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EDIÇÃO 2

E2-29 O Supereu e a Culpa

 

Julia Caldas Niquini[i]
Catarina Angélica Santos[ii] 

RESUMO
O objetivo deste artigo é relacionar o conceito psicanalítico de supereu e sentimento de culpa em caso clínico atendido na Clínica de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva, durante o período de um ano. 

Palavras-chave: Supereu. Complexo de Édipo. Sentimento de culpa. 

 

Evaldo[iii] é um jovem de vinte e sete anos, que chega à clínica por intermédio da namorada, que também faz tratamento na mesma instituição. Único homem de uma família composta por avó, mãe e três irmãs. Uma das irmãs é casada e não mora com eles, enquanto as outras duas são mais novas. Sua irmã caçula foi adotada no dia do falecimento de uma outra irmã por acidente de carro. Evaldo diz que ninguém de sua família, nem mesmo a própria moça, sabem como essa adoção aconteceu ao certo e que isso é um grande mistério familiar. O pai se separou da mãe quando ele ainda era criança (tinha nove anos de idade) e nunca mais voltou. Atualmente trabalha como segurança em um supermercado e nas horas vagas como garçom e animador de festas. Parou de estudar no primeiro ano do ensino médio e diz ter dado muito trabalho na escola por não gostar de estudar. Agora está fazendo supletivo para terminar o ensino médio. Ex-usuário de drogas, diz ter parado a mais ou menos dois anos. Conheceu a atual namorada há cerca de dois anos “na noite”. Também usuária de drogas, ela é graduada em Letras e dez anos mais velha que o namorado. A queixa inicial do analisando é a necessidade de organizar sua vida, que assim como sua vida familiar é uma completa “bagunça”. Reclama que não consegue por em prática seus objetivos e que se arrepende das coisas que aconteceram na época em que abusava das drogas.  

Em uma das sessões, Evaldo conta que sua namorada é mais velha que ele e tem “problemas de libido” e, ainda, que eles não conseguem se entender quanto à sexualidade. Ela parece não ver as necessidades sexuais dele. Nesse ponto do discurso do analisando, vemos que ele está às voltas com o conflito edípico, pois escolhe inconscientemente uma mãe para cuidar dele. 

O texto de Freud de 1923 vem nos esclarecer sobre o complexo de Édipo. Segundo ele, esse complexo é um conflito no qual a criança se encontra dividida entre a realização do desejo incestuoso e a lei que o interdita. Esse conflito não está representado pela lei e o desejo, mas é o conflito entre a realização deste desejo e a lei, já que a lei não é capaz de fazer a criança deixar de desejar. 

A elucidação de Freud citada acima nos ajuda a pensar que a pessoa em análise busca reviver no namoro algo do conflito edipiano não vivido e, portanto, recalcado, que é a sexualidade infantil e o desejo incestuoso pela mãe. Ao namorar uma mulher mais velha, uma mulher “proibida” no sentido sexual, Evaldo repete, na atualidade, algo da sexualidade infantil recalcada. 

Em seu relato, Evaldo assegura que sua namorada é bastante exigente com ele em relação a tudo, quer seja no estudo, no controle para que ele não saia à noite, e até mesmo quanto ao tipo de amigos que ele venha a ter. Ele diz se sentir inferiorizado e não se acha capaz de fazer parte do mundo intelectual e social da namorada, pois acredita não saber conversar com os amigos dela. Pode-se, nesse ponto, tomar a teoria da constituição do supereu em Freud para compreender o nível de exigência que Evaldo tem em relação à vida social da namorada – não entende os amigos dela – e a exigência da mesma em relação ao namorado, assim como a submissão do mesmo quanto aos caprichos dela.  

O supereu é uma das instâncias do aparelho psíquico constituída juntamente com o id e o eu (ego), conforme nos apresenta Freud. Na constituição do supereu a lei é introjetada pela criança durante o conflito edípico. A criança aceita a lei por medo de ser castrada, por medo de perder o amor do Outro. No entanto, essa lei “divide” a criança entre aquilo que ela deseja e o que é proibido de ser vivido. Essa submissão da criança à lei faz com que ela assimile tal proibição como sendo psiquicamente sua. Assim, uma parte do eu da criança se identifica com a figura parental interditora, enquanto a outra parte continua a desejar. A partir de então, a criança se torna capaz de encarnar nela mesma, simultaneamente, desejo e lei. A parte do eu que faz as vezes de lei interditora é o que Freud (1923), chama de Supereu.   

No caso estudado, pode-se verificar que a namorada de Evaldo, em muitas situações, torna-se esse supereu exigente e cruel, enquanto ele fica submetido aos seus caprichos e se sentindo culpado por não corresponder às expectativas dela.  

Freud (1923) concebe duas categorias radicalmente opostas e ainda assim coexistentes do supereu. Uma se assemelha à consciência e designa a instância da constituição do aparelho psíquico que rege as condutas, os julgamentos e se oferece como modelo Ideal. Esse supereu representa a parte subjetiva dos fundamentos da moral, da arte, da religião e de qualquer aspiração ao bem-estar social e individual do homem.  

Uma segunda categoria do supereu é o de um investigador inconsciente e perverso, que subjuga o eu pelo feitiço de um ideal de gozo. Esse supereu ordena que o eu satisfaça seu desejo de gozo absoluto, como apelo do id que incita o eu a violar a proibição. O id se apresenta como o imperativo do gozo. Goza! É o supereu feroz e cruel (NAZIO, 1997).

Se por um lado a namorada de Evaldo parece funcionar para ele como a segunda categoria do supereu cruel, por outro, o próprio paciente submetido a esse supereu perverso e investigador se deixa capturar pelo sentimento de culpa inconsciente, o que o faz desistir das metas propostas e nunca alcançadas como, por exemplo, morar sozinho, já que possui independência financeira. 

Conforme Freud (1930), o funcionamento do supereu está atrelado ao sentimento de culpa inconsciente do sujeito. Essa culpa é uma variedade topográfica da angústia e coincide completamente com o medo do supereu. 

A função do superego consiste em manter a vigilância sobre as ações e as intenções do ego e julgá-las, exercendo sua censura. O sentimento de culpa, a severidade do superego, é, portanto, o mesmo que a severidade da consciência (FREUD, 1930, p.139). 

Neste caso clínico é possível verificar que Evaldo já apresentou problemas como o uso de drogas e agora queixa-se da desordem em sua vida, do desejo pela mulher “proibida” e pode-se notar que ele vive dividido entre aquilo que deseja e a culpa que sente ao pensar nesses desejos. Durante seus atendimentos, o paciente explicita uma enorme vontade de sair de casa, pois segundo ele só assim seria possível se concentrar em seus objetivos. Ele diz que as pessoas de sua família não o auxiliam em nada e por isso ele não consegue pensar em sua vida, porque tem sempre que pensar por todos. Novamente, o paciente se cobra e exige mais de si. Ao pretender sair de casa acaba se paralisando, pois se sente culpado por deixar “o barco afundando” na família. O que nos parece importante, nesse caso clínico, é a questão do sentimento de culpa vivido inconscientemente por Evaldo. A esse respeito Freud nos diz:

Mesmo na neurose obsessiva há tipos de pacientes que não se dão conta de seu sentimento de culpa, ou que apenas o sentem como um mal-estar atormentador, uma espécie de ansiedade, se impedidos de praticar certas ações. (FREUD, 1930 p.138).  

Conforme Freud nos ensina, o sentimento de culpa faz parte tanto da consciência quanto do inconsciente e é um mecanismo que se apresenta para o sujeito, ainda, que este não seja capaz de ter consciência dele. Evaldo se mostra durante todo o tratamento bastante disposto a fazer modificações em sua vida como voltar a estudar e contribuir para que sua família se organize. No entanto, o sentimento de culpa vivido como mal-estar faz com que o analisando evite tomar decisões e, por diversas vezes, ele próprio cria inconscientemente situações de punição como não morar sozinho e ter de resolver os problemas da família. Ele entra numa espécie de ansiedade que o impede de tomar decisões e com isso posterga a ação que é uma das características da neurose. Evaldo parece se punir como se seus desejos precisassem ser freados e, ainda, assim os mesmos não param de habitá-lo, criando uma situação angustiante na qual ele não sabe bem como se posicionar.  

Para finalizar esse artigo, faz-se necessário esclarecer que o processo analítico deste paciente ainda não terminou. Ele dará continuidade ao seu tratamento na Clínica de Psicologia, porém com outro estagiário.  

 

REFERENCIAS 

FREUD, S. (1996). O ego e o id. (J. Salomão, Trad.). Edição Standart Brasileira das Obras Psicológicas Completas (Vol. XIX, p. 13-86). Rio de Janeiro: Imago (Originalmente publicado em 1923)

FREUD, S. (1996). O mal estar na civilização. (J. Salomão, Trad.). Edição Standart Brasileira das Obras Psicológicas Completas (Vol. XXI, p. 67-148). Rio de Janeiro: Imago (Originalmente publicado em 1930 [1929]). 

NÁZIO, Juan David. Lições sobre os sete conceitos cruciais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997. Cap. 6, pg. 129 – 145.


[i] Acadêmica  do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

[ii] Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

[iii]Nome fictício.

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A REVISTA DE PSICOLOGIA é uma publicação do Curso de Psicologia e desenvolvida pelo Núcleo de Publicações Acadêmicas do Centro Universitário Newton Paiva