das técnicas.

 

“Não considere nenhuma prática como imutável. Mude e esteja pronto a mudar novamente. Não aceite verdade eterna. Experimente.”
B.F. Skinner.  

 

  1. 1.    INTRODUÇÃO: 

O estudo sobre o transtorno de pânico será abordado sob o enfoque da Teoria Comportamental e inclui uso da análise funcional do comportamento. É a partir da identificação das variáveis e explicitação das contingências que controlam o comportamento, que torna-se possível o levantamento de hipóteses acerca da aquisição e manutenção dos repertórios considerados problemáticos e, portanto, possibilita o planejamento de novos padrões comportamentais. (DELITTI, 1997). 

Dessa forma, o objetivo deste trabalho é apresentar a importância da análise das variáveis ambientais (das quais o comportamento é função), além de apresentar o uso das técnicas em casos de pânico. No entanto, é enfatizada a importância de uma análise funcional antes mesmo de se intervir com as técnicas apenas por usar. O não ser para outro.  

O transtorno de pânico é um dos transtornos classificados como de ansiedade, conforme descrito no Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM IV). Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde) a ansiedade é uma das responsáveis pela metade (740 milhões de pessoas) das doenças mentais existentes no mundo e, em 2020, será a segunda maior causa de incapacitação. O transtorno de pânico atinge de 2% a 4% da população mundial, de acordo com a OMS.  

O transtorno de pânico caracteriza-se pela presença de ataques repentinos de ansiedade como taquicardia, sudorese, falta de ar, tremores, tonteiras, pernas bambas, formigamentos entre outros; além de ideação de morte por sufocamento ou ataque cardíaco, loucura, perda de controle e desmaio (BERNIK e RANGÉ, 2001). Ainda conforme os mesmos autores, a experiência de quem tem um ataque de pânico é aterrorizadora, pois há uma enorme ansiedade na expectativa de que algo assim possa acontecer novamente e que da próxima vez não haja escapatória. 

Os ataques de pânico apresentam características específicas de acordo com o DSM IV (1995), sendo definidas da seguinte maneira: 

“A característica essencial de um ataque de pânico é um período distinto de intenso medo ou desconforto acompanhado por pelo menos 4 a 13 sintomas somáticos ou cognitvos. O ataque tem um inicio súbito e aumenta rapidamente, atingindo um pico em geral em 10 minutos ou menos, sendo com frequência acompanhado por um sentimento de perigo ou catástrofe iminente e um anseio por escapar.” (DSM IV, 1995, p. 376). 

Deve-se levar em conta também a preocupação com as consequências e a alteração comportamental significativa provocada por esses ataques. 

Sendo então o pânico um transtorno de ansiedade, cabe ressaltar o constructo de ansiedade na perspectiva da Teoria Comportamental. Conforme Banaco e Zamignani (2005, p.77-78), “a ansiedade tem sido definida como um estado emocional desagradável acompanhado de desconforto somático, que guarda relação com outra emoção – o medo”. Porém, esse estado emocional está atrelado a um evento futuro que muitas vezes não condiz com a realidade, ou não se adequa a uma ameaça real. Os mesmos autores definem a ansiedade como um futuro carregado de aversividade.  

Ainda de acordo com Banaco e Zamignani (2005), a ansiedade é composta por respostas que modificam o ambiente, ou seja, são operantes. Além de ser uma resposta reflexa perante um estímulo aversivo condicionado, a ansiedade seria também composta de respostas operantes de fuga e esquiva de estímulos aversivos incondicionados e condicionados.  

No que se refere ao transtorno de pânico, os mesmos autores (2005) descrevem uma situação de crise da seguinte maneira:

Podemos aqui imaginar uma situação na qual pela primeira vez ocorreu um ataque de pânico. A primeira resposta ansiosa ocorreu como um reflexo incondicionado eliciado pela ativação biológica do organismo, configurando um ataque de pânico. Essa resposta, entretanto, ocorreu em um contexto no qual estavam presentes muitos outros estímulos; além disso, outras respostas (públicas e privadas) do indivíduo poderiam estar sendo emitidas no momento do ataque. Os estímulos que estavam presentes na ocasião do ataque de pânico, bem como as respostas que o indivíduo emitia no momento podem, por associação com o estímulo aversivo incondicionado, adquirir a função de estímulo aversivo condicionado e estímulo discriminativo para a emissão de respostas de esquiva. As funções eliciadoras e discriminativas desses estímulos condicionados, por sua vez, podem ser transferidas para outros estímulos por meio de novos pareamentos, pelo processo de generalização de estímulos, ou ainda por meio da formação de classes equivalentes de estímulos. Vale lembrar que inclusive as respostas que o indivíduo emitia podem ser sujeitas aos mesmos processos, adquirindo a função de estímulos eliciadores e discriminativos condicionados. (BANACO E ZAMIGNANI, 2005). 

Por meio dessa análise, fica revelado o enorme conjunto de estímulos e respostas que podem ter relações com as respostas ansiosas (Banaco e Zamignani, 2005). Portanto, para identificar os estímulos e respostas que estão relacionadas com as respostas ansiosas, cabe fazer uma análise funcional para verificar quais as contingências que controlam o comportamento do cliente.  Na Análise Funcional, cabe analisar em que contexto ou situações uma resposta ocorre, analisar a resposta em si e que consequências elas trazem para a vida da pessoa. 

Delitti (1997) destaca que o comportamento do cliente é o foco primário da análise funcional e que tal comportamento tem uma função. O cliente é alguém que se encontra em uma situação que considera aversiva e procura o terapeuta para que este quadro se altere. Pode-se dizer que a proposta de mudança está na análise das contingências que controlam o comportamento do cliente, ou seja, descrever dentro de quais determinadas circunstâncias o indivíduo responde daquela forma e quais consequências se seguem a essa resposta, de forma a mantê-la (BANACO, 1999). Ainda conforme Banaco (1999) qualquer mudança nas circunstâncias, na resposta ou na conseqüência, modificará toda a relação, e, portanto, o comportamento.

A Análise Funcional possibilita que o terapeuta avalie a história de vida do indivíduo, para entender de que forma sua história de aprendizagem produz efeitos em seus comportamentos atuais. 

O terapeuta poderá então avaliar o repertório existente no passado, a capacidade de discriminação do cliente e as contingências que atuaram na instalação ou não daquele conjunto de padrões comportamentais. A partir desta avaliação, e da análise de sua relação com o ambiente, será possível levantar hipóteses acerca de por que determinados padrões comportamentais permanecem (por regras) mesmo quando as contingências são totalmente diferentes. (DELLITI, 2003, p. 39). 

É a partir da análise funcional que se levantará as hipóteses referentes ao caso e, assim, estabelecer quais são os objetivos terapêuticos e propor relações de contingências como meio de enfraquecer ou eliminar comportamentos do repertório do indivíduo.  

Gongora (2003) destaca que, para saber se existe um problema clínico e se caberia um tratamento, é preciso proceder à análise funcional do comportamento problema. É preciso ver quais variáveis são responsáveis por este comportamento e também quanto ele pode ser desadaptativo para a pessoa. A autora (2003) ainda propõe a análise do repertório total do cliente e não apenas de uma classe isolada de comportamento.  

No transtorno de pânico, pessoas pouco assertivas, com um repertório pouco eficaz para obter reforço social positivo, com o tempo, podem vir a sentirem ansiosas como um possível efeito colateral de um repertório pouco reforçado positivamente. Partindo de tal pressuposto, cabe ressaltar que “o indivíduo não tem o problema dentro dele, não padece da doença. O que interessa é modificar a forma pela qual a relação entre indivíduo e seu ambiente se estabeleceu”. (BANACO, 1999, p.78). 

Percebe-se, portanto, que as intervenções em casos de transtorno de pânico, de acordo com a Teoria Comportamental, estão diretamente atreladas à análise funcional. Cabe analisar qual é a função das crises de pânico na vida do cliente, o que reforça suas respostas de ansiedade e quais são os estímulos relacionados na produção de tais respostas. 

Como meio de intervenção para o transtorno de pânico, cabe destacar também o uso de técnicas. As principais técnicas utilizadas em casos de pânico são: a técnica de exposição; a estratégia A.C.A.L.M.E-S.E.; treino respiratório; registro de crises de pânico e exposição interoceptiva. O objetivo da utilização de algumas técnicas é fazer com que o cliente discrimine quais são as contingências que controlam seu comportamento, para então alterá-las. Porém, algumas ressalvas devem ser feitas quanto ao seu uso, uma vez que para a utilização das técnicas dentro da abordagem Comportamental é fundamental que se faça uma Análise Funcional, isso para avaliar a real necessidade de intervir utilizando as técnicas. 

Dessa forma, Banaco (1999) faz algumas observações quanto à utilização das mesmas em casos clínicos.  

A mesma relação pode ser evocada para a utilização das técnicas comportamentais: a partir de uma descrição comportamental do tipo DSM IV ou CID 10, conhecendo-se a descrição do conjunto de procedimentos denominados técnicas e sabendo-se de sua efetividade em casos de descrição semelhante, pode-se estar utilizando uma técnica que fará com que aquele sintoma (comportamento específico) desapareça, mas a relação comportamental permaneça, sob novas formas de respostas que tenham a mesma função que a anterior.  (BANACO,1999, p.80) 

 O autor ressalta que não se aplica uma técnica por aplicar. Caso isso seja feito, pode haver uma eliminação de um comportamento específico, no caso do transtorno de pânico são as respostas de ansiedade, porém a relação comportamental permanece com a emissão de tais respostas em outros contextos ou situações que tenham a mesma função na vida do indivíduo.

 Portanto, somente uma análise funcional poderá indicar quais intervenções são apropriadas para que a terapia apresente resultados satisfatórios. De acordo com Banaco (1999), as técnicas comportamentais são boas, válidas e úteis; porém precisam ser empregadas num contexto terapêutico, e seu emprego ser decorrente da análise funcional formulada por um profissional habilitado. (BANACO, 1999).

 

  1. 2.    CONCLUSÃO: 

 A Teoria Comportamental não tem seu foco apenas nos sintomas ou comportamentos específicos, ela leva em conta a história de contingências atuais e passadas da pessoa, isso por meio da análise funcional do comportamento, em que se analisam quais são as variáveis ambientais das quais o comportamento é função. A avaliação que se faz do comportamento é global e não apenas do que se apresenta no momento como comportamento problema. Avalia-se, então, todo o repertório comportamental do cliente e as respostas emitidas por ele (sejam elas respondentes ou operantes), buscando entender como foi seu processo de aprendizagem comportamental, independente da queixa que ele traz.  

Por meio da análise das contingências busca-se manter os comportamentos desejáveis, alterar aqueles indesejáveis e proporcionar a aprendizagem de novos comportamentos, a fim de ampliar o repertório comportamental do indivíduo.  

No Transtorno de Pânico, o tratamento não se estabelece apenas na eliminação dos sintomas, busca-se entender qual é a função das crises na vida do cliente, podendo então avaliar reforço positivo produzido ou se esquiva de estímulos aversivos quando em uma situação de crise. Paralelamente, identifica-se o repertório geral de comportamentos do indivíduo. 

Na prática de estágio realizado na Clínica de Psicologia, pacientes em atendimento chegaram com a demanda de Transtorno de Pânico e todos relatavam experimentar reações corporais condizentes com as manifestações desse Transtorno. Em todos os casos realizou-se uma análise das contingências para estabelecer quais seriam as intervenções adequadas, dessa maneira considerando o cliente como único e desenvolvendo intervenções apropriadas para cada um, como meio de desenvolver ou instalar comportamentos, alterar padrões, enfraquecer ou eliminar comportamentos de seus repertórios. O uso das técnicas no tratamento foi mais um instrumento complementar para que se atingisse o comportamento desejável do cliente no processo terapêutico, não estando a Terapia Comportamental embasada especificamente em tais técnicas.

 

REFERÊNCIAS

BANACO, Roberto Alves. Técnicas cognitivo-comportamentais e análise funcional. In: KERBAUY, R.R; WIELENSKA, R.C. (org.). Sobre comportamento e cognição: Psicologia comportamental e cognitiva: Da reflexão à diversidade da aplicação. Santo André: ESETec, 1999, v.4, cap.9, p.75-82. 

DELITTI, Maly. A análise funcional: o comportamento do cliente como foco da análise funcional. In: ______. Sobre comportamento e cognição: A prática da análise do comportamento e da terapia cognitivo comportamental. São Paulo: Arbytes, 1997. cap.6, p.37- 44.  

GONGORA, M. A. N. Noção de Psicopatologia na Análise do Comportamento. In: Carlos Eduardo Costa; Josiane Cecilia Luzia; Heloísa Helena Nunes Sant’Anna. (org.). Primeiros Passos em Análise do Comportamento e Cognição. Santo André: ESETec, 2003, p. 93-109. 

MANUAL diagnóstico e estatístico de transtornos mentais : DSM – IV. 4 ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. xxv, 830 p.

RANGÉ, Bernad, BERNIK Márcio A. Transtorno de Pânico e agorafobia. In: RANGÉ, Bernad (org.). Psicoterapias cognitivo-comportamentais: um diálogo com a psiquiatria. Porto Alegre: Artmed, 2001. cap.9, p.145-149.(OK) 

ZAMIGNANI, Denis Roberto; BANACO, Roberto Alves. Um panorama analítico-comportamental sobre os transtornos de ansiedade. Rev. Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva. São Paulo, vol.7, n.1, p.77-92, junho 2005. Disponível em: http://pepsic.bvs-psi.org.br/pdf/rbtcc/v7n1/v7n1a09.pdf 


[i]Acadêmica do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

[ii]Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

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