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EDIÇÃO 2

E2-36 De que se Trata Isso que me Faz Sofrer?

 

Maria Cristina Guimarães Gomes[i]
Geraldo Martins[ii] 

RESUMO
Este trabalho tem como objetivo pensar as dificuldades e os impasses para o estagiário frente ao início da clínica em uma perspectiva psicanalítica. Será apresentado um fragmento de caso e um breve percurso pelos caminhos, condições da análise proposto por Freud e Lacan. 

Palavras – chave: Demanda, transferência, analista, diagnóstico, condução do tratamento.

 

“Eu te peço que recuses o que te ofereço, porque não é isso.”
Lacan
 

 

As primeiras palavras de L. ao entrar no consultório são: “eu vim aqui porque eu preciso de ajuda. É que eu tenho muito medo. Interrompe-se e pergunta: eu posso falar qualquer coisa, de mim e da minha família?”. Diante da afirmativa de que ali, de tudo poderia falar L. continua. “É que na minha família tem muito caso de suicídio. Na família da minha mãe, três pessoas se suicidaram. Duas tias e um tio”. “Não sei direito como aconteceu, eu era muito criança. Eu tenho muito medo sabe? As pessoas ficam falando que esse negócio de esquizofrenia é hereditário. Eu fico pensando, não paro de pensar. E se for hereditário? É hereditário?

A questão que aqui se coloca é com relação à direção do tratamento. FREUD (1913) salienta em seu texto; Sobre o início do tratamento, (novas recomendações sobre a técnica da psicanálise I) que o que está em jogo neste momento é o tratamento de ensaio, que visa entre outras coisas ligar o paciente à pessoa do analista, através do estabelecimento da transferência, sem a qual não há tratamento. Encontra-se também presente a questão do diagnóstico diferencial estrutural entre neurose e psicose, situações distintas, nas quais se coloca uma direção específica para o tratamento. Freud informa que neste momento se deve deixar o paciente falar quase todo o tempo, cabendo ao analista falar o estritamente necessário para fazê-lo prosseguir em seu discurso. L. prossegue: ”Mas são essas coisas, esse medo de estar doente, igual na minha família. Tenho pavor de tomar remédio para cabeça, porque pra problema de cabeça não tem cirurgia”. Prossegue em seu sofrimento, em sua indagação: sou louca ou não sou? 

Na supervisão, momento em que se configura um dos três pilares da Psicanálise, coloca-se a questão da demanda. Lacan (1998) salientou que toda demanda é demanda de amor e que como tal, no processo analítico, não poderá ser atendida, situação importante para a continuidade do tratamento. Atendendo-se a demanda poderá acontecer a interrupção do trabalho de análise.  

Para o estagiário coloca-se a questão: como manejar de maneira a não responder atendendo a demanda e ao mesmo tempo trazer algo que sustente o sujeito no querer prosseguir?  

Conforme Lacan (1998) em, A direção do tratamento e os princípios de seu poder, é certo que o analista dirige o tratamento, mas este não deve de modo algum dirigir o paciente. Neste sentido, a direção do tratamento consiste em levar o sujeito a aplicar a regra analítica. E neste empreendimento, o paciente não é o único com dificuldades ao investir a sua quota. O analista também paga; com suas palavras que serão elevadas a seu efeito de interpretação pela operação analítica, com sua pessoa, na medida que a empresta como suporte aos fenômenos provocados pela transferência, e também com o que “há de essencial em seu juízo mais íntimo, para intervir numa ação que vai ao cerne do seu ser’’. (LACAN, 1998, p. 593) 

FREUD (1937), em Construções em análise, alerta sobre a preocupação dos analistas principiantes em relação a interpretar as associações do paciente e em como lidar com o recalcado. Traz neste texto que as reais dificuldades que terão que enfrentar, será o manejo do transferência. O analista fica no limite, buscando manter o amor transferêncial, mas buscando não satisfazer a demanda e, é ai que se encontra o delicado da questão, a arte do manejo. 

MILLER (1995), em A lógica na direção da cura sustenta que “o sujeito da experiência analítica aprende o que não pode obter através da demanda, aprende a não pedir mais, porque toda demanda é fundamentalmente sem saída”. Porém, somente no final de análise, quando se desvanece o Outro a quem demandar e o próprio lugar da demanda é que se pode desistir da demanda. 

L. precisará ainda estabelecer a transferência, se queixar do seu sintoma, significado do Outro, que segundo Quinet (2007), em As 4 + 1 condições da análise, no inicio do tratamento possui um estatuto de resposta. Precisará passar por uma retificação subjetiva de sua posição frente ao Outro.  

QUINET (2007), afirma ainda que a retificação subjetiva é uma das condições da análise proposta por Freud. Trata-se de uma interpretação que visa fazer uma mudança na posição do sujeito em relação ao sintoma do qual se queixa. Visa introduzir o sujeito na responsabilização da escolha de sua neurose. Algo, para o sujeito histérico, no sentido de indagar sobre a sua participação na desordem da qual se queixa. Assim o sintoma, antes possuidor de um estatuto de reposta, passará a um estatuto de enigma endereçado a aquele analista, se configurando assim, no sintoma analítico, que permitirá a entrada em análise, na qual haverá uma questão a ser decifrada. Neste momento o analista fará o ato analítico aceitando-o em análise. Assim, aceitar um paciente no consultório não significa aceitar em análise. Neste sentido, a questão não seria se o sujeito é analisável, mas que a anasabilidade é função do sintoma, do sintoma enquanto sintoma analítico. 

A partir de então se daria início a análise propriamente dita. O sujeito já retificado em sua posição frente ao Outro, buscará decifrar o enigma ao qual seu sintoma esta a responder, situação somente possível, graças à presença do analista enquanto sujeito-suposto-saber, em sua capacidade de se fazer semblante de objeto (a), com seus vários atos, que levará o analisante a fazer várias voltas sobre os pontos enigmáticos de sua cadeia significante.  

Segundo Quinet (2007) ao analista caberá colocar questões a respeito do significado do sintoma para aquele sujeito e, fazendo uso do tempo lógico do seu discurso fará os cortes, escansões, que decidirá o sentido e a identidade do analisante. Atitude possível somente quando se está seguro quanto à questão do sujeito. 

L. relata que passa muitas coisas pela sua cabeça.  Pensa que busca ajuda por que tenho medo de fazer igual. Relata que afastou da família quando o último caso de suicídio aconteceu, há 20 anos. Sente uma coisa muito ruim só de pensar em ir lá. Ela diz: “Eles falavam muitas coisas e, eu fui ficando com esses medos. Eles dizem que minha família é de loucos”, momento em que é apontado para ela que estas são questões do outro.

Para L. será preciso ainda uma ‘’construção do Outro’’. Outro no qual se encontra misturada, Outro que morre. Outro morto. Poderia- se pensar no caso de L. pelo viés do obsessivo, para o qual a pergunta fundamental que se coloca para o sujeito é sobre estar vivo ou estar morto?  Apesar de todos estes medos L. trabalha e, conforme seu dizer trabalha com metas, adora trabalhar com metas, afinal; “quem não gosta de ganhar um dinheirinho a mais?”. Sofre com pensamentos constantes, a respeito do trabalho, no qual precisa se sair muito bem frente a um patrão que dela exige além da conta, e da morte como Outro que lhe ronda, lhe espreita, goza. 

Algo novo anuncia-se, um corpo que não funciona, corpo cansado, sem energia, que dói. Relata que talvez seja pela falta de exercícios. Não pode caminhar, os joelhos doem. Indagada sobre a possibilidade de caminhar devagar, responde que diante de qualquer pequena caminhada, os joelhos doem. O médico recomendou natação, mas ainda não se decidiu, ainda não encontrou tempo. Tal situação remete à posição do sujeito histérico frente ao Outro a quem dirige suas demandas.  

SOLER (2006), em O que Lacan dizia das mulheres sustenta que o sujeito histérico busca deixar insatisfeito o gozo do Outro. Assim, visa um mais ser, exige ser alguma coisa para o Outro, o objeto precioso causa de seu desejo. Seria um caso de histeria? 

O diagnóstico diferencial é importante, não como uma forma de classificação, mas apenas para um efeito de direção do tratamento. Para o sujeito psicótico, conforme Lacan, não se pode ter como referência o Nome-do-Pai e a castração, tendo o analista a função de ocupar o lugar de secretário do alienado, e no caso de neurose, no plano dos tipos clínicos, para cada sujeito, inventa-se uma análise. Assim, a proposta para este momento é prosseguir, conforme Freud (1913), neste processo de sondagem, apostando em um possível sinal de transferência, e principalmente, qual o tipo de transferência será estabelecida pelo sujeito, e em como sua demanda se particulizará representada pelo seu sintoma.

 

REFERÊNCIAS

FREUD, Sigmund. Construções em análise. (1937). In: _______. Moisés e o Monoteismo, esboço de psicanálise e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1980. p. 289-304. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 23). 

_______. Sobre o início do tratamento. (1913). In: _______. O caso schereber, artigos sobre a técnica e outros e outros trabalhos: (Novas recomendações sobre a técnica da psicanálise I). Rio de Janeiro: Imago, 1980. p. 137-139. (Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud, 12).  

LACAN, Jacques. A direção do tratamento e os princípios de seu poder. In: _______. Escritos. Tradução: Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p. 591-652. 

MILLER, Jacques-Alain. A lógica na direção da cura. 1995. Seminário do IV Encontro Brasileiro do Campo Freudiano. Demanda e Desejo na Entrada em análise, de 03 de dezembro de 1993, em Belo Horizonte. Seção Minas Gerais da Escola Brasileira de Psicanálise do Campo Freudiano. 

QUINET, Antonio. As 4 + 1 condições da análise. Rio de Janeiro: Zahar, 2007. 115 p. 

SOLER, Colete. O que Lacan dizia das mulheres. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. p. 52.


[i] Acadêmica do Curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva. 

[ii] Professor supervisor de estágio do curso de Psicologia do Centro Universitário Newton Paiva. 

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