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EDIÇÃO 2

E2-20 Eu, prisioneiro de mim…

 

Gisele Eller Diniz[i]
Raquel Neto[ii] 

RESUMO
 O propósito deste trabalho é abordar o atendimento clínico psicoterapêutico de B., um cliente que se apresenta passivo diante da vida, inautêntico em seus atos, prisioneiro e traidor de seus anseios. Bem como apresentar os arcabouços teóricos que sustentam o atendimento em seu transcorrer. 

Palavras-chave: O olhar do outro.  Ser-Para-outro. O espaço. O psicoterapeuta. 

 

B. é um adolescente que tem sua vida permeada por desejos, medos, sentimentos e projetos que, em sua fala, apresentam-se cada dia mais distantes. Ele se apresenta para a psicoterapia a pedido da mãe, a qual relata que B. tivera uma crise, na qual se filmou apunhalando seus cadernos com uma tesoura. A queixa da mãe se apresenta também com relação aos estudos, dizendo que B. tem se mostrado desinteressado, vindo até a repetir o ano.

No primeiro encontro, B. passa a maior parte do tempo em silêncio. Diz pouco de si. No decorrer das sessões é que vai se permitindo dizer um pouco mais sobre si e a família, sobre a morte do irmão que acontecera quando este era ainda muito criança. Ele diz não temer a morte, porém não o diz de forma direta. Seus sentimentos são um emaranhado de desejos em lançar-se na desconhecida estrada de conhecer-se e tomar consciência de seu existir no mundo, e, ao mesmo tempo, de manter-se submerso, aprisionado nos desejos de sua mãe, a qual mostra-se superprotetora e, ao mesmo tempo, desligada, distante de seu filho caçula.  

A perda de um irmão, ainda na infância, empurrou-o em um abismo de dúvidas sobre o seu lugar no mundo, no seio familiar. Desde então, o outro que permite o conhecimento e o sentido da existência desapareceu para B. em meio ao inconformismo da mãe diante da perda do filho do meio. Sua mãe não conseguira elaborar o luto. Para Cancello (1991, p.34), a morte de alguém nunca é assimilada no ato da parada fisiológica. Essa pessoa fazia parte da vida de outras, de seus projetos. Depois de sua morte, há necessidade de um tempo para reestruturação de quem fica, sendo o sentido do luto, reconciliar-se com o morto, retirá-lo das perspectivas do futuro, integrá-lo na história dos vivos como um capítulo encerrado. Pelo relato da mãe, ela sente-se culpada por não estar presente no momento que o filho fora atropelado, o que a leva a carregar uma culpa da qual não consegue jamais se redimir. 

B. precisa lutar desesperadamente para encontrar sua identidade e não ocupar o lugar do irmão que morreu, lugar este que, ao mesmo tempo, B. parece procurar ocupar. Neste sentido, Cancello (1991, p.32) vai dizer que B. pode estar sendo tratado como um ser genérico. Segundo Almeida (1991, p.31), B. tem espaço para consumir, tempo para gostar daquilo que todos gostam no meio familiar, mas não tem tempo e espaço para existir autenticamente dentro e fora deste meio. Ainda Almeida (1991, p.31) diz que existir tem sua origem etimológica na palavra latina “ex-sistere”, que quer dizer “estar em pé, fora de”. Isto é, poder observar o próprio ser como se estivesse fora dele. B. pensa em si mesmo, em seus poucos projetos apresentados ao longo dos atendimentos psicoterápicos, no mundo que lhe vai fazer, no corpo que é ele, o qual deseja num desespero mudo, modificar. Ele expressa o desejo de pintar o cabelo de vermelho, porque assim, segundo B., ele será igual aos outros adolescentes, será notado entre eles e, talvez quem sabe até mesmo por sua própria família. A outra forma de ser notado seria vestindo-se completamente de preto. Sua mãe impõe-se a essa vontade alegando que “Somente meninos rebeldes, que os pais não ligam é que andam assim!”. B. procura desesperadamente se encontrar e ser encontrado no olhar do outro.  

[…] se projeto realizar a unidade com o outro, significa que projeto assimilar a alteridade do outro enquanto tal, como minha possibilidade própria. Com efeito, trata-se, para mim, de fazer-me ser adquirindo a possibilidade de adotar sobre mim o ponto de vista do outro. Mas não se trata de adquirir uma pura faculdade abstrata de conhecimento. Não é da pura categoria do outro que projeto me apropriar: tal categoria não é concebida, nem mesmo concebível. Mas, por ocasião da experiência concreta, padecida e ressentida do outro, é este outro concreto, como realidade absoluta, que almejo incorporar em mim mesmo, na sua alteridade. (SARTRE, 1997, p.455). 

B. mistura-se à realidade em que se apresenta, acomodando-se muitas vezes a esta. Há momentos em que ensaia um movimento para modificar seu modo de existir, mas logo este lhe é novamente podado por sua vontade de agradar a mãe. Sartre (1997, p. 454) vai dizer que tudo vale para o outro. Esse outro que desvela minha nudez, me vê como jamais me verei. Onde meu ser-para-outro me aparece, sendo eu por este responsável na medida que o outro me fundamenta. 

Para a mãe, B. é o filho que tem problemas na escola, que não tira boas notas, e cujo desejo de pintar o cabelo é tido como um ato de rebeldia, desleixo. B. se torna assim, autor e traidor de seus desejos, ao passo que acaba por existir para-o-outro e não com-o-outro. Para B. o possível vai tão somente até os limites impostos por sua mãe, os quais, mesmo que relutante por um momento são por ele abraçados. Ao mesmo tempo em que deseja contrariar a mãe, busca manter-se o mesmo aos olhos desta. 

[…]este existir, escolhido e criado – ou a passagem do possível à realidade –, é feito usando-se a liberdade. Está nas mãos de cada um. É seu privilégio.

Isto não quer dizer que todos tenhamos uma existência autêntica pelo fato de sermos homens. Ser autêntico é sempre buscar a identidade entre nossos valores e nossa atividade: é fazer aquilo em que acreditamos.

É no processo livre de escolha, a cada, de nossa essência que construímos a existência humana. Escolhemos nossa essência ao procedermos à escolha do personagem que pretendemos ser. (ALMEIDA, 1991, p.35). 

É na realização de sua própria vida, existência concreta e na sua história pessoal que o homem constrói suas características, sua essência. É Também nessa mesma história que cada um de nós as remodela, aperfeiçoa, cria…, diz Almeida (1991, p.44). 

B., desta forma, encontra-se paralisado por uma ideia estreitada do mundo. Não vai adiante com seu projeto de modificar-se em sua aparência, ao mesmo tempo em que a relação com sua mãe tornou-se um ninho onde ninguém se transforma. Ele segue vivendo de maneira inautêntica, tentando salvar a mãe de seu luto interminável. Enquanto sua mãe mantém-se cada vez mais reclusa em seu luto, sendo aquela que não pode ser contrariada. Não há entre eles, segundo Cancello (1991, p.33), a emoção compartilhada, o sinal mínimo indicando a aproximação máxima. A ele resta a súplica de ser notado, capturado pelo olhar do outro que não o nota. A mãe o pressiona o tempo todo para que estude mais. Ele tem raiva disso, mas ao mesmo tempo, deseja agradá-la. 

Sobre o olhar do outro, Sartre (1997, p.327) nos diz que minha apreensão do outro como objeto, sem sair dos limites da probabilidade e por causa desta probabilidade mesmo, remete, por essência, a uma captação fundamental do outro, na qual este já não irá se revelar a mim como objeto. E é deste lugar de objeto, de um sem lugar, rejeitado e sem espaço, que B. procura sair.  

[…] aquilo a que se refere minha apreensão do outro no mundo como sendo provavelmente um homem é minha possibilidade permanente de ser-visto-por-ele, ou seja, a possibilidade permanente para um sujeito que me vê de substituir o objeto visto por mim. O “ser-visto-pelo-outro” é a verdade do “ver-o-outro”. Assim, a noção do outro não poderia, em qualquer circunstância, ter por objetivo uma consciência solitária e extramundana, na qual sequer posso pensar: o homem se define com relação ao mundo e com relação a mim; é este objeto do mundo que determina um escoamento interno do universo, uma hemorragia interna; é o sujeito que a mim se revela nesta fuga de mim mesmo rumo à objetivação. (SARTRE, 1997, p. 332). 

B. quer ter um significado no olhar do outro, para o outro. B. fala repetidamente sobre isso. Na forma de seu discurso, percebem-se as expressões que se repetem e os gestos. Alguns chamam a atenção pelo modo como são expressos – uma cruzada de braços, o olhar fixo no meu, esperando por uma palavra libertadora de minha parte, até mesmo um gesto amigo.

Sobre o diálogo psicoterapêutico: 

O diálogo, em psicoterapia, difere radicalmente de um falar “qualquer”. Não é um simples “bate-papo”, como querem fazer alguns de seus detratores.

No processo psicoterápico a palavra aprisionadora é denunciada, e são criadas as condições para proferir a palavra libertadora. O aprisionamento aponta para o lugar onde a libertação pode acontecer – assim como a mentira só pode existir onde há verdade. (CANCELLO, 1991, p.45-46).

B. fala, algumas vezes até repetidamente, sobre seus planos de pintar o cabelo de vermelho, vestir-se de preto, ver-se livre da casa onde não há espaço para ele. Raramente reflete sobre si próprio. E o terapeuta? Segue o fio de B., de seu discurso do outro, de si, no correr do tempo. Procura facilitar o emergir dos conflitos deste que busca apropriar-se de si mesmo. Não é possível saber o significado que B. dará, no futuro, à sua própria vida. Se ele vai alçar asas ao desconhecido e constante vir-a-ser. Confiar nele é o que se pode fazer. 

O psicólogo, no lugar da escuta, na compreensão do relato daquele que, muitas vezes tomado de angústia, vai ao seu encontro, pode apreender os pontos de desordem ou de estagnação, facilitando o discurso do cliente e permitindo que os aspectos conflitivos emerjam. Este emergir na fala do cliente, ao se deixar afetar pela falado terapeuta, pode proporcionar o desvelamento, mantendo a questão pela angústia. Desta forma, pela reflexão de si mesmo, o cliente pode descobrir-se em liberdade na escolha de suas possibilidades. (FEIJOO, 2000, p. 18).

Os existencialistas afirmam que a essência humana não existe nas idéias, nem é dada gratuitamente ao homem. A essência humana é construída por cada um de nós no próprio existir, no engajar-se em seu projeto existencial, procurando seu caminho. (Almeida, 1991, p.34).


REFERENCIAS 

ALMEIDA, Fernando José de. Sartre: É Proibido Proibir. 1ª ed.,São Paulo: FTP, 1988, 72 p. 

ALVES, Raquel Neto.  Professora da Disciplina de Clínica Fenomenológico- Existencial – Humanista I – Análise Existencial. Aulas ministradas no Centro Universitário Newton Paiva, curso de Psicologia, 9º período, 2º semestre de 2009.  

AUGRAS, Monique. O ser da compreensão: Fenomenologia da situação de psicodiagnóstico. Petrópolis: Vozes, 1986, 96 p.  

BATALHA, Wilson de Souza Campos. A Filosofia e a Crise do Homem. 1ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 459 p. 

CANCELLO, Luiz A. G. O Fio das Palavras. 2ª ed. São Paulo: Summus, 1991, p. 83. 

FEIJOO, Ana Maria Lopez Calvo. A Escuta e a Fala em Psicoterapia: Uma Proposta Fenomenológico-Existencial. 1ª ed. São Paulo: Vetor, 2000, p. 18.

SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada: Ensaio de Ontologia Fenomenológica. 4ª ed. Rio de Janeiro: Vozes, 782 p. 


[i] Acadêmica  do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

[ii]Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

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