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EDIÇÃO 2

E2-22 Sobre o narcisismo: o caso Joana

 

Graciane de Carvalho Fonseca[i]
Catarina Angélica Santos[ii] 

RESUMO
Neste breve artigo, busca-se apresentar alguns fragmentos de um caso clínico atendido na Clinica de Psicologia Newton Paiva, por um período de um ano, e analisá-lo à luz da teoria psicanalítica de Freud.

Palavras-chave:Ideal do eu. Narcisismo. Desejo. 

 

Joana[iii], vinte e um anos, procura atendimento na clínica, pois deseja trabalhar a respeito das decisões que precisa tomar diante de situações da sua vida pessoal e profissional que a aborrecem. Trabalha como empregada doméstica em casa de família e relata a não satisfação com este afazer. Deseja muito que as coisas mudem tanto no campo profissional quanto pessoal e que ela possa mudar de emprego muito brevemente. 

Durante as sessões, Joana se posiciona como autossuficiente e afirma que deseja um emprego em outras áreas que não seja a de doméstica, pois pensa que tem capacidade para desenvolver outros trabalhos. Alega, também, que quando conseguir um novo emprego será difícil sua atual patroa a substituir em seu trabalho por outra pessoa, declarando que não há ninguém que consiga fazer um trabalho tão bem feito quanto o seu. Ela se diz, em vários momentos, ser uma pessoa insubstituível no trabalho, chegando muitas vezes próxima da arrogância. 

Esse relato nos faz pensar na teoria freudiana do narcisismo, a qual nos ateremos neste artigo, para sustentar a discussão clínica do “caso Joana”.  

Freud no texto intitulado “Sobre o narcisismo: uma introdução”, de 1914, discute a teoria do narcisismo e distingue dois tipos, a saber: narcisismo primário e narcisismo secundário. O primeiro tipo refere-se ao modo de satisfação da libido chamado de autoerotismo, esse último é conceituado como o prazer que o órgão retira de si mesmo, ou seja, do próprio corpo como “chupar” dedo, no caso do bebê. As pulsões autoeróticas, ainda que parciais, funcionam de forma independente e procuram cada qual por si – oral, anal, escópica, invocante – a satisfação no corpo do infans. Nesse período, ainda não existe uma unidade comparável ao eu, nem uma real diferenciação do mundo. O funcionamento psíquico da criança é indiferenciado, completo, sem faltas e é como se o bebê pudesse dizer: “eu me basto a mim mesmo”. Se tal narcisismo, por um lado, faz parte da constituição subjetiva de todos nós, por outro, a exacerbação do mesmo pode conduzir a patologias graves como é o caso da psicose. 

Freud (1914) destaca a posição dos pais na constituição do narcisismo primário, que é o primeiro tempo da constituição da subjetividade dos filhos. Ele nos fala que o amor dos pais pelos filhos é o narcisismo destes renascido e transformado em amor objetal. Ainda segundo Freud (1914), o narcisismo primário representaria, de certa forma, uma espécie de onipotência que se cria no encontro entre o narcisismo do bebê e o narcisismo dos pais.  

“Se prestarmos atenção à atitude de pais afetuosos para com os filhos, temos de reconhecer que ela é uma revivência e reprodução de seu próprio narcisismo, que há muito abandonaram”. (Freud, 1914, p. 97). 

No caso do narcisismo secundário há dois momentos: primeiro há um investimento nos objetos e depois esse investimento retorna para o Eu (ego). Quando o bebê já é capaz de diferenciar seu próprio corpo do mundo externo, ele identifica suas necessidades e quem ou/o que as satisfaz. O sujeito concentra em um objeto suas pulsões sexuais parciais, há um investimento objetal, que em geral se dirige à mãe e ao seio como objeto parcial. Com o tempo, a criança percebe que ela não é o único objeto de desejo da mãe, ou seja, que ela não é tudo para o Outro. Então, o desejo da criança consiste em fazer-se amar pelo Outro, em agradá-lo para não correr o risco de perder seu amor, mas isso só pode ser feito através da satisfação do ideal do eu.

Se pensarmos nos dois tipos de narcisismo descobertos por Freud, iremos localizar no caso de Joana o narcisismo secundário de modo muito exacerbado. Esse tipo de narcisismo constitui a subjetividade, conforme dito acima. No entanto, para que se avance na constituição, é necessário que o sujeito vá além. A analisanda se mostra sempre disponível para o trabalho (quer sempre agradar o Outro) e julga-se sempre capaz de ser a única a fazer tudo da melhor maneira possível, de modo ordenado e perfeito. Pode-se pensar que, inconscientemente, a satisfação sentida pela analisanda com o trabalho satisfaz também o Outro, e isto é uma forma de ela não se deparar com a falta. Ou seja, o sujeito busca recuperar através do ideal-de-ego, a perfeição perdida de outrora que era o ego ideal. A esse respeito Freud no diz:

O narcisismo do indivíduo surge deslocado em direção a esse novo ego ideal, o qual como o ego infantil, se acha possuidor de toda perfeição e valor. Como acontece sempre que a libido está envolvida, mais uma vez aqui o homem se mostra incapaz de abrir a mão de uma satisfação de que outrora desfrutou. (Freud, 1914, p.100). 

Joana, em seu discurso, demonstra ser possuidora de perfeição e valor e isso aparece em vários momentos de sua análise. Acredita que ninguém pode ser melhor que ela e aqueles que a perdem estão em desvantagem em relação àqueles que sabem conquistá-la. Tal idéia pode ser observada quando Joana encontra um ex-namorado no shopping. Na ocasião, o rapaz estava acompanhado da esposa, filho e, aparentemente, não percebeu sua presença. A analisanda, porém, não admitiu à analista que se sentiu triste com o reencontro e que desejava estar ao lado daquele rapaz. Ainda, depois de reconhecer tal desejo[iv], denega-o afirmando que se alguém saiu perdendo, nessa história, foi ele que nunca encontrará outra pessoa “a sua altura”. Nota-se, no discurso da analisanda, sua indisposição em renunciar à perfeição narcísica de sua infância, conforme nos indica Freud em seu texto. O sujeito não quer lidar com a falta, esta é colocada no Outro para que o primeiro não seja obrigado a sentir o mal estar provocado por esse encontro, como se pode verificar no caso de Joana. Para Freud, o ego ideal é alvo do amor de si mesmo (self-love). E é esse amor que foi desfrutado na infância pelo ego real. Isso é o que nos demonstra Joana quando se depara com a realidade da perda do ex-namorado e com a saída do emprego para melhorar sua condição pessoal e vida profissional. 

O que nos chama a atenção é que a analisanda resiste em abrir mão de uma satisfação que outrora desfrutou. O que se pode verificar é que Joana não se dispõe facilmente em renunciar à perfeição narcísica de sua infância. No entanto, ela se depara com uma questão em sua análise (a sua implicação como sujeito do desejo) que é a de ter de “arredar pé” desse lugar de completude para enfrentar os caminhos obscuros de seu desejo. Nas sessões analíticas ocorridas no final do semestre, Joana se refere ao seu medo de precisar pedir ajuda aos seus familiares e/ou namorado. Ela pensa que eles deveriam oferecer ajuda a ela. Também queixa-se que seus familiares não percebem sua necessidade de apoio para sair do emprego, ou seja, da casa onde mora e ter seu próprio domicílio. Parece-nos que a tão precavida e decidida iniciativa de Joana de sair do emprego atual e procurar outro, na tentativa de diversificar seu campo de trabalho, a remete a uma mudança de posição de seu sintoma. Isso pôde ser constatado nos atendimentos desse semestre. Ela pára de se queixar do Outro com tanta veemência e busca trilhar novos caminhos, mas para isso precisa “abrir mão” do narcisismo exacerbado para enxergar que o outro também deseja. O que todo analista pode constatar é que isso não se faz impunemente.

 

REFERENCIAS 

FREUD, Sigmund. Sobre o Narcisismo. Uma introdução (1914). Edição Standart das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1974, p. 81-108. Vol.XIV 

LAPLANCHE, Jean. Vocabulário de Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes. 1992.  


[i] Acadêmica do Curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

[ii] Professora e supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

[iii] Nome Fictício 

[iv] O desejo é a realização de um anseio inconsciente. O desejo é, antes, de mais nada, o desejo inconsciente e a realização de desejo. O desejo do inconsciente tende a realizar-se restabelecendo, segundo as leis do processo primário, os sinais ligados as primeiras vivências de satisfação. O desejo está ligado a signos infantis indestrutíveis. (Laplanche, 1992. p. 113)

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