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EDIÇÃO 2

E2-32 Bem comigo – Bem contigo

Lorena Maria Marinho Ribeiro[i]
Juliana Brandão[ii] 

RESUMO
Este artigo trata de um estudo de caso, tendo como base epistemológica a Abordagem Centrada na Pessoa, de Carl Rogers. É trabalhada a questão da autoestima a partir da análise do caso do cliente, atendido em estágio curricular do Centro Universitário Newton Paiva, supervisionado pela professora Juliana Brandão.  

Palavras-chave: Autoestima. Self. Congruência.

 

“Quando eu me escolho eu corro o risco de perder coisas e pessoas, mas eu me ganho.”
Wolber Alvarenga 

 

Este artigo tem como objetivo fundamental fazer um estudo do caso de Caio Scarpeli[iii] tendo como concerto norteador a autoestima.  

A base epistemológica para este artigo é a Psicologia Humanista, mais especificamente a Abordagem Centrada na Pessoa. 

Caio Scarpeli, 27 anos, do sexo masculino, solteiro, possui formação superior completa em Publicidade e Propaganda, porém não atua em sua profissão e hoje está desempregado. Reside com seus pais e irmão e isso lhe provoca certa angústia por se sentir um adulto, mas não possuir meios financeiros para deixar a casa.

Caio Scarpeli inicia sua terapia relatando que já esteve em processo terapêutico em outro momento e, encaminhado a um psiquiatra, chegou a tomar remédios. Diz ter se sentido bem durante o tratamento anterior e por isso resolveu procurar atendimento novamente. O cliente conta que se sente sozinho, sentindo necessidade de ter uma parceira. Relata querer uma namorada e este desejo é muito decorrente em toda sua terapia. Um outro ponto levantado por Caio Scarpeli é seu desemprego, o que o faz se sentir inútil, por não ter uma profissão. 

O cliente Caio se define como sendo observador, calculista (ou analítico) e muito crítico com suas próprias atitudes. Muitas vezes demonstra não gostar de sua aparência e não acreditar em seus potenciais.  

Frente a algo novo, seja em relacionamentos ou a aspectos profissionais, não se permite vivenciar algumas situações. Em outras palavras, pode-se dizer que ele já imagina tudo que pode vir a acontecer e não dá oportunidades ao novo, mesmo que as consequências de se enfrentar o novo sejam positivas ou negativas. Antes de iniciar algo, já se esquiva, com medo de não conseguir. 

É nítido perceber na fala de Caio Scarpeli uma insegurança, que o remete às não possibilidades da vida, às não tentativas e escolhas, se privando de algo que poderia ser bom para si, e mesmo se não o fosse, já seria uma experiência. Caio Scarpeli “não se arrisca e não petisca”. 

Afonso Langone e Nara Vieira[iv] (2009) no artigo Auto-estima: Atualização do conceito da Abordagem Centrada na Pessoa, definem autoestima como sendo:  

 a capacidade de consideração para com o próprio Eu como Unidade. É percepção de potencialmente ser capaz, feliz, apessoado, sentindo e percebendo valores de dentro para fora. É acreditar em si como potencial de vir-a-ter e ser, tendo ideais: de vida, de prosperar, de ter dignidade, caráter, confiança e dinamismo, acreditando em si e no outro; de interagir e integrar, integrando. 

Analisando, então, o caso de Caio Scarpeli a partir de seus atendimentos em processo psicoterapêuticos, conseguimos identificar alguns pontos em sua fala como oposto à definição de autoestima, nos remetendo a pensar o caso dele como possuidor de baixa autoestima.  

Branden[v] (2000) citado por Poliana Mayra Teixeira Lopes (2006), em seu projeto O papel da auto-estima para a formação do self, aponta que:  

O nível de nossa auto-estima tem profundas conseqüências em todos os aspectos de nossa existência: como atuar em nosso local de trabalho; como lidar com as pessoas; até onde podemos chegar; quanto podemos realizar – e, no domínio pessoal, por quem provavelmente nos apaixonaremos, como interagirmos com o cônjuge, os filhos e amigos; que nível de felicidade pessoal podemos atingir. Existem correlações positivas entre auto-estima saudável e vários outros traços de personalidade que estão diretamente relacionadas com a nossa capacidade de realização e felicidade. (BRANDEN, 2000 apud LOPES, 2006, p. 4). 

Nota-se, então, que vários aspectos malsucedidos trazidos por Caio Scarpeli são reflexos de suas próprias atitudes de não aceitação de si, de não acreditar em suas capacidades.  

Nesta perspectiva, conseguimos entender a autoestima como primordial em nossa vida, pois a partir dela conseguimos ser mais determinados e, com sua ausência, tudo se torna mais difícil e menos acessível.

Segundo Andréia Campos de Miranda (2001, p. 106) em seu artigo A Baixa Auto-Estima: Uma visão Rogeriana, a “autoestima fortalece, dá energia e motivação. Ela nos inspira a obter resultados e nos permite sentir prazer e satisfação diante de nossas realizações”. Miranda (2001) diz que, com a autoestima elevada, buscamos desafios e o novo é sempre mais estimulante, porém, a baixo autoestima nos limita ao conhecido, não nos permite ir adiante daquilo que não conseguimos enxergar “a olhos nus”. 

No entanto, podemos pensar que todos possuímos um lado mais obscuro do que o outro, que não é assim tão aceitável, embora seja fundamental para nossa formação enquanto indivíduo. É necessário, então, que mesmo não tão satisfeitos com pontos negativos de nossa personalidade, nos aceitemos do jeito que somos. 

Desta maneira, Antônio Monteiro dos Santos (1987, p. 63), em seu livro Quando Fala o Coração reflete que: 

Escutando-nos e encarando “o que somos”, ficamos mais familiarizados não somente com a nossa parte que funciona bem, mas também com o nosso lado escuro. Aprendemos a estimar e apreciar as qualidades que nos ajudam a realizar nossas vidas, e ao mesmo tempo ficamos sabendo como aceitar o nossos defeitos.

Podemos relacionar essa citação com a noção de congruência ou acordo interno de Rogers (1957), trazido por Sérgio Leonardo Gobbi et al (2005), em seu livro Vocabulário e noções básicas da abordagem centrada na pessoa, relatando que quando somos congruentes nas relações somos livres e profundamente nós mesmos, com nossa experiência real precisamente representada em nossa conscientização de nós mesmos. Quando somos congruentes com nossos pensamentos, atos e vontades torna-se mais fácil aceitarmos nosso próprio eu. 

Neste sentido, Santos (1987, p. 65) discute que: 

Quando somos congruentes conosco mesmos, nossas necessidades, nossos desejos e nosso curso de ação são uma coisa só. Seguimos o caminho do coração sem sermos assaltados por conflitos e dúvidas. A energia do momento flui suavemente, levando-nos na direção a que nossa trilha naturalmente nos conduz.  

Portanto, se houvesse uma aceitação de seu próprio eu, Caio Scarpeli não entraria em conflito com suas vontades, e o que ele entende por não poder, não passa por cima do querer. 

Sendo a autoestima o engrandecimento de sua própria pessoa, notamos em Caio Scarpeli um empobrecimento da mesma, não se dando assim a oportunidade nem ao menos de tentar. 

Assim, pode-se concluir que em processo terapêutico, Caio Scarpeli tem encontrado espaço para falar dele mesmo, para tomar consciência de suas próprias falas, conseguindo assim notar em si uma barreira causada por ele mesmo, o impossibilitando de seguir em alguns momentos de sua vida. Desta forma, a baixa autoestima, o trava, no entanto, tendo consciências de seus atos e que este sentimento está o prejudicando, Caio Scarpeli está em processo de mudança com ele e com o próximo.
 

REFERÊNCIAS 

GOBBI, Sério Leonardo et al. Vocabulário e noções básicas da abordagem centrada na pessoa. São Paulo: Vetor, 2005 

LANGONE, Afonso e VIEIRA, Nara. Autoestima: atualização do conceito da Abordagem Centrada na Pessoa. Disponível em: http://www.encontroacp.psc.br/autoestima.htm. Acessado dia 28 de outubro de 2009 

LOPES, Poliana Mayra Teixeira. O papel da auto-estima para a formação do self. Belo Horizonte: Centro Universitário Newton Paiva, 2006. 

MIRANDA, Andréia Campos de. A Baixa Auto-Estima: Uma Visão Rigeriana. In: COPPE, Antônio Angelo Fávar (org.). De um Curso a um Discurso – Travessia.  XVII Jornada de Trabalhos dos alunos do curso de formação de psicólogo. 2001.  

SANTOS, Antônio Monteiro, et al. Quando Fala o Coração. Porto Alegre: Artes Médicas. 1987 


[i] Aluna do Curso de Psicologia – Estagio Supervisionado no ano de 2009. 

[ii] Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

[iii] Nome fictício 

[v] BRANDEN, Nathaniel. Auto-estima e os seus seis pilares. 6.ed. São Paulo: Saraiva, 2000.

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A REVISTA DE PSICOLOGIA é uma publicação do Curso de Psicologia e desenvolvida pelo Núcleo de Publicações Acadêmicas do Centro Universitário Newton Paiva