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EDIÇÃO 2

E2-23 Fragmento de um caso clínico

 

Halsey Douglas Ribeiro Silva[i]
Catarina Angélica Santos[ii] 

RESUMO
O presente artigo visa apresentar o caso clínico de Maria, uma jovem universitária de 20 anos em sua tentativa de passagem ao ato, para assim, compreendermos dentro dos conceitos psicanalíticos da clínica lacaniana a repetição como um trabalho da pulsão de morte.

Palavras – chave: Afeto. Autoextermínio. Pulsão de morte.

 

O objetivo deste trabalho é estabelecer uma relação entre um fragmento extraído de um caso clínico atendido na Clinica de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva e alguns conceitos teóricos psicanalíticos da clínica de orientação lacaniana. 

Assim sendo, torna-se fundamental, em um atendimento clínico, estabelecer um diagnóstico do sujeito que nos procura, pois este busca alívio para seu sofrimento. Estabelecer o “diagnóstico diferencial só se coloca em psicanálise (no sentido do processo analítico) se encontram numa relação lógica, chamada de implicação […]. O diagnostico só tem sentido de orientação para a conclusão da análise”. (QUINET, 2007, p. 18) 

 Com base nos fenômenos relatados durante as sessões, destaca-se um leque de possibilidades quanto ao diagnóstico estrutural do caso – neurose, psicose ou perversão – ressaltando-se que ele só pode ser pensado com base na especificidade da transferência estabelecida com o analista. “É a partir do simbólico que se pode fazer o diagnostico estrutural […] a inscrição do Nome-do- Pai”. (QUINET, 2007, p. 19) 

A paciente que chamamos de Maria chega à clínica dizendo sobre uma tentativa de autoextermínio na qual ingeriu um número excessivo de medicamentos antidepressivos. 

Maria, 20 anos, estudante universitária, mora com os pais e duas irmãs mais novas de 19 e 18 anos. Segundo seu relato, sempre atendeu aos apelos da mãe, não tendo direito de realizar seus mais simples desejos. O curso universitário que realiza foi sugerido pela própria mãe e por isso tem a intenção de desistir. 

A mãe de Maria, sexagenária, teve as filhas em uma idade já avançada. Seu pai, também sexagenário, encontra-se atualmente com sérios problemas de saúde, se limitando a ficar em casa sem uma profissão que lhe garanta a subsistência familiar.  

Segundo a paciente, sua educação sempre esteve sob o direcionamento da mãe, que escolhe suas roupas, seus cursos e até mesmo seus namorados, para que no futuro Maria adquirisse uma boa formação e consequentemente um bom emprego e se tornasse a tutora dos pais.  

Nesta fase, Maria se depara com seus próprios questionamentos em relação à ausência de afeto de sua mãe e de seu pai. Minha mãe e meu pai só querem que eu faça o que eles querem, nunca o que eu quero 

Diante desse fato e na busca de se esquivar, ou mesmo na busca da compreensão dos pais, Maria faz uma passagem ao ato ingerindo medicamentos antidepressivos. Sendo assim, podemos entender que tal ato caracteriza alguns adolescentes histéricos que se fazem representar num grito de um sujeito desejante sempre direcionado ao Outro, um grito de socorro.  

Freud (1939) nos trás o seguinte entendimento sobre a autodestruição;  

[…] a tendência à autodestruição está presente em certa medida num número muito maior de pessoas do que aquelas em que chega a ser posta em prática; os ferimentos auto-infligidos são, em geral, um compromisso entre essa pulsão e as forças que ainda se opõem a ela. (FREUD, 1976, p. 163) 

Freud nessa citação nos aponta para a intrincação das pulsões de vida e morte, referindo-se às práticas destrutivas menos visíveis de um autoextermínio. Pode-se perguntar se Maria (a paciente) não busca naquele momento um gesto de socorro junto a seus pais. Não seria o autoextermínio uma última tentativa de se separar do desejo da mãe? 

Segundo Rinaldi (1999), Lacan destaca o conceito de repetição enquanto conceito fundamental, “Lacan é sensível à ligação que Freud estabelece entre repetição e pulsão de morte na medida em que ela denuncia o que há de essencial na repetição, que Lacan designa como encontro do real”. (RINALDI, 1999) 

Ainda em RINALDI (1999); 

A repetição é esse trabalho fundamental da pulsão de morte que relança insistentemente algo inassimilável, da ordem do real. É esse encontro, essencialmente faltoso, que os sonhos traumáticos insistem em trazer de volta, no movimento de retorno a uma impossível origem, a um estado de repouso absoluto, com a eliminação de todas as tensões. No lugar desse objeto impossível de encontrar, o que se encontra sempre é o real, o que introduz a diferença no circuito da repetição. É este inassimilável à cadeia simbólica, traumático, que determina o movimento do desejo, que é sempre desejo de outra coisa.  

Considerando estas formulações entre repetição e pulsão de morte, podemos visualizar melhor a narrativa de nossa paciente, que apresenta de forma contundente o desejo de uma adolescente. Maria se vê diante de cenas repetidas durante seu percurso de vida. Traz em si um real insuportável que evidencia a ação da pulsão de morte. O desejo da mãe é original e fundador, mas ao mesmo tempo destrutivo e mortal. 


REFERÊNCIAS 

FREUD, Sigmund. Equívocos na ação. In:__. A psicopatologia da vida cotidiana. Tradução de José Otávio de Aguiar Abreu. Rio de Janeiro: Imago, 1975, Cap. 8, p. 157-170, (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. VI, 1937-1939). 

QUINET, Antonio. As 4 + 1 condições da análise. In:__. As funções das entrevistas preliminares. 11ª Ed. Rio de Janeiro: ZAHAR, 2007. Cap.1, p.18-19.

RINALDI, Doris. Repetição e pulsão de morte: Um comentário sobre Leila. Disponível em http://www.geocities.com/hotsprings/villa/3170/DorisRinaldi.htm> acesso em 10. mai. 2009. 


[i] Acadêmico do décimo período do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

[ii] Professora e supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

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