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EDIÇÃO 2

E2-27 Obesidade: um expressar silencioso na clínica psicanalítica

Itavahn de Freitas Alves[i]
Nádia Laguardia[ii] 

RESUMO
O presente trabalho tem como objetivo apresentar uma reflexão sobre a obesidade, que acompanha, de forma velada, as queixas de alguns analisandos. Para realizar esta reflexão, foi utilizada a teoria psicanalítica que destaca, para além do corpo orgânico, sua dimensão pulsional.  

Palavras-chave: Obesidade. Psicanálise. Pulsão.  Fase oral.  Freud. 

 

  1. INTRODUÇÃO 

Para que tanta gordura em uma só pessoa? Por que comer tanto? 

O autor do presente trabalho, durante seus estágios clínicos curriculares para graduação como psicólogo, constatou que, além das diversas queixas sobre relacionamentos amorosos, conflitos familiares, profissionais e pessoais, havia certa prevalência de uma queixa menos explícita, que se esboçava de forma silenciosa, velada, através do corpo.

Surgiu então o interesse em investigar a obesidade e suas implicações psíquicas. Para a psicanálise, um corpo que se enche de comida, de forma a exceder o limite da necessidade, desrespeitando a saciedade, parece querer preencher algo que se faz incompleto. Conforme Ana Paula Varela, em: Você tem fome de quê (2006):         

O homem insatisfeito, nas suas dúvidas, tenta alcançar o controle sobre os eventos que compõem sua vida, formulando e oferecendo infinitos significados a várias questões. Estas, silenciosas, tomam formas diferenciadas, tomam corpo, se mostram pelo corpo. 

 

  1. REVISÃO DE LITERATURA 

A obesidade envolve as dimensões fisiológicas, sociais e psíquicas. Para esse trabalho, buscamos recortar a dimensão psíquica da obesidade, que tem origem no processo de construção do corpo, segundo a teoria psicanalítica. Segundo Sigmund Freud, em Os instintos e suas vicissitudes (1915), nada existe que nos impeça de subordinar o conceito de pulsão ao de estímulo e de afirmar que uma pulsão é um estímulo aplicado à mente. Existem evidentemente outros estímulos à mente, além daqueles de natureza pulsional, estímulos que se comportam muito mais como fisiológicos.  

Fragmento de um caso clínico: “ a ansiedade é tão grande que não tenho vontade de fazer nada… o telefone e a companhia me dão pavor… não consigo me organizar… fico exausta o dia todo, em casa não consigo nem me impor com meu marido… não tenho paciência com os meus filhos, a única coisa que me dá prazer na vida é quando começo a comer e como até ficar embuchada ou até ficar com azia” 

Uma pulsão, para Freud (1915), jamais atua como uma força que imprime um impacto momentâneo, mas sempre como um impacto constante. Além disso, visto que ela incide não a partir de fora, mas de dentro do organismo, o melhor termo para caracterizar um estímulo pulsional seria ‘necessidade’. O que elimina uma necessidade é a ‘satisfação’. Isso pode ser alcançado apenas por uma alteração adequada da fonte interna de estimulação. 

Freud (1915) pede que imaginemo-nos na situação de um organismo vivo quase inteiramente inerme, até então sem orientação no mundo, que esteja recebendo estímulos em sua substância nervosa. Esse organismo muito em breve estará em condições de fazer uma primeira distinção e uma primeira orientação. Por um lado, estará cônscio de estímulos que podem ser evitados pela ação muscular (fuga); estes, ele os atribui a um mundo externo. Por outro, também estará cônscio de estímulos contra os quais tal ação não tem qualquer valia e cujo caráter de constante pressão persiste apesar dela. Esses estímulos são os sinais de um mundo interno, a prova de necessidades pulsionais. A substância perceptual do organismo vivo terá assim encontrado, na eficácia de sua atividade muscular, uma base para distinguir entre um ‘de fora’ e um ‘de dentro’. 

Segundo Freud (1915), chegamos assim à natureza essencial das pulsões, considerando em primeiro lugar suas principais características – sua origem em fontes de estimulação dentro do organismo e seu aparecimento como uma força constante – e disso deduzimos uma de suas outras características, a saber, que nenhuma ação de fuga prevalece contra elas. 

Conforme Freud (1915), o sistema nervoso é um aparelho que tem por função livrar-se dos estímulos que lhe chegam, ou reduzi-los ao nível mais baixo possível; ou que, caso isso fosse viável, se manteria numa condição inteiramente não-estimulada. Não façamos objeção, por enquanto, à indefinição dessa idéia e atribuamos ao sistema nervoso a tarefa falando em termos gerais – de dominar estímulos. Vemos então até que ponto o modelo simples do reflexo fisiológico se complica com a introdução das pulsões. Os estímulos externos impõem uma única tarefa: a de afastamento; isso é realizado por movimentos musculares, um dos quais finalmente atinge esse objetivo e, sendo o movimento conveniente, torna-se a partir daí uma disposição hereditária.  

Assim, para Freud (1915) não podemos aplicar esse mecanismo aos estímulos pulsionais, que se originam de dentro do organismo. Estes exigem muito mais do sistema nervoso, fazendo com que ele empreenda atividades complexas e interligadas, pelas quais o mundo externo se modifica de forma a proporcionar satisfação à fonte interna de estimulação. Acima de tudo, obrigam o sistema nervoso a renunciar à sua intenção ideal de afastar os estímulos, pois mantêm um fluxo incessante e inevitável de estimulação.  

Freud concluiu que as pulsões e não os estímulos externos constituem as verdadeiras forças motrizes por detrás dos progressos que conduziram o sistema nervoso, com sua capacidade ilimitada, a seu alto nível de desenvolvimento atual. Naturalmente, nada existe que nos impeça de supor que as próprias pulsões sejam, pelo menos em parte, precipitadas dos efeitos da estimulação externa, que no decorrer da filogênese ocasionaram modificações na substância viva.

O mesmo verificou que, até a atividade do aparelho mental mais desenvolvido está sujeita ao princípio de prazer, isto é, que ela é automaticamente regulada por sentimentos pertencentes à série prazer-desprazer. Onde não se pode rejeitar a hipótese ulterior, segundo a qual esses sentimentos refletem a maneira pela qual o processo de dominação de estímulos se verifica – certamente no sentido de que os sentimentos desagradáveis estão ligados a um aumento e os sentimentos agradáveis a uma diminuição do estímulo.  

Freud sugeriu que, se agora nos dedicarmos a considerar a vida mental de um ponto de vista biológico, uma pulsão nos aparecerá como sendo um conceito situado na fronteira entre o mental e o somático, como o representante psíquico dos estímulos que se originam dentro do organismo e alcançam a mente, e como uma medida da exigência feita à mente no sentido de trabalhar em consequência de sua ligação com o corpo. 

Sigmund Freud em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1915), estabeleceu o conceito da libido como uma força quantitativamente variável que poderia medir os processos e transformações ocorrentes no âmbito da excitação sexual. Diferenciou essa libido, no tocante a sua origem particular, da energia que se supõe subjacente aos processos anímicos em geral, e assim lhe conferiu também um caráter qualitativo. Ao separar a energia libidinosa de outras formas de energia psíquica, deu-se expressão à premissa de que os processos sexuais do organismo diferenciam-se dos processos de nutrição por uma química especial.  

A análise das perversões e das psiconeuroses levou Freud à compreensão de que essa excitação sexual é fornecida não só pelas chamadas partes sexuais, mas por todos os órgãos do corpo. 

Para Freud (1915) essa libido do ego, no entanto, só é convenientemente acessível ao estudo analítico depois de ter sido psiquicamente empregada para investir os objetos sexuais, ou seja, quando se converteu em libido do objeto. Vemo-la então concentrar-se nos objetos, fixar-se neles ou abandoná-los, passar de uns para outros e, partindo dessas posições, nortear no indivíduo a atividade sexual que leva à satisfação, ou seja, à extinção parcial e temporária da libido.

Freud declara que podemos ainda inteirar-nos, no tocante aos destinos da libido, de que ela é retirada dos objetos, mantém-se em suspenso em estados particulares de tensão e, por fim, é trazida de volta para o interior do ego, assim se reconvertendo em libido do ego. Em contraste com a libido do objeto, também chamamos a libido do ego de libido narcísica. Do ponto de observação da psicanálise podemos contemplar, como que por sobre uma fronteira cuja ultrapassagem não nos é permitida, a movimentação da libido narcísica, formando assim uma idéia da relação entre ela e a libido objetal.  

A libido narcísica ou do ego parece-nos ser o grande reservatório de onde partem as catexias de objeto e no qual elas voltam a ser recolhidas, e a catexia libidinosa narcísica do ego se nos afigura como o estado originário realizado na primeira infância, que é apenas encoberto pelas emissões posteriores de libido, mas no fundo se conserva por trás delas (FREUD, 1905, p.223).

A partir da noção de zona erógena e da organização da sexualidade infantil, Freud desenvolveu a noção de organização da libido, com fases da libido. O conceito de fase tem que ser pensado com a idéia de relação de objeto, relação que a criança estabelece com o mundo em determinado momento.

A primeira fase definida por Freud é também a que vamos nos deter, para permanecermos no foco de nossa investigação. Esta fase é a oral, a primeira fase da evolução sexual pré-genital. 

A primeira dessas organizações sexuais pré-genitais é a oral, ou, se preferirmos, canibalesca. Nela, a atividade sexual ainda não se separou da nutrição, nem tampouco se diferenciaram correntes opostas em seu interior. O objeto de uma atividade é também o da outra, e o alvo sexual consiste na incorporação do objeto – modelo do que mais tarde irá desempenhar, sob a forma da identificação, um papel psíquico tão importante. Como resíduo dessa hipotética fase de organização que nos foi imposta pela patologia podemos ver o chuchar, no qual a atividade sexual, desligada da atividade de alimentação, renunciou ao objeto alheio em troca de um objeto situado no próprio corpo (FREUD, 1905, p.204). 

Freud esclarece que o prazer está ligado à ingestão de alimentos e à excitação da mucosa dos lábios. O objetivo sexual consiste na incorporação do objeto, ou seja, essa é a forma de o bebê relacionar-se com o mundo. Isso se apresenta como protótipo para identificações futuras, pois é a partir da significação comer-ser/comido que se caracterizará a relação de amor com a mãe. Essa fase não se caracteriza somente por uma determinada parte do corpo, e sim, por um modo de relação de objeto: a incorporação.

O ato de sugar o seio que aparece no lactente, para Freud pode continuar até a maturidade ou persistir por toda a vida. Esse ato consiste na repetição rítmica de um contato de sucção com a boca (os lábios), do qual está excluído qualquer propósito de nutrição. Uma parte dos próprios lábios, a língua ou qualquer outro ponto da pele que esteja ao alcance – até mesmo o dedão do pé – são tomados como objeto sobre o qual se exerce essa sucção. 

Freud afirma que na meninice, o sugar o seio é frequentemente equiparado aos outros “maus costumes” sexuais da criança. Parece-lhe que a concatenação de fenômenos que se pode discernir através da investigação psicanalítica, autoriza a ver no sugar uma manifestação sexual e a estudar justamente nele os traços essenciais da atividade sexual infantil. 

Segundo Freud, temos a obrigação de fazer um exame aprofundado desse exemplo. Como traço mais destacado dessa prática sexual, salientemos que a pulsão não está dirigida para outra pessoa; satisfaz-se no próprio corpo, é autoerótica, para dizê-lo com a feliz denominação introduzida por Havelock Ellis (1910) de acordo com Freud (1905).

Freud afirma que o ato da criança que suga é determinado pela busca de um prazer já vivenciado e agora relembrado. No caso mais simples, portanto, a satisfação é encontrada mediante a sucção rítmica de alguma parte da pele ou da mucosa. É fácil adivinhar também em que ocasiões a criança teve as primeiras experiências desse prazer que agora se esforça por renovar. A primeira e mais vital das atividades da criança – mamar no seio materno (ou em seus substitutos) – há de tê-la familiarizado com esse prazer. Diríamos que os lábios da criança comportaram-se como uma zona erógena, e a estimulação pelo fluxo cálido de leite foi sem dúvida a origem da sensação prazerosa.  

A princípio, a satisfação da zona erógena deve ter-se associado com a necessidade de alimento. A atividade sexual apóia-se primeiramente numa das funções que servem à preservação da vida, e só depois se torna independente delas. Quem já viu uma criança saciada recuar do peito e cair no sono, com as faces coradas e um sorriso beatífico, há de dizer a si mesmo que essa imagem persiste também como norma da expressão da satisfação sexual em épocas posteriores da vida (FREUD, 1905). A necessidade de repetir a satisfação sexual dissocia-se então da necessidade de absorção de alimento – uma separação que se torna inevitável quando aparecem os dentes e o alimento já não é exclusivamente ingerido por sucção, mas é também mastigado.  

De acordo com Freud, a criança não se serve de um objeto externo para sugar, mas prefere uma parte de sua própria pele, porque isso lhe é mais cômodo e a torna independente do mundo externo, que ela ainda não consegue dominar; ainda porque, desse modo, ela se proporciona como que uma segunda zona erógena, mas que de nível inferior. A inferioridade dessa segunda região a levará, mais tarde, a buscar em outra pessoa a parte correspondente, os lábios. (Pena eu não poder beijar a mim mesmo, dir-se-ia subjazer a isso.) 

Como aponta Freud, nem todas as crianças praticam esse chuchar. É de se supor que cheguem fazê-lo aquelas em quem a significação erógena da zona labial for constitucionalmente reforçada. Persistindo essa significação, tais crianças, uma vez adultas, serão ávidas apreciadoras do beijo, tenderão a beijos perversos ou, se forem homens, terão um poderoso motivo para beber e fumar. Caso sobrevenha o recalcamento, porém, sentirão nojo da comida e produzirão vômitos histéricos. Por força da dupla finalidade da zona labial, o recalcamento se estende à pulsão de nutrição. Muitas das pacientes com distúrbios alimentares, globus hystericus, constrição na garganta e vômitos foram, na infância, firmes adeptas do chuchar.

Assim, de acordo com Varela (2006), a partir da idéia de zona erógena, podemos diferenciar o corpo da medicina e o corpo da psicanálise. O autor afirma que assim como o instinto está para a necessidade, para o corpo biológico, a pulsão inaugura outro corpo, ou seja, o corpo pulsional. Podemos pensar que o instinto está para a necessidade, que está para o corpo biológico; enquanto a pulsão está para o desejo, que está para o corpo erógeno.  

O desejo surge do afastamento entre a necessidade e a exigência. Não é mais um objeto real que satisfaz, mas um objeto-fantasma… O corpo fantasmático é o corpo-representação, e não um corpo anatomofisiológico (VARELA, 2006, s.p.).

Para Varela (2006), o obeso encontra no corpo uma forma de expressar aquilo que não pode ou não consegue expressar pela via da fantasia, do sonho ou da linguagem. O obeso sente, mas, não conseguindo significar a sensação como linguagem falada, ele significa no corpo. Assim, para essa autora, o obeso sofre por uma falha no processo de simbolização. Essa falha impede um deslocamento simbólico, que possibilitaria o recurso da fantasia.

 

  1. CONCLUSÃO 

No centro da relação entre mãe e filho está, segundo Freud, o ato de alimentar. Durante a amamentação, o leite ocupa o lugar de objeto de necessidade, enquanto o seio ocupa o lugar de objeto de desejo. A criança que deseja o seio da mãe, fica à mercê do seu desejo e da disposição da mesma em lhe ofertar o seio. (Fato ocorrido na primeira infância, que irá se repetir ao longo da vida adulta, de forma mascarada, em uma constância infinita). Essa posição de submissão a um Outro terá efeitos na vida psíquica do sujeito. 

O alimentar, enquanto função orgânica, confunde-se com a função erótica, através de um deslocamento do registro da necessidade para o desejo. O prazer pelo comer, nos dá uma importante pista sobre a dimensão erótica e simbólica do corpo, dimensão esta que vai colocar o sujeito no lugar de desejante. 

Identificamos alguns pacientes que parecem permanecer numa posição de submissão a um Outro, buscando, de forma incessante, serem saciados, preenchidos, confundindo a demanda de amor com a necessidade. Assim, a privação afetiva, jamais saciada, busca ser suprida pelo alimento. Se a pulsão nasce da necessidade, logo dela se desvencilha. No entanto, nesses pacientes, a pulsão parece confundir-se com a necessidade, talvez por uma falha simbólica que dificultou o recurso da fantasia, que, segundo Freud, leva à obtenção de prazer e adia a necessidade. Assim, os obesos encontram no corpo um meio de expressar o que não podem, ou não conseguem expressar pela via da fantasia, do sonho e da linguagem.  

 

REFERENCIAS 

FREUD, Sigmund. (1916 [1915]). Os instintos e suas vicissitudes. In ___ A história do movimento psicanalítico, artigo sobre a metapsicologia e outros trabalhos. Rio de janeiro: Imago. 1914-1916. p.117-123. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 14). 

FREUD, Sigmund. Fragmento de um caso de histeria. In:___ Três ensaios sobre a teoria da sexualidade e outros trabalhos. Rio de janeiro: Imago. 1901-1905. p. 170-224.( Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 7). 

VARELA, Ana Paula. Você tem fome de quê? V 26. Brasília/DF. 2006. Disponível em: <http://pepsic.bvs-sisi.org.br/scielo.php?scrip=sci_arttext&pid&gt;. Acessado em: 24/11/2008. 


[i] Acadêmica  do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

[ii] Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

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