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EDIÇÃO 2

E2-26 O Processo Terapeutico na Clínica de Terapia Familiar Sistêmica.

 

Isabela Leroy de Oliveirai
Lôla Rodrigues Flôres
[i]

Genilce Cunha[ii] 

RESUMO
Este artigo tem por objetivo apresentar como acontece o processo terapêutico na clínica de Terapia Familiar Sistêmica. Será apresentado o papel do terapeuta e da família, que juntos estabelecem um contrato e formam o sistema terapêutico, com vistas a reorganizarem os aspectos que bloqueiam o desenvolvimento do grupo familiar.  

Palavras-chave:Terapia Familiar Sistêmica.

 

A Terapia Familiar pode ser conduzida de diferentes formas; uma vez que cada família é uma, suas demandas e seus processos de mudança são diferentes. Sendo assim, o terapeuta deverá deixar a cargo da família a exposição de seus problemas imediatos e de seus obietivos de mudança, permanecendo como um dos agentes. Ele se torna um preparador de contextos de mudança, que reorganiza com a família os aspectos que para ela se tornarão bloqueadores do seu desenvolvimento. Objetivos como a abertura de canais de comunicação na família, a resolução conjunta de problemas e a promoção de autonomia individual são especificos da Terapia Familiar e fazem parte do contrato terapêutico que é feito entre a família e o terapeuta. Há necessidade dos indivíduos da família reconhecerem seus próprios recursos e utilizarem-se deles, resolvendo suas diferenças e seus conflitos a partir de uma autopercepção e da percepção do outro; também do grupo familiar perceber que a mudança de relação entre eles depende de uma postura de implicação de cada um na busca de mudança. O processo de mudança é coparticipativo para todo o sistema. 

O processo terapêutico se dá, portanto, a partir do encontro do sistema familiar com os terapeutas que passa a constituir o sistema terapêutico, caracterizando-se por regras de relação específicas; em que se busca a resolução de problemas relacionais. A terapia ocorre em um contexto interacional e em um setting específico. Não há uma linearidade em que terapeuta ajuda e o cliente é ajudado. Há uma interação entre estes, em uma unidade, que promove relações com a finalidade de fazer emergir novas formas de interação na família, nos comportamentos, na definição do problema e nas suas soluções. (COELHO, 2005). 

A família chega com um problema, o terapeuta irá avaliá-la. Ao considerar o problema como uma construção social, do qual o terapeuta faz parte, Maturana e Mendez afirmam que um problema só existe quando este é definido como tal por alguém para o outro.  

Um problema é algo que alguém vive como uma dificuldade e que ele ou ela assim o definem para si próprio ou para alguma outra pessoa. Um problema, portanto, tem a ver como alguém vê a si próprio ou a uma pessoa, é como ele ou ela constroem um domínio social que aceita o problema como tal. (MENDEZ ,CODDOU e MAITURANA, 1988, p. 1). 

A ciência tradicional relaciona o sintoma aoproblema da pessoa, ou seja, pensa no indivíduo portador do sintoma como “doente”. Na visão contemporânea da ciência, o observador, agente de saúde, faz parte do sistema. Portanto, o que ele distingue como saúde ou doença orienta suas percepções e ações, ao mesmo tempo em que as modifica a partir das distinções dos consultores na construção da realidade (COELHO, 2005). Essa percepção consiste em considerar que o problema é construído nas relações, de modo que, tanto o contexto familiar como o terapeuta observador definem o problema a partir da linguagem. Da mesma forma que se considera a construção do problema na Terapia Familiar, considera-se a sua desconstrução. Ampliar o problema é redefini-lo, desconstruir a ideia de que ele está no indivíduo. Se está nas relações, mudando-se estas, desconstrói-se o problema.

Normalmente, a queixa trazida pela família se localiza no indivíduo, o qual nomeamos paciente identificado (PI). O objetivo do terapeuta será ampliar a visão da queixa/problema a partir da interação, quando conhece o contexto interpessoal em que o problema ocorre e a história do problema, indo além do individual, focalizado nas relações das pessoas envolvidas no problema. “A exploração dos subsistemas também sublinha a necessidade de definir os limites do problema com que a terapia vai lidar. A solução sucessiva desses problemas constitui o objetivo do processo terapêutico”. (ANDOLFI, 1996). 

Assim, a avaliação da família inclui várias redefinições interdependentes no correr do processo. Geralmente, a família em crise, ao procurar a terapia familiar, coloca nas mãos do terapeuta a responsabilidade da solução do problema. O terapeuta deve proporciar uma redefinição da relação terapêutica; restituindo ao grupo a responsabilidade pela solução de seus problemas de interação e pelo processo de mudança; colocando-se apenas como agente de ajuda; sendo o espaço terapêutico um campo de interações dinâmicas, um lugar de conversação, reflexão e clarificação; proporcionando um contexto de autonomia ao sistema familiar. Deve haver também uma redefinição do contexto, ou seja, uma ressignificação da atmosfera afetiva favorável à família, permitindo que ela redescubra relações não expressas, tirando o foco do paciente identificado (PI). Ampliando o contexto das relações, o PI sairá do papel que exerce na família e esta fará um movimento em direção a mudanças relacionais. A redefinição do problema é fundamental à família, que se tornará responsável pelas mudanças no processo terapêutico, desculpabilizando o portador do sintoma. Na terapia familiar sistêmica, o problema que se localiza nas relações familiares é também ampliado para as relações do contexto em que ocorre, intersistêmico. (ADOLFI, 1996).

Portanto, podemos dizer que a avaliação relacional é obtida a partir das narrativas construídas pela família e pelo terapeuta sobre o problema e, a partir disso, construir novas narrativas. Novas propostas, relações diferentes, novos significados que vão surgindo e partir dessas conversações fazem com que a família perceba possibilidades, movimentando-se num processo evolutivo, e promovendo assim mudanças interacionais. 


REFERENCIAS 

AUN, Juliana Gontijo; VASCONCELLOS, M. J. E. ; COELHO, S. V. Atendimento Sistêmico de Famílias e Redes Sociais: Fundamentos Teóricos e Epistemológicos. Belo Horizonte: Ophicina de Arte & Prosa, 2005. 234 p. 

ANDOLFI, Maurizio. A Terapia Familiar. Um enfoque interacional. Campinas: Editorial Psy, 1996.  

MENDEZ, C.L.; CODDOU, F.; MATURANA, H. O emergir da patologia. Tradução de Cristina Magro e Nelson Vaz. Revista Journal of Psychology. P. 144-172, 1988. 


[i] Acadêmicas do Curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

[ii] Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

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