//
você está lendo...
EDIÇÃO 2

E2-34 Desenvolvendo as habilidades sociais de pré-adolescentes

 

Luiz Felipe Silva Melo[i]
Gustavo Teixeira[ii]           

RESUMO
O Presente trabalho tem por objetivo realizar uma breve revisão de literatura acerca das habilidades sociais e os comportamentos englobados dentro desta ótica. O texto considera a importância da história de vida no aprendizado, e traz como exemplo de Treinamento em Habilidades Sociais um caso clínico. 

Palavras-Chave: Habilidades Sociais. Reforçamento. Treino das habilidades sociais. 

 

As habilidades sociais são desenvolvidas desde cedo e continuam sofrendo modificações ao decorrer da vida. Segundo Brandão e Derdyk (2003), o modo como nos relacionamos com os outros não é determinados geneticamente, mas sim aprendido no decorrer da vida. Para uma melhor compreensão deve-se se ter em mente um conceito global do que é Habilidade Social.

O comportamento socialmente habilidoso é esse conjunto de comportamentos emitidos por um individuo em um contexto interpessoal que expressa os sentimentos, atitudes, desejos, opiniões ou direitos desse individuo, de um modo adequado à situação, respeitando esses comportamentos nos demais, e que geralmente resolve os problemas imediatos da situação enquanto minimiza a probabilidade de futuros problemas (Caballo, 1996, p. 365).

Partindo deste conceito pode-se dizer que existem mais dois tipos de comportamentos que se contrapõe ao comportamento socialmente habilidoso. São eles: o comportamento Agressivo e o comportamento Passivo ou não assertivo, que será assinalado no exemplo de caso posteriormente. O comportamento agressivo, de acordo com Brandão e Derdyk (2003), diz respeito às pessoas que precisam se valorizar depreciando os outros, não respeitam a opinião de ninguém e se expressam hostilmente, muitas vezes partindo para agressão física ou verbal. A análise do comportamento parte do pressuposto que todo comportamento tem uma função, sendo assim, a emissão destes comportamentos inadequados são mantidos por suas consequências. As pessoas que exibem um comportamento agressivo geralmente conseguem atingir seus objetivos. Neste caso, essas pessoas são reforçadas por se comportarem de determinada maneira.  

Alguns reforços consistem na apresentação de estímulos, no acréscimo de alguma coisa, por exemplo, alimento […] estes são denominados reforços positivos. Outros consistem na remoção de alguma coisa, por exemplo, muito barulho […], estes se denominam reforços negativos. (SKINNER, 2007, p. 81). 

Devemos considerar também as agressões induzidas por punições, pois “Punição e Privação levam a agressão.” (SIDMAN, 1995, p.221).

As pessoas que agem principalmente baseadas em reforçadores negativos são as chamadas pessoas passivas ou pessoas não assertivas, que segundo Brandão e Derdyk (2003), são aquelas que fogem de qualquer confronto por menor que seja. Nunca tomam uma decisão ou iniciativa, não são diretos ao conversar e acabam não atingindo seus objetivos, sentindo-se culpados, com raiva ou inferiorizados. 

As Habilidades Sociais contribuem muito para uma melhor qualidade de vida em amplos aspectos. Para Brandão e Derdyk (2003), estas habilidades são fundamentais para o desenvolvimento profissional e pessoal. Partindo desse ponto de vista, fica fácil entender porque há o treino de Habilidades Sociais e sua importância em ajudar os indivíduos. É bom ressaltar que há situações que um pouco de agressividade será necessária, ou até mesmo o comportamento não assertivo terá sua função.  

Após esses motivos fica evidente a importância de um treino em Habilidades sociais. Esse treinamento de habilidades sociais, ou THS, segundo Caballo (1996, p.397), “compõe-se de um conjunto de procedimentos de terapia comportamental que ensina os indivíduos a comportar-se adequadamente em situações sociais”. O procedimento de THS pode ser divido em quatro etapas que de acordo com Caballo (1996), são elas: a construção de um sistema de crenças que mantenha respeito pelos próprios direitos pessoais e por todos os direitos dos demais; a auto-observação, onde o paciente deve saber discriminar entre respostas não assertivas, assertivas e agressivas; ênfase na reestruturação cognitiva dos modos inadequados de pensar do individuo desajustado e o ensaio comportamental de respostas socialmente adequadas em determinadas situações.

 

CASO CLÍNICO: 

Marcos[iii], que tem 12 anos, participa de uma associação que atende crianças de 6 à 14 anos de bairros carentes. Marcos havia sido atendido por outra estagiária quando tinha nove anos, onde há relato de amostras de comportamento agressivo. Na época sua mãe estava se separando de seu pai e houveram diversas brigas as quais Marcos pode presenciar, e possivelmente copiou tais comportamentos agressivos (modelação). Assim após os pais se separarem os comportamentos agressivos cessaram, instaurando assim um repertório comportamental não assertivo facilmente observável. Marcos mora com sua mãe e fica os fins de semana na casa de seu pai, talvez seu maior reforçador e modelo. Marcos tem paixão por vídeo-games, e joga todo fim de semana. A queixa da mãe era que Marcos era “esquisito”, isto porque segundo ela, ele não tinha amigos e só brincava com seus primos que são bem mais novos (7 e 8 anos). Outra queixa era o desempenho escolar onde Marcos acabara de repetir um ano. Nos primeiros atendimentos, Marcos demonstrou ser um garoto com um bom repertório, conversou bastante comparado aos relatos a respeito dele. O vídeo-game foi utilizado como mediador para estabelecer e fortalecer a relação terapêutica. Após isto iniciou-se os procedimentos de Modelagem, reforçando as respostas adequadas, como por exemplo, criação de jogos onde os escores eram utilizados para brincar de matemática e reforçando as respostas corretas (considerando respostas corretas não só a resolução da conta mas o simples fato de levantar a mão e perguntar, já que na escola esse comportamento por relato do próprio Marcos não era emitido por “vergonha”). Sem contar o principal fator que era a modelação através dos jogos, principalmente futebol de botão, o presente autor tentou demonstrar respostas compatíveis com a situação como a comemoração exacerbada de um gol, correndo pela sala, gesticulando com os braços, para demonstrar que isto não era ofensivo ao outro jogador.  

A reestruturação cognitiva foi um importante processo. Uma das queixas de Marcos era que ele não conseguia dizer não. Por exemplo, após certo tempo de atendimento, Marcos havia conseguido aumentar seu repertório e conseguiu fazer um amigo de sua idade, o problema se dava quando os dois estavam jogando vídeo-game na casa de seu pai e seus primos chegavam e não queriam que ele jogasse e exigiam que parasse de brincar com seu amigo. Marcos acabava cedendo, pois dizia que se não o fizesse seus primos iriam chorar ou não iriam gostar mais dele. Deste modo começou a ser questionado, por que desligar o vídeo-game se o vídeo-game além de ser dele ainda estava em sua casa. Foi questionado a respeito do que realmente aconteceria se ele não cedesse a pressão de seus primos. Marcos foi conseguindo generalizar seus comportamentos adquiridos nas sessões para sua vida, o que proporcionou alguns ganhos e a medida que novas respostas mais adequadas foram sendo emitidas acabaram por si só sendo reforçadas.  

Na escola Marcos teve uma melhora significativa. Agora quando tem dúvida levanta a mão para perguntar e é um dos melhores alunos da sala. Marcos é o goleiro do time de sua sala e já deu amostras que não tem receio de se posicionar perante seus colegas mesmo quando tentam intimidá-lo. Na associação as orientadoras disseram que ele está “falante até demais”, agora expõe o que pensa como contar, por exemplo, que gosta de algumas garotas. Marcos fez novos amigos e passou a não ceder sempre aos caprichos dos primos que no começo reclamaram de sua nova postura, mas se acostumaram. Quanto à mãe de Marcos, ela diz que o filho melhorou bem na escola e segundo ela “parece que ele está mais esperto, agora ele deu de falar e até quer me corrigir às vezes”. 

Como já foi dito, as habilidades Sociais são de suma importância para o crescimento e adaptação do individuo ao meio que está inserido. Muito dos problemas que aparecem na clinica psicológica devem-se ao fato de problemas interpessoais, daí a importância de um individuo com um bom repertório em habilidades sociais, sendo que a chance da pessoa socialmente habilidosa de obter sucesso em seus comportamentos, e se sentir bem é muito maior. Deste modo as pessoas socialmente habilidosas geralmente obtêm reforços interpessoais que aumentam a autoestima e, por obterem êxito em seus comportamentos, também possuem boa autoconfiança, o que colabora ainda mais para a manutenção desses comportamentos assertivos.

 

REFERÊNCIAS

BRANDÃO, Fernanda Silva; DERDYK, Priscila. Coto assertivo: um guia para jovens. In: BRANDÃO, Maria Zilah da Silva; CONTE, Fátima Cristina (Orgs.). Falo ou não falo?Expressando sentimentos e comunicando idéias. Arapagas: Mecenas, 2003, cap.6, p. 49-55.

CABALLO E. Vicente. O Treinamento em Habilidades Sociais. In:____. Manual de Técnicas de Terapia e modificação do Comportamento.São Paulo: Santos , 1996. cap,18, p.361-398. 

SIDMAN, Murray. Coerção e suas implicações. Campinas: Psy, 1995 301 p.

SKINNER, B.F. Ciência e Comportamento Humano. João Carlos Todorov;Rodolfo Azzi. 11. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007. 489 p.


[i] Acadêmico do Curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva.

[ii] Professor supervisor de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva 

[iii] Nome fictício

Discussão

Os comentários estão desativados.

Núcleo de Publicações Acadêmicas Newton Paiva

A REVISTA DE PSICOLOGIA é uma publicação do Curso de Psicologia e desenvolvida pelo Núcleo de Publicações Acadêmicas do Centro Universitário Newton Paiva