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EDIÇÃO 2

E2-33 Reflexos dos estilhaços de uma existência

 

Luís Gustavo dos Santos[i]
Fernando Dório[ii]

RESUMO
O passar dos anos pode parecer fulgaz. Depende do foco que se tem da vida. Por vezes, percebe-se que o invólucro da existência é metamorfoseado a todo instante. É possível que, a cada momento da vida, tenta-se ser e fazer uma melhor escolha. Compactuar com a dor de existir diante do espelho através da imagem que não tem mais o mesmo viço. Ocasionalmente, a imagem subtrai-se vedando os sentidos. Às vezes, compreende-se que o crepúsculo dos anos pode nos tornar sábios. Invadir nossa natureza e deparar com o que chamamos de pecados, vaidade, receios. Tenta-se, portanto, fazer-nos juntar os fragmentos de uma vida. Entretanto, um dia o véu escuro pode tirar o brilho dos olhos e o silêncio encerrar um tempo, fazendo na mudez das horas ainda um suspirar de uma existência. Assim serão os reflexos dos estilhaços de uma existência. 

Palavras chave: Existência. Imortalidade. Angústia. Culpa. Emoção. 

 

Em algum momento da vida, uma pergunta reflexiva sutilmente invade o cotidiano. O que é existir? Simplesmente respirar?! Que mundo moderno é este, concebido na virtualidade das relações, na efemeridade do tempo, no monólogo das palavras ao vento em um espaço entre quatro paredes, na pergunta de poucas respostas em relação à reflexão do quem sou?

O espelho não é mais o oráculo antigo que diz algo sobre a imagem. É possível que o espelho represente o abismo ao qual Narciso afundou quando viu o seu reflexo.

Que imagem se busca na atualidade? Talvez não se saiba, pois há algo de fragmentado e impreciso quando a imagem é refletida A existência ainda é um dilema, apesar das palavras de René Descartes, ao afirmar, com efeito, e lógica, a máxima “Penso, logo existo”. Será?! Tudo que se apresenta na realidade é algo verossímil? 

No final do século XIX, em Copenhague, nascia Sören Aabye Kierkegaard. Segundo sua biografia no livro Kierkegaard em 90 minutos, de Paul Strathern (1999), Kierkegaard fora um filósofo e é descrito como um homem angustiado e atormentado. 

Strathern (1999, p.32/34) explicita dois temas importantes da obra de Kierkegaard, que estão relacionados ao modo de viver, que são a “estética e a ética”. A indústria de cosméticos e os grandes laboratórios fármacos produzem uma necessidade contemporânea: a busca pela beleza estética. O exterior tem grande relevância nas relações com o outro. Mas quantos temores, angústias e desesperos acometem àqueles que desejam algo que se pressupõe estar relacionado à estética, à aparência? Entretanto, o que é aparente não se liga à ética. A ética indica a reflexão em relação ao interior de si mesmo, a existência e a busca de respostas acerca dos porquês de ser no mundo. A dúvida de ser em si é uma tônica importante neste século em relação à conquista pela perfeição exterior que por vezes é tênue e meramente superficial. 

Na clínica contemporânea pode-se observar o quanto as pessoas encontram-se angustiadas diante do medo que lhes apresenta de variadas formas. Do amor não correspondido, da solidão de uma palavra não comunicada, da perda daquilo ou daqueles que lhes são íntimos, do que o outro lhe pode tirar do aqui – agora. 

Eis, então, o abismo que se abre diante dos pés. A dialética do existir, o caráter dual que forma o nevoeiro da dúvida: a virtude, o pecado, a água turva que nubla os olhos em dias tempestivos ou o clarão de um sorriso para que amanhã seja melhor. A certeza da incerteza do que se é diante de si para o outro. 

Para José Maurício de Carvalho, em seu artigo, A existência humana, é por meio do contato que formamos a consciência da nossa condição, 2007, “o mundo da pessoa é resultado de escolhas contínuas e irreversíveis que ele faz sobre este chão e que se objetiva na cultura e no saber da Natureza.” (CARVALHO, 2007, p.37)

A tragédia possui um tom de irreversibilidade. A fatalidade de uma perda irreparável denota a clareza da situação de seres falíveis que somos. A imortalidade seria apenas uma palavra que nem os livros a suportam, pois depois de velhos eles esfacelam. As fotos e as pinturas são meras ilusões de uma realidade que, com o tempo, perdem os pigmentos. Talvez imortal seja apenas o encontro, o momento que ficou na consciência com um significado real, realizando uma compreensão. 

É necessário refletir o quanto o desespero, como flecha, atinge as pessoas em algum momento na existência. Certeira de que algum problema sem solução trinca o ser humano em sua existência insólita. A melancolia invade e devassa o ser formando ondas de angústia crescentes.

Conforme Ranis Fonseca, no artigo, O desespero como parte integrante da condição humana, 2009, “à medida que o ser humano vai perdendo o encanto pelas ilusões próprias ao mundo dos sentidos, ele começa a adquirir mais consciência da existência em suas profundas contradições.” (FONSECA, 2009, p.15) 

A trinca no ser humano pode representar um traço nosológico, em que o sujeito na sua condição de existir no mundo encontra-se com suas estruturas abaladas. Emílio Romero relata em seu livro, O inquilino do imaginário, 2001, que: 

… as classificações são artificiais… Quando dizemos de um sujeito que tem um caráter obsessivo, afirmamos que apresenta uma série de traços próprios dessas pessoas, o que não supõe negar sua individualidade. Em psicoterapia, sempre levamos em conta esta idiossincrasia pessoal; nunca pensamos que apenas estamos perante um tipo, que é apenas ideal; consideramos as peculiaridades pessoais… Certamente enganaríamos se nossa pesquisa em psicologia chegasse apenas até a classificação do sujeito. (ROMERO, 2001, p.154) 

Cabe ressaltar o quanto é dada importância à classificação ou à rotulação determinista de uma patologia daquele que se encontra em sofrimento mental. Seria como se a solução fosse dar um nome adequado ao que significaria um modo de estar vivendo. Seria simples, contudo, quanto tão complexo é compreender, perceber a historicidade que se apresenta na fala do sujeito que tenta remontar os fragmentos de uma angústia que fere e tenta colar as rupturas da consciência com os clarões da vivência. Ou seja, com as verdades que a memória pode conceder. 

O que seria mais importante no setting? A relação com o outro, as sensações e o fenômeno que transcende durante as sessões? Entretanto, o que dizer de um sujeito cuja realidade não se relaciona com o comum? Que compreensão sobre isto poderia ter? 

De acordo com Franz Victor Rudio, em seu livro Dialogo Maiêutico e Psicoterapia Existencial, 2001, ao escrever sobre os distúrbios psicológicos afirma que “o indivíduo tenta “falsear”, na sua consciência, as “revelações” da realidade e, assim, desorganiza o seu “mundo fenomênico”.” (RUDIO, 2001, p.124) 

Propõe-se pensar que as classificações nosológicas significam apenas um nome, pois o que tem real importância é a compreensão do ser humano que se revela ao terapeuta. Sendo assim, a partir de que momento pode-se ver humano no diferente? O que há de humano em si não é percebido no outro? A monstruosidade é a fantasia da realidade. Deve-se ocultá-la, levá-la ao porão ou esquecê-la no sótão da sociedade? A lei do papel é humanizadora, mas não espelha a cultura que faz ver no outro o que há de humano na sua história de vida. As falhas existem. Mas quando se poderá, enquanto sociedade admiti-las e repensá-las no sentido de restaurar a ecologia da vida? Pode-se considerar que neste século XXI a ecologia do mundo encontra-se em processo degradação? 

Alfried Längle, em seu texto A vivência-do-ser como chave da experiência-de-sentido, 1992, diz que “O ponto de partida aqui é, em outras palavras, a fenomenologia do ser, do meu estar-aí (Da-sein) e do meu estar-consciente (Bewusst-sein).” (LÄNGLE, 1992, p.48) 

Os atos praticados no passado podem não retroceder. Ainda não inventaram uma máquina do tempo, apenas a ficção científica vislumbra tal possibilidade que como utopia pode um dia atingir. E quanto tempo tem-se para um sorriso, um abraço, uma des-culpa? Uma culpa. Segundo Albert Camus, em seu livro O mito de Sísifo, 2004, este nos apresenta o personagem Sísifo que não morre, ou não quer morrer, pois não ama e quer viver. Contudo, “seu desprezo pelos deuses, seu ódio à morte e sua paixão pela vida lhe valeram esse suplício indizível no qual todo ser se empenha em não terminar coisa alguma. É o preço que se paga pelas paixões desta Terra.” (CAMUS, 2004, p.138) 

Sísifo empurra uma pedra até o cume de uma montanha, ao chegar lá a pedra rola de volta e ele reconduz incessantemente a pedra novamente ao cume. A repetição e o volume ou peso da pedra pode-se associar ao que cada um tem em sua existência. Deixar a culpa ou a pedra que se inscreve no cotidiano não é tão fácil. Talvez falte compreensão para o deixar ser. Propor um novo ser ante as dificuldades do cotidiano. Não seria assumir uma atitude de Poliana, positivista, como no livro que leva o mesmo nome, da autora Eleanor H. Porter. Mas permitir abrir um pouco mais a fresta íntima, deixar a luz entrar clareando um pouco o lado obscuro do ser. 

No senso comum a culpa é sempre do outro. Assumir a responsabilidade de um ato para algumas pessoas é por demais difícil, pois inclui valores, princípios morais e culturais. Ana Maria Lopez Calvo de Feijoo, em seu livro A escuta e a fala em psicoterapia, uma proposta fenomenológico existencial, 2000, diz que “a culpa nasce da angústia e se dá pela liberdade não exercitada em sua possibilidade plena. O arrependimento, que não anula a escolha, traz a lamentação e, portanto a tristeza.” (FEIJOO, 2000, p.68)

A culpa é como uma adaga que perfura o ser na sua essência, pois ele a veste e a internaliza, assumindo para si as dores e os pesares que não suporta. Contudo, tirar a veste da culpa e limpar-se não é algo tão fácil como abrir a torneira do chuveiro e deixar escoar pelo ralo aquilo que se tem de impuro. 

Algumas vezes ouve-se alguém dizer que o destino é pecar. Há alguns anos havia uma coleção de livros intitulados “Meu destino é pecar”, da autora Cassandra Rios. Mas a frase do título revela uma queixa e gera perguntas como: de qual pecado se fala? Ou que és tu? O que deseja neste mundo? Para Tereza Cristina Saldanha Erthal, no livro Terapia vivencial, uma abordagem existencial em psicoterapia, 1989, pressupõe que: 

A imagem do eu não inclui apenas as interpretações do que “eu sou”, mas também o que eu “desejo e devo ser”. A auto-idealização geralmente implica numa autoglorificação e dá ao indivíduo a sensação de um ser superior em comparação com as outras pessoas. Não se trata, no entanto, de um “endeusamento cego”. A imagem idealizada representa um acúmulo de inumeráveis aprendizagens, e de suas valorações, efetuadas na mesma direção. É formada a partir de necessidades especiais e qualidades que o indivíduo dispõe. (ERTHAL, 1989, p.62) 

A busca de sentido da vida pode ser através da emoção. Algo que se relaciona aos sentimentos e aos reflexos diante da vida. Segundo André Dartigues no livro O que é a fenomenologia?, 1992, a emoção:  

É uma “transformação do mundo” que tentamos operar quando esse mundo se tornou por demais urgente e difícil e quando os caminhos ordinários de adaptação não são mais praticáveis. Transformação que se opera sem que tenhamos abandonado o plano irrefletido como se nos entregássemos, sem nos darmos conta disso, a um jogo no qual o mundo real, com suas dificuldades, seria substituído por um mundo fictício onde estas dificuldades teriam desaparecido. (DARTIGUES, 1992, p.104) 

Neste sentido não tão distante cabe um exemplo literário sobre o personagem Dorian Gray, do livro de Oscar Wilde escrito no final do século XIX intitulado O retrato de Dorian Gray, 2009. Tal personagem possuía uma beleza incomensurável. Picado pelo vírus da vaidade contraiu um pecado capital, conforme Dante Alighieri em Divina Comédia. Investido na possibilidade de ser imortal e belo, Dorian, aprisiona-se em uma certa juventude, comete delitos e esconde o quadro que revela seu ser. O invólucro estético exterior não reflete o traço de insanidade ou a sombra de seus tormentos interiores que estavam ocultos no retrato. Portanto, em um momento de desvelamento diante de uma de suas vítimas, Dorian diz: 

Há anos passados, quando eu era ainda um adolescente – replicou Dorian, esmagando a flor entre os dedos -, você me conheceu, adulou-me, ensinou-me a envaidecer-me da minha beleza. Um dia, apresentou-me a um seu amigo; este me explicou as maravilhas de ser jovem. Você terminou o retrato que me revelou a maravilha de ser belo. Em um momento de loucura, de que ainda hoje não sei se me devo arrepender ou não, eu formulei um desejo insensato… que você talvez qualifique de súplica… (WILDE, 2009, p. 130) 

Dorian transmite ao retrato o vazio de sua existência e a efemeridade da viçosidade. Narciso encanta-se com a imagem sem diferir a fantasia do real. Ambos adentram o abismo do reflexo do não compreender em si ou o para si. 

Na contemporaneidade, a era tecnológica supre pouco as necessidades para o ser-no-mundo. O virtual confirma a ausência do outro, o escorrer de uma lágrima sentida ou o contato de um abraço forte, em que dois corações se encontram fazendo com que o calor do pulsar de ambos surja uma alegria indescritível. 

Mas há o contato sem sentido, o toque impreciso, os sintomas, queixas, o vínculo rompido, a falta de gentileza, de amor para com o outro e consigo mesmo. O suspiro ecoando no silêncio do adeus. O psicólogo refletindo diante da vidraça de si mesmo se a chuva que molha sua janela pode significar ao menos uma gota nas tempestades daqueles que o escutam, que os olhos vêem e os sentidos compreendem.

 Enfim, a contemporaneidade está preparada para uma vida de conflitos e desequilíbrios na ecologia da vida e da natureza? As indústrias de cosméticos e fármacos podem atenuar os sinais da velhice? Podemos assumir uma atitude vampiresca e sugar a seiva alheia tornando-nos escravos e onipotentes na vida do outro. Mas não deixaremos de sermos nós mesmos carregados de frustrações, buscando um sol para aquecer o frio das sombras.

 

REFERÊNCIAS 

CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Tradução: Ari Rotman e Paulina Watch. Rio de Janeiro: Record, 2004.158p. 

CARVALHO, José Maurício. A existência humana. Fenomenologia. Revista Filosofia Ciência & Vida, São Paulo, Escala, ano I, nº 11, p. 34-39, 2007.

DARTIGUES, André. O que é fenomenologia? Tradução: Maria José J.G. de Almeida. São Paulo: Moraes, 1992. p.101-107. 

ERTHAL, Tereza Cristina Saldanha. Terapia vivencial, uma abordagem existencial em psicoterapia. Petrópolis: Vozes, 1990. p.57-67 

FEIJOO, Ana Maria Lopez Calvo de. A escuta e a fala em psicoterapia, uma proposta fenomenológico-existencial. São Paulo: Vetor, 2000. 197p. 

LÄNGLE, Alfried. A vivencia-do-ser como chave da experiência-de-sentido. In:______Dar Sentido à vida, a logoterapia de Viktor Frankl. Frankl at AL. Petrópolis. Rio de Janeiro: Vozes, 1992. p.47-61. 

RANIS, Fonseca. O desespero como parte integrante da condição humana. Filosofia em sala de aula, encarte do professor, nº29, p.10-16; Revista Filosofia Ciência & Vida, São Paulo, Escala, ano IV, nº 40, 2009. 

ROMERO, Emílio. O inquilino do imaginário. 3ª ed. São Paulo: Lemos Editorial, 2001. p.153-155. 

RUDIO, Franz Victor. Diálogo Maiêutico e Psicoterapia Existencial.  São José dos Campos: Novos Horizontes, 2001. p.109-133. 

STRATHERN, Paul. Kierkegaard em 90 minutos. Tradução Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed. 1999. 84p. 

WILDE, Oscar. O retrato de Dorian Gray. Tradução: Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2009. 190 p. 


[i] Acadêmica do Curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva.

[ii] Professor supervisor de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

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