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EDIÇÃO 2

E2-35 A criança hospitalizada e sua família

 

Margareth Felippe Trindade[i]
Claudia Neto[ii] 

RESUMO
Este trabalho enfoca a atuação do psicólogo junto à criança hospitalizada, objetivando a diminuição do sofrimento e, juntamente com a família, criando novas formas de se relacionarem com a doença.

Palavras-chave: Criança. Hospital. Família. 

 

A atuação do psicólogo junto às crianças hospitalizadas objetiva fundamentalmente a diminuição do sofrimento inerente ao processo do adoecer e da hospitalização. O psicólogo atua no sentido de fazer com que a hospitalização e a situação de doença sejam melhor compreendidas pela criança e sua família, bem como de evitar situações difíceis e traumáticas. “Brincando” e “conversando” com o psicólogo, as crianças expressam seus medos, dúvidas, angústias, aliviando assim seu sofrimento e caminhando para uma recuperação mais rápida.

O presente trabalho surge da necessidade de refletir sobre o atendimento psicológico à criança hospitalizada, buscando conhecer os meios e o processo utilizado por uma criança submetida a um tratamento invasivo para expressar a sua vivência. Parte-se do pressuposto de que a expressão é um momento importante da compreensão e elaboração simbólica. 

Dentro do hospital, sua primeira impressão é de estranhamento, há um profundo desconhecimento, algo invasivo vai surgindo, e com isso a criança associa com algo punitivo, gerando uma sensação de abandono.  

O hospital para a criança é um lugar de proibições, onde ela não pode fazer as coisas que gosta; é um lugar de solidão, lágrima e saudade. 

A família é o conjunto natural para o crescimento e cura de um contexto que o terapeuta de família dependerá para atualização de seus objetivos terapêuticos. A família é um grupo natural que através dos tempos tem desenvolvido padrões de interação. Esses padrões constituem a estrutura familiar, que por sua vez governa o funcionamento dos membros da família, delineando sua gama de comportamentos e facilitando sua interação. Uma forma viável de estrutura familiar é necessária para desempenhar suas tarefas essenciais e dar apoio para a individuação ao mesmo tempo em que provê um sentido de pertinência. (VASCONCELLOS, 2005). 

Para Minuchin (1982), a estrutura familiar é o conjunto invisível de exigências funcionais que organiza as maneiras pelas quais os membros da família interagem, mas a estrutura da família deve ser capaz de se adaptar quando as circunstâncias mudam. 

Na área médica, as práticas sistêmicas contrastam fortemente com as práticas tradicionais, nas quais geralmente se evidencia um pensamento linear, determinista, de busca de compreensão clara de relações de causa-efeito e de intervenções que sempre pretendem a cura de uma patologia. .(VASCONCELLOS, 2005).

Para Vasconcelos (2005), ficou evidente também como os efeitos e interações entre alguns membros da família podem ser identificados no funcionamento do corpo de outros membros da família. Isso pode conduzir os profissionais da área médica a novas maneiras de ver e lidar com os ‘’sintomas físicos’’ de seus pacientes. 

São muitas as situações de crise vividas dentro do hospital. Elas são caracterizadas por dor, doenças, perdas, desespero e desamparo. 

A criança passa a ser um objeto em uma situação na qual os enfermeiros e médicos ditam todas as ordens, estabelecendo horários de comer, tomar banho, e etc.

Para Oliveira (1999) a dor de estar internada pode tomar maior dimensão se essa criança não puder falar de seu sofrimento. 

A importância do psicanalista e o atendimento sistêmico no hospital é de acolher o pedido de ajuda do sujeito, onde é  inevitável algum tipo de crise nesse lugar onde a sombra da morte ronda. 

Segundo Kruel (1999 apud Decat,1999), a psicanálise trabalha de modo a fazer com que o tempo da urgência dê lugar ao tempo de compreender. É preciso que o paciente se coloque a falar do que esta acontecendo. A partir daí é que vão poder se formular as perguntas que estabilizam a criança. 

Portanto, a criança doente e hospitalizada demonstra a capacidade de observação e captar situações que acontecem ao seu redor, onde os adultos tentam ocultar. Nesse aspecto, a incompreensão do adulto e sua falta de respostas aos questionamentos da criança doente provocam mais dor e são causadores de conflitos. 

Neste sentido, Angerami (1996) informa que as crianças doentes têm um contato direto e íntimo com seu corpo, portanto, percebem a sua deterioração, e suas perguntas pedem um maior esclarecimento do que já sabem. 

Vários efeitos psicológicos podem ser citados como conseqüência da situação da doença grave, morte e hospitalização em crianças como: negação da doença, revolta, ansiedade, depressão, projeção, solidão, entre outros. 

Concluo que a proposta do trabalho com crianças e famílias deve fazer do hospital um lugar que atenue o sofrimento ao colocar o sintoma para deslizar metonimicamente através da associação livre, pondo a cadeia de significantes em movimento. No final desse percurso, o deslocamento com as verdades que o analisante isolou liberando a pulsão, permitindo um movimento endereçando ao outro. Esse movimento possibilita que a criança passe a sua dor de existir ao prazer de viver, que sustenta na falta estrutural que se chama desejo. 

A terapia familiar trata aquilo que torna difícil para a família, ajudando-os a enfrentar seus problemas e criar novas maneiras de se organizarem. Com as sessões terapêuticas, a família e a criança entram em contato com os sentimentos e produzem novas formas de vivenciar com a doença produzindo um bem estar.

 

 

REFERENCIAS 

MOURA,Marisa Decat de.(org.) Psicanálise e hospital. Rio de Janeiro: Revinter,1999.p16. 

ANGERAMI,Augusto Valdemar-Camon (org.) E a psicologia entrou no hospital…,São Paulo: Pioneira,1996.p21.

MINUCHIN,Salvador Famílias: funcionamento & tratamento. Porto Alegre: Artes Médicas,1982.p.34                                   

ESTEVES DE VASCONCELLOS,MJ. Pensamento sistematicamente nossas relações familiares, a partir do novo paradigma da ciência In: AUN, J ESTEVES DE VASCONCELLOS, M.J. COELHO,S. Atendimento sistêmico de famílias e redes sociais. Vol1. Fundamento teóricos e epistemológicos.Belo Horizonte: Ophicina de arte e prosa,2005,p.107. 


[i] Acadêmica do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

[ii] Professora supervisora de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva

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