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EDIÇÃO 2

E2-28 O transtorno obsessivo-compulsivo e as vantagens da inserção do acompanhante terapêutico na terapia

 Jane Karenina Rodrigues[i]
Maxleila Reis[ii] 

RESUMO
O artigo apresenta uma breve definição do Acompanhamento Terapêutico e aspectos importantes do Transtorno Obsessivo Compulsivo. São listadas características do transtorno e as principais técnicas utilizadas.  

Palavras-chave: Transtorno obsessivo-compulsivo. Técnicas. Acompanhante terapêutico. Análise funcional. 

 

De acordo com Cordioli (2008), o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) pode apresentar vários sintomas, sendo, por isso, considerado heterogênio. Trata-se de um transtorno psiquiátrico grave, classificado pela APA (American Psychological Association) entre os transtornos de ansiedade, ao lado das fobias (fobia social e específica), do transtorno de pânico e da ansiedade generalizada. Entre seus sintomas estão os comportamentos obsessivos e compulsivos. 

Obsessões são pensamentos ou impulsos que invadem a sua mente de forma repetitiva e persistente. Podem ainda ser cenas, palavras, frases, números, músicas, etc. Sentidas como estranhas ou impróprias, geralmente são desagradáveis, pois, são acompanhadas de medo, angústia, culpa, desconforto, nojo ou desprazer. O indivíduo, no caso do TOC, mesmo não desejando ou considerando tais pensamentos absurdos, impróprios ou ilógicos, não consegue afastá-los ou suprimi-los de sua mente. (CORDIOLI, 2008, p. 12). 

Conforme Cordioli (2008), os comportamentos obsessivos mais comuns são a preocupação excessiva com sujeira, com contaminação, com simetria, exatidão, com sequência, com ordem, pensamentos ou cenas violentas, economia, religião, pensamentos supersticiosos, pensamentos que o indivíduo não consegue afastar da cabeça, etc. 

Já os comportamentos compulsivos mais comuns são os de lavagem, limpeza, verificações, contagens, acúmulo, coleção, repetições, confirmações, tocar, olhar, bater de leve, raspar, estalar dedos ou articulações, etc. (CORDIOLI, 2008). 

De acordo com o DSM-IV-TR (2002), há critérios diagnósticos para a classificação do TOC. São eles: 

A)    Presença de obsessões ou compulsões. […]

B)    Em algum momento durante o curso do transtorno, o indivíduo reconheceu que suas obsessões são excessivas e irracionais. Isso não se aplica a crianças.

C)    As obsessões ou compulsões causam sofrimento acentuado, consomem tempo (mais de uma hora por dia) ou interferem significativamente na rotina, no funcionamento ocupacional (ou acadêmico) e em atividades ou relacionamentos sociais habituais do indivíduo.

D)    Se outro transtorno […] estiver presente, o conteúdo das obsessões ou compulsões não está restrito a ele […].

E)    A perturbação não se deve aos efeitos fisiológicos diretos de uma substância (p. ex., abuso de droga ou medicamento) ou condição médica geral. 

Além do tratamento medicamentoso e da terapia em consultório, para Guerrelhas (2007), o acompanhamento terapêutico (A.T.) é uma modalidade nova, não só para a Análise do Comportamento, mas para a Psicologia como um todo, que tem uma eficácia em muitos casos. Na abordagem citada, de acordo com essa autora, o A.T. pode ser definido tanto como aquele profissional que trabalha no ambiente natural do cliente, onde as contingências mantenedoras dos comportamentos disfuncionais ocorrem, como também atua como auxiliar de um terapeuta comportamental, ou de um psiquiatra, ou ainda, de uma equipe multidisciplinar. Portanto, neste caso, a função de A.T. é de auxiliar ou complementar o trabalho daqueles profissionais. 

As contingências econômicas podem dificultar a solicitação desses profissionais, já que trata-se de um trabalho intensivo, em que o profissional deve dispender várias horas por semana com seu cliente, por isso, o tratamento se tornaria inviável para a maior parte dos clientes. Visando a busca por um tratamento de qualidade com profissionais capacitados e, ao mesmo tempo, que não seja tão oneroso para o cliente, a saída tem sido contratar estudante ou profissional recém-formado (o qual será sempre supervisionado por um terapeuta experiente), que terá mais disponibilidade de tempo e horários alternativos. (GUERRELHAS, 2007). 

Conforme a autora, o A.T. é indicado em casos de pacientes portadores de transtornos psiquiátricos graves e/ou crônicos, nos quais há déficits comportamentais básicos. O paciente deve também ser acompanhado por um médico psiquiatra e estar submetido a tratamento medicamentoso. 

Segundo CORDIOLI (2008), várias técnicas são utilizadas no processo terapêutico, sendo as mais comuns a Exposição com Prevenção de Resposta (EPR), Modelação, Modelagem, Esvanecimento (fading), Parada de Pensamento, Reforçamento Diferencial de Outros Comportamentos (DRO), Exposição e Dessensibilização Sistemática. A principal ferramenta utilizada para o trabalho do terapeuta, segundo Prette e Garcia (2007), é a análise funcional a partir da qual pode-se “identificar as variáveis associadas ao comportamento do cliente e discriminar suas contingências controladoras”. (PRETTE; GARCIA, 2007, p. 184-185) 

Das técnicas citadas, a mais utilizada no tratamento do TOC é a EPR. Guimarães (2001), citando o tratamento pela exposição e prevenção de resposta (EPR), diz que essa técnica consiste no “confronto proposital do paciente com o estímulo ou situação desenscadeadora da resposta de medo ou de ansiedade. A exposição é feita repetidamente, de uma só vez ou de forma gradual, ao vivo ou por imagens […]”. (GUIMARÃES, 2001, p. 181). O objetivo dessa técnica, de acordo com a autora, é prolongar o tempo de exposição do indivíduo ao estímulo aversivo, até que a ansiedade chegue ao ponto máximo e, assim, comece a baixar. O paciente perceberá que a ansiedade poderá baixar naturalmente e a sua expectativa de que algo ruim acontecerá não se confirma. 

Dentro da técnica EPR, existe a técnica exposição e bloqueio de resposta compulsiva. Segundo a mesma autora, estudos comprovam que ambas as técnicas utilizadas em conjunto têm um efeito positivo de aproximadamente 75%, enquanto que aplicadas separadamente apresentam sucesso de 20% a 40%. Busca-se, com essa técnica, a generalização de comportamentos aprendidos, e a habituação (ou seja, “a diminuição espontânea e progressiva das respostas a situações ou a estímulos não-nocivos […] quando se permanecem em contato direto ou de forma repetida durante o tempo necessário”.) (CORDIOLI, 2008, p. 66).  

Finalmente, Ingberman e Franco (2007), ao fazerem as considerações finais sobre um estudo de caso de um paciente portador de TOC e submetido ao acompanhamento com um AT, comentam que

A realização de um trabalho desta natureza foi uma experiência de grande aprendizado para a A.T., pois ela pôde participar do atendimento de um caso de difícil manejo, com acompanhamento semanal de uma psicóloga experiente, tendo acesso a um vasto conhecimento integrado e coeso, no qual diferentes possibilidades de avaliação e intervenção puderam ser implementadas de forma mais completa e com atenção diferenciada. (INGBERMAN; FRANCO, 2007, p. 360). 

 

REFERÊNCIAS 

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-IV-TR. 4 ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2002.  

CORDIOLI, Aristides. Vencendo o transtorno obsessivo-compulsivo: manual de terapia cognitivo-comportamental para pacientes e terapeutas. 2ª edição. Porto Alegre: Artmed, 2008. 256 p. 

GUERRELHAS, Fabiana. Quem é o acompanhante terapêutico: história e caracterização. In:______A clínica de portas abertas: experiências e fundamentação do acompanhamento terapêutico e da prática clínica em ambiente extraconsultório. Santo André: ESETec, 2007, p. 33-34. 

GUIMARAES, Suely. Exposição e Prevenção de Respostas no Tratamento do Transtorno Obsessivo Compulsivo. In:______Psicologia Clínica e da Saúde. Londrina: Editora da Universidade Estadual de Londrina, 2001, v.01, p. 181. 

INGBERMAN, Yara Kuperstein; FRANCO, Ana Paula. Estudo de um caso com queixas múltiplas atendido em ambiente extraconsultório: o caso A. In:_______ A clínica de portas abertas: experiências e fundamentação do acompanhamento terapêutico e da prática clínica em ambiente extraconsultório. Santo André: ESETec, 2007, p. 360. 

PRETTE, Giovana Del; GARCIA, Rosana Maria. Técnicas comportamentais: possibilidades e vantagens no atendimento em ambiente extraconsultório. In:_________ A clínica de portas abertas: experiências e fundamentação do acompanhamento terapêutico e da prática clínica em ambiente extraconsultório. Santo André: ESETec, 2007, p. 183. 


[i] Acadêmica do 10º período do Centro Universitário Newton Paiva, colação de grau em 2009. 

[ii] Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

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